====== Quatro Elementos ====== //ORIET, Blaise. Héraclite ou La philosophie. Paris: l’Harmattan, 2011.// * O simbolismo dos quatro elementos — Água, Terra, Ar e Fogo — manifesta-se em diversas culturas, como no hinduísmo e no taoísmo, remetendo no Ocidente aos alquimistas e aos primeiros filósofos. * O uso de maiúsculas e a ausência de artigo sinalizam que não se trata meramente de elementos materiais. * A figura de Empédocles é particularmente associada a esse simbolismo, embora nele os símbolos já se apresentem artificiais em comparação à vivacidade encontrada em Heráclito. * A gênese desse simbolismo remonta a uma tradição pré-histórica na qual Terra e Água figuram como símbolos ctônicos anteriores aos símbolos uranianos Ar e Fogo. * O termo ctônico deriva de chthonos, significando terra. * O termo uraniano deriva de ouranos, significando céu. * A transição do mundo ctônico ao uraniano caracteriza-se pela passagem de um ordenamento social matriarcal, estruturado em torno de uma Grande Deusa, para um sistema patriarcal dominado por deuses masculinos. * Tal processo operou-se gradualmente no neolítico, entre 6000 a.C. (época de Çatal Hüyük) e 3000 a.C. (início das civilizações da Antiguidade). * O simbolismo elementar, forjado por tradições imemoriais, sofre um processo de esquecimento parcial com Empédocles e acentua-se com Aristóteles, que os reduz a corpos materiais subordinados à lógica formal. * A abstração logicista empobreceu o sentido da existência e a cadeia ecobiológica e psicossocial. * O elo simbólico constitui o meio pelo qual o homem logrou sustentar um mundo não mais subjugado exclusivamente às leis naturais, instintos e pulsões. * O símbolo permitiu a sobrevivência humana ao Dilúvio. * Determinadas épocas fundamentais demarcam a progressão da humanidade, conforme sugere a obra de Osho Rajneesh. * Há vinte e cinco séculos o Buda Gautama e o mestre Jain Mahavira nasciam na Índia, Lao-tsé e Chuang-tsé na China, Zarathustra na Pérsia, Heráclito na Grécia. * Jamais este planeta foi tão luminoso quanto naquele período. * Atualmente ocorre o encaminhamento para uma nova era de degelo e fluidez. * As coisas passadas estão esvaziadas de substância e o futuro permanece como uma interrogação. * Oferece-se à humanidade a oportunidade de mudar de rumo, como no tempo de Heráclito. * O rio da existência fluirá plenamente, conduzindo aqueles que nele se banharem. * Existe sorte em viver neste tempo de liquefação. * Na tentativa de suportar o rigor de uma idade de ferro, busca-se ao montante das tradições onde reside o simbolismo dos quatro elementos. * Gaston Bachelard dedicou obras específicas a cada elemento em sua poética do devaneio. * A Água e os sonhos. * O Ar e os devaneios. * A Terra e os devaneios do repouso. * A Psicanálise do Fogo. * A compreensão do simbolismo não depende estritamente do recurso aos textos, uma vez que ele se encontra impresso na alma humana, assemelhando-se aos arquétipos de C. G. Jung. * Traços simbólicos podem ser recuperados por meio da reminiscência. * A terra evoca a impassibilidade e a frieza da indiferença, tendo o frio como seu princípio constituinte. * Simboliza tanto a inércia da natureza quanto a fidelidade de um acolhimento isento de interesses. * Tais traços são perceptíveis no comportamento animal, no vigor vegetal e na estabilidade da pedra. * A pedra é guardiã de uma infância lítica ainda instintiva. * A água desperta sentimentos de ambivalência devido ao seu movimento incessante, em contraste com a passividade terrestre. * Sugere a dualidade, a relação e o casal. * Possui uma humildade constante em seu direcionamento para baixo. * Manifesta força ao erodir a pedra ou ao agitar o oceano. * O ar inspira vivacidade e ardor, sendo o calor o seu princípio fundamental. * Enquanto a terra representa o apego, o ar significa o elo, o zelo e a aspiração. * O ar parece libertar-se da gravidade para alcançar os cumes. * O