BOUTOT, Alain. Heidegger et Platon: Le probleme du nihilisme. Paris: PUF, 1987.
1. A aproximação entre Heidegger e Platão apresenta-se, à primeira vista, como paradoxal, na medida em que Heidegger dedica poucas linhas e poucos comentários textuais diretos a Platão, o que suscita a questão de saber se uma exegese autêntica do vínculo entre os dois pensadores é possível sem recair no artificialismo ou na extrinsecidade.
2. A única obra de Heidegger inteiramente consagrada a Platão já publicada é Platons Lehre von der Wahrheit (escrita em 1940, publicada em 1942), cujo conteúdo originou-se de uma série de cursos anteriores e é acompanhada por um segundo texto, ainda inédito, dedicado exclusivamente a Platão.
3. Entre as obras publicadas, duas evocam Platão de modo mais extenso, ainda que sem lhe serem inteiramente dedicadas.
4. As demais obras de Heidegger disponíveis evocam Platão apenas de maneira alusiva, geralmente em breves passagens ou dentro de enumerações associadas ao par Platão-Aristóteles, sem que Platão seja tratado por si mesmo.
5. No cômputo geral, Heidegger consagrou inteiramente a Platão apenas duas obras (Platons Lehre von der Wahrheit e o curso sobre o Sofista), sendo que a maior parte de seus desenvolvimentos sobre o platonismo é tardia, posterior a 1930, o que sugere uma indiferença inicial só superada depois, apesar de sua dedicação constante, no mesmo período, a outras vertentes da filosofia antiga.
6. À escassez de textos de Heidegger sobre Platão corresponde uma escassez equivalente de textos platônicos efetivamente comentados, restritos em geral a breves excertos revisitados repetidamente e nem sempre interpretados de modo concordante entre si.
7. A comparação entre o pequeno número de textos dedicados a Platão e a extensa produção sobre Aristóteles, Kant, os pré-socráticos e Nietzsche poderia sugerir que Platão ocupa lugar menor no pensamento de Heidegger e que pouco haveria a esperar de sua confrontação, impressão reforçada pelo caráter fragmentário das referências platônicas empregadas.
8. Essa primeira impressão, contudo, precisa ser corrigida, sob pena de comprometer a existência mesma de uma leitura heideggeriana original e específica do platonismo.
9. A raridade relativa dos textos de Heidegger sobre Platão não deve enganar quanto à importância real da filosofia platônica em seu pensamento, já que Platão representa um momento charneira na história do pensamento ocidental.
10. A escassez relativa dos textos platônicos comentados por Heidegger deve ser compreendida positivamente como expressão do método ou caminho seguido em seu diálogo com Platão, voltado à doutrina (Lehre) enquanto impensado (Ungedachte) subjacente ao dito.
11. Certas interpretações heideggerianas, como a leitura da alegoria da caverna enquanto doutrina platônica da verdade, podem parecer arbitrárias por não se aterem à literalidade dos textos, mas essa aparência decorre da necessidade de toda interpretação recorrer a certa violência (Gewalt) para alcançar o querer-dizer subjacente ao dizer, violência que não se confunde com o arbítrio fantasioso, mas que assegura antes uma fidelidade autêntica ao impensado, evitando a leitura anacrônica de Platão por meio de conceitos pós-platônicos.
12. A leitura heideggeriana do platonismo centra-se, a partir de Platons Lehre von der Wahrheit, no esquecimento da verdade do ser (Sein) em Platão, esquecimento entendido como consequência intrínseca do idealismo platônico, uma vez que caracterizar o ser como ideia (Idee) implica pensá-lo relativamente ao ente sensível, e não em sua verdade própria, fazendo do idealismo platônico a origem do nihilismo de toda a tradição ocidental.
13. O trabalho organiza-se em duas partes.
14. Na primeira parte, dedicada à exegese heideggeriana do pensamento de Platão propriamente dito, examinam-se sucessivamente três eixos temáticos.
15. Na segunda parte, analisa-se a posteridade do platonismo segundo Heidegger, uma vez que Platão é estudado não apenas em si mesmo, mas enquanto inaugurador de uma história cuja metafísica corresponde às possibilidades de essência por ele abertas.
16. A tarefa proposta consiste na elucidação e no comentário da exegese heideggeriana do platonismo tal como se manifesta no conjunto dos textos disponíveis, incluindo os cursos ainda em processo de publicação, organizados em torno do nihilismo platônico como tema central, com atenção às diferenças de ênfase e às eventuais reviravoltas entre uma obra e outra, revelando uma evolução na atitude de Heidegger perante o pensamento platônico que preserva, todavia, certos invariantes.
17. A leitura heideggeriana do platonismo é abordada como obra filosófica original, digna de estudo em si mesma, mantendo-se contudo uma atitude crítica no sentido positivo do termo grego κρίνειν (separar, distinguir para extrair o específico), de modo que a crítica empreendida parte do confronto entre o texto heideggeriano e o texto platônico de referência, evitando julgamentos externos à problemática de Heidegger, em favor de uma abordagem benevolente, porém vigilante.