Phronesis, crítica da tese de Jaeger

AUBENQUE, Pierre. La Prudence chez Aristote. Paris: PUF, 1997.

I. A história das ideias

O esquema jaegeriano que interpreta a doutrina aristotélica da prudência como etapa rumo ao triunfo do ideal de vida político é no mínimo paradoxal, pois o contexto histórico é precisamente o da dissolução da cidade grega.

Estudos recentes demonstraram que os temas helenísticos de recolhimento já estavam presentes em germe na filosofia da Antiga Academia, antes mesmo do período helenístico propriamente dito.

O próprio Aristóteles orienta-se, em vasto âmbito de sua filosofia, para uma reavaliação do ideal contemplativo, como demonstra o uso do termo phronesis na Epinomis.

Seria vão opor ao ideal de vida contemplativa um ideal de vida política que se confundiria com um suposto ideal da prudência, pois a própria Ética Nicomaqueia não conhece outro ideal senão o da vida de inteligência e lazer estudioso.

Do ponto de vista da história das ideias, Aristóteles não é precursor nem da futura moral cívica dos romanos — que Jaeger considera inspirada em Cícero por Dicearco — nem das morais do recolhimento individual típicas da época helenística.

II. As fontes

As reconstruções do Protreptico de Aristóteles — as de Rose, Walzer e Ross — baseiam-se quase inteiramente no Protreptico do neoplatônico Jâmblico, e essa base é metodologicamente frágil.

O gênero proteprético, como observou Gadamer, exclui qualquer discussão propriamente doutrinária, o que impede de fazer do Protreptico o ponto de partida de uma evolução doutrinária da phronesis.

O termo phronesis é usado no sentido aristotélico de prudência apenas nos tratados éticos, e em nenhum outro locus das obras de Aristóteles — nem mesmo nas “esotéricas” — o que impede de usá-lo como critério cronológico.

Aristóteles mesmo indica onde devem ser buscadas as fontes de sua doutrina da prudência: fontes populares e pré-platônicas, não eruditas nem platônicas.

III. A interpretação

Os numerosos escritos suscitados pelas páginas de Jaeger sobre a phronesis pouco esclareceram o sentido filosófico da doutrina da prudência, desviando a atenção para textos marginais em detrimento do texto essencial — o livro VI da Ética Nicomaqueia.

A alternativa entre intelectualismo e empirismo moral dominou até hoje o debate sobre o sentido último da prudência aristotélica, sem que nenhuma das posições logre resolver o problema de fundo.

A própria posição do problema deve ser questionada: perguntar sobre o empirismo ou o intelectualismo de Aristóteles não conduz a nada definitivo enquanto não se perguntar por que Aristóteles faria a virtude depender do conhecimento e de qual conhecimento.