fogo ambiciona o domínio absoluto, embora tal ostentação guarde muito de vaidade elementar. * Tudo parece ceder diante de seu fulgor. * A água é a única capaz de resistir-lhe, desde que utilize os meios adequados. * A ordem de consideração dos elementos deve ser compreendida como uma estrutura ou sistema onde cada parte funciona em razão da configuração do conjunto. * Esse modo determinante revela a flexibilidade e riqueza do simbolismo. * Nenhuma hierarquia prevalece de forma absoluta, sendo todas as configurações aceitáveis. * Propõem-se três possibilidades de ordenamento: a genealógica, a cosmológica e a crítica. * Na concepção genealógica, a Terra figura como o caos e elemento original, seguida por Água, Ar e Fogo. * Na perspectiva cosmológica, possivelmente presente em Heráclito, a sequência é Fogo (absoluto), Água (original), sendo Terra e Ar oriundos da Água. * No ponto de vista crítico, a Água é a essência de todas as coisas e o elemento original. * As configurações mencionadas mostram-se equivalentes e confirmam o primado do ponto de vista crítico. * Afirmar que a Água nasce da Terra implica que ela nasce da indiferença ou do nada. * O mesmo se aplica ao Fogo, pois o caminho para cima e para baixo é o mesmo. * O dito de Heráclito revela que para o filósofo jônio o simbolismo dos elementos constituía uma experiência viva. * A exposição didática seguirá a ordem Fogo, Ar, Água e Terra. * Cada elemento em Heráclito possui jurisdições reconhecidas que definem sua natureza simbólica. * FOGO UM, o inesperado, Diké, o divino, o raio, a vida, o despertar, a saciedade, o repouso, a alma seca, a harmonia não aparente. * AR O TODO, o sopro, a alma, a esperança, o signo, o ardor, o caminho para cima. * ÁGUA O CONFLITO, a dualidade, o humano, a geração, a necessidade, o rio, a alma úmida, a harmonia aparente. * TERRA A CONFUSÃO, a presunção, a impiedade, a multidão, a fumaça, a aparência, o sono, o caminho para baixo. * O Logos e o Mesmo, embora fundamentais em Heráclito, não são referidos a elementos específicos por excederem o particular. * O Mesmo confunde tudo e poderia ser associado à Terra. * Somente o Logos recolhe a unidade preservando as diferenças. * Heidegger, em sua apresentação do Quadripartido (das Geviert), afirma que o Logos ilumina os quatro elementos e os conduz ao enigma de sua universalidade. * A articulação e oposição mútua dos elementos para expressar o Logos são mais relevantes do que seus aspectos isolados. * A análise fundamenta-se nos fragmentos 31, 36, 76 e 126. * Os fragmentos 36 e 76 estabelecem a dinâmica de vida e morte entre os elementos. * Para as almas, é morte tornar-se água; e para a água, morte tornar-se terra. Mas da terra a água nasce, e da água, a alma {36}. * O fogo vive a morte da terra, e o ar vive a morte do fogo; a água vive a morte do ar, a terra, da água {76}. * As relações entre esses fragmentos podem ser diagramadas através de vetores de movimento ascendente e descendente. * A reciprocidade não inclui o Fogo, que simboliza o Um. * O caminho para baixo comporta três etapas mediadas pela Água. * A resolução do conflito (o Logos) equivale ao Fogo. * A unidade pode ser percebida de forma arbitrária ou crítica. * O modo arbitrário corresponde à confusão ou fenomenologia na relação Terra-Fogo. * O modo crítico ocorre pela reflexão do todo segundo o conflito, sendo este o caminho do Logos. * Cada elemento associa-se a dois princípios, um próprio e um de diferenciação. * FOGO: SECO e quente (Um). * AR: QUENTE e úmido (o todo). * ÁGUA: ÚMIDO e frio (o conflito). * TERRA: FRIO e seco (a confusão). * A análise principial revela que todas as relações dependem do Mesmo, embora os fragmentos 36 e 76 possuam sentidos distintos. * O fragmento 36 evidencia a alteridade e a tensão do conflito, utilizando apenas os princípios úmido e frio. * A Água, símbolo do conflito, é o centro dessa análise. * O fragmento 76 destaca a identidade de cada elemento pelo princípio de diferenciação. * O oposto se sustenta {8}. * A expressão viver a morte remete à interdependência entre determinação e alteridade. * Imortais mortais, mortais imortais; vivendo daqueles a morte, morrendo daqueles a vida {62}. * O Logos (o todo-Um) é o resultado de uma pura reflexão através do todo mesmo {41}. * A clareza na relação entre os elementos é reservada a quem compreende o Um-todo como o Mesmo através do Logos. * O fragmento 76 pressupõe o resultado (Aquilo-que-é-sábio), enquanto o 36 indica o caminho. * A unidade crítica (o Logos) compreende até o arbitrário e o divino. * O Logos é apresentado como o caminho essencial para a compreensão da realidade. * Eu sou o Caminho, a verdade, e tua vida. Ninguém vem a Deus senão por [Aquilo] (Evangelho). * O fragmento 31 descreve os ciclos do fogo e o papel central da Água na dinâmica do sistema. * Ciclos do fogo: primeiro mar. De mar, a metade terra e a metade sopro ardente. Mar se expande de parte a parte, e é medida segundo o mesmo Logos que antes de produzir terra {31}. * O caminho para cima e para baixo é um e o mesmo {60}. * Contrariamente ao senso comum, o elemento primordial em Heráclito não é o Fogo, mas a Água. * Relações imediatas ou absolutas não são determinantes. * O ritmo dos ciclos do Fogo regula-se pelos passos medidos pelo conflito na Água. * Puro ritmo {30}. * A Água é o princípio de toda determinação, sendo o primeiro elemento pertinente no caminho descendente. * Da terra a água nasce {36} significa que a água nasce arbitrariamente. * Água é simultaneamente metade Terra e metade Ar. * Todas as determinações requerem relações mediadas cuja expressão comum é a Água. * O caminho para cima é sugerido pelo derrame da Água, indicando uma análise metódica e exaustiva. * O conflito se resolve em um simples encaminhamento. * Ao completar o percurso, a Água é medida segundo o Logos anterior à dissociação em Terra e Ar. * Este Logos reflete a potência do Fogo através do todo. * A resolução crítica transmuta o princípio determinante em essência negativa ou noumenon. * Se Fogo equivale a Água em proporção unitária, o nome pertinente de Zeus é não-Um. * Um, Aquilo-que-é-sábio, se recolhe somente em não admitindo e em admitindo o nome de Zeus {32}. * O fragmento 126 exemplifica o pensamento enigmático de Heráclito sobre as mudanças dos estados físicos. * As coisas frias se tornam ardentes; o ardente se gela, o úmido se resseca; a aridez se torna Nuvem {126}. * Tzetzes e Diógenes Laércio comentam a obscuridade e a complexidade dessas conversões elementares. * A mudança é uma rota ascendente-descendente. * A roda do Logos descreve o processo onde o frio inicial da Terra e da Água evolui para a tensão do conflito. * De mar, a metade terra e a metade sopro ardente. * O signo segundo o Um é uma aura negativa segundo o conflito. * O Logos é a resolução do conflito. * O ar atua como o polo ativo que busca a unidade e a resolução da Água. * O ar é uma exalação da água {12}. * A alma, purificada pelo ressecamento, resolve-se em perfeito esplendor {118}. * A Nuvem simboliza o Logos e a relação Um-todo como uma essência fluida e viva. * As Nuvens são filhas de Oceano. * O face a face com a Ursa setentrional simboliza o Um {120}. * A Água é medida segundo o mesmo Logos que antes de produzir Terra. * O Logos transcende o núcleo do conflito através do caminho ascendente que une os opostos. * O caminho transcende o ponto de encontro das tensões. * A roda gira graças ao vácuo do cubo, ao nada da coisa. * Tudo o que existe é oposto segundo a Água e o Fogo. * A filosofia de Heráclito não visa à verdade absoluta, mas a superação da confusão e a obtenção da lucidez. * Nada se mantém, tudo cede {A. 6}. * A lucidez permite conhecer as coisas como são (aletheia). * O homem é a medida de todas as coisas; das coisas que são, que elas são; das coisas que não são, que elas não são (Protágoras de Abdera).