BOUTOT, Alain. Heidegger et Platon: Le probleme du nihilisme. Paris: PUF, 1987.
1. A representação do ser como presença constante não constitui uma peculiaridade exclusiva de Platão, mas atravessa a tradição filosófica porque se articula a uma representação igualmente fundamental do tempo como tempo do agora (Jetzt-Zeit), isto é, como sucessão de “agoras” na qual o passado é aquilo que já não é agora e o futuro aquilo que ainda não é agora, de maneira que a compreensão do tempo como série de presentes condiciona secretamente a possibilidade de conceber o ente como aquilo que permanece e subsiste através dessa sucessão.
2. A investigação heideggeriana de “Ser e Tempo” (Sein und Zeit) e do projeto complementar “Tempo e Ser” (Zeit und Sein) parte precisamente da centralidade do tempo para o ser, buscando destruir a ontologia tradicional mediante a crítica da concepção vulgar do tempo como série de “agoras” e recuperar uma temporalidade originária, fixa mas não sucessiva, finita e não indefinida, estruturada não em três, mas em quatro dimensões e compreendida como irrupção que permite a presentes, passados e futuros entrarem em presença.
3. A origem da interpretação do ser como presença constante pode ser procurada na representação do tempo como sequência de “agoras”, embora também seja possível formular a relação inversa, como ocorre quando a interpretação aristotélica do tempo a partir do agora aparece ela mesma subordinada a uma compreensão previamente estabelecida do ser como presença constante (ständige Anwesenheit), de modo que ser e tempo mantêm uma dependência recíproca na qual cada representação condiciona e sustenta a outra.
4. A relação entre ser e tempo revela-se, portanto, como uma dupla dependência: a representação do tempo condiciona a representação do ser e esta, por sua vez, orienta a maneira de compreender o próprio tempo, razão pela qual a concepção grega e aristotélica toma o tempo como um ente entre outros e tenta apreender sua estrutura no horizonte de uma compreensão do ser implicitamente orientada pela presença constante, enquanto essa própria presença somente se torna inteligível mediante o tempo do agora.
5. Embora Platão não tenha elaborado um tratado especificamente dedicado ao tempo como Aristóteles, a questão temporal já se encontra efetivamente presente em sua filosofia, sobretudo porque Platão e Aristóteles, ao colocarem pela primeira vez de maneira decisiva a questão do ser e da ousia, também se encontram entre os primeiros a interrogarem verdadeiramente a natureza do tempo e sua essência, de modo que a problemática heideggeriana de “Ser e Tempo” não representa uma novidade absoluta, mas uma retomada radical de uma questão já inscrita na origem da filosofia.
6. No Timeu, o tempo surge no contexto da constituição cosmológica do mundo pelo demiurgo, que produz o cosmos tomando como modelo um vivente eterno e procurando aproximar o mundo gerado, móvel e necessariamente imperfeito da eternidade imóvel de seu paradigma, razão pela qual introduz no devir uma ordenação rítmica dos dias, noites, meses e estações, estabelecendo uma regularidade que imita, sem poder reproduzir integralmente, a imobilidade eterna do modelo.
7. A leitura tradicional segundo a qual o próprio tempo seria a imagem móvel da eternidade depende, contudo, de uma determinada interpretação gramatical do Timeu, pois o pronome demonstrativo empregado na passagem pode referir-se não à expressão imediatamente precedente que designaria essa imagem, mas ao céu anteriormente mencionado, fazendo com que aquilo denominado “Tempo” possa ser entendido como o próprio movimento ordenado do Céu e não como uma entidade distinta criada à sua margem.
8. Se a imagem da eternidade for identificada não com o tempo, mas com o Céu e, mais amplamente, com o próprio mundo sensível ordenado, então o movimento regular e cíclico do cosmos imita a eternidade do paradigma divino, enquanto o tempo funciona como meio pelo qual o demiurgo torna possível essa imitação, de modo que não é o tempo em si que copia a eternidade, mas o cosmos ordenado mediante um movimento submetido ao número.
9. Independentemente de se conceber o tempo como imagem móvel da eternidade ou como movimento do Céu, permanece decisivo que Platão o trate no interior de uma cosmogonia, vinculando-o essencialmente ao mundo criado e ao movimento ordenado dos corpos celestes, circunstância que indica uma compreensão do tempo como tempo do mundo (Weltzeit), isto é, como temporalidade mensurável mediante a repetição dos movimentos do Céu, dos dias, noites, meses e estações.
10. O Parmênides confirma a compreensão platônica do tempo a partir do agora ao inserir o problema da temporalidade nas hipóteses relativas ao Uno, pois, embora o tempo não constitua diretamente o tema dessas hipóteses, a possibilidade de predicar temporalidade do Uno torna-se decisiva para determinar se ele participa ou não do ser: na primeira hipótese, o Uno absolutamente Uno ultrapassa todas as determinações e não participa sequer do tempo, enquanto na segunda, sendo e participando do ser, pode receber simultaneamente determinações contrárias, inclusive a participação temporal.
11. A temporalidade requerida para que o Uno participe ora de uma determinação e ora de sua contrária pressupõe que os predicados opostos não possam pertencer-lhe simultaneamente, mas somente sucessivamente, de modo que a análise platônica da mudança, da passagem do ser ao não ser e inversamente, conduz à investigação do instante em que essa transformação ocorre e manifesta de forma particularmente clara o tempo como sucessão de “agoras”.
12. De maneira geral, tanto no Parmênides quanto no Timeu o tempo permanece ligado ao devir, mas enquanto no Timeu o devir é apreendido pelo movimento local regular do Céu, no Parmênides ele aparece sobretudo como alteração, isto é, passagem de um estado a outro, sendo o tempo descrito como aquilo que “marcha” ou “avança”, imagem fluvial corrente que o caracteriza pela sucessividade, transitividade e contínua passagem dos entes temporais.
13. O agora ocupa posição central na análise platônica do devir porque constitui o ponto de passagem necessário de tudo aquilo que se transforma, uma vez que aquilo que vai do “antes” ao “depois” não pode evitar o agora, o qual não é apenas aquilo através do qual o devir transita, mas também aquilo “em que” permanece a cada vez o ente que está devindo, de modo que o Uno está sempre em algum agora, embora jamais permaneça no mesmo agora.
14. O privilégio do agora decorre também de ele marcar precisamente o momento em que aquilo que devém deixa de estar em devir para ser aquilo em que se tornou, pois, sempre que o ente encontra um agora, seu devir é suspenso e ele é momentaneamente aquilo que é, enquanto a transição propriamente dita ocorre no intervalo entre um agora e outro, circunstância que conduz Platão a representar paradoxalmente o devir como sucessão de momentos imóveis.
15. A noção do instante exaiphnes, analisada na terceira hipótese do Parmênides e caracterizada como situada “em nenhum tempo”, poderia aparentemente sugerir uma temporalidade diferente da sucessão dos “agoras” e até aproximar-se da temporalidade originária heideggeriana, mas essa aproximação não se sustenta porque o instante platônico surge primariamente no contexto da mudança e constitui o ponto em que se efetua a passagem entre estados contrários.
16. A afirmação de que o instante está “em nenhum tempo” não significa que ele escape completamente à temporalidade, mas apenas que não possui duração e não constitui uma parte do tempo como o agora da segunda hipótese, aproximando-se antes do agora aristotélico entendido como limite temporal sem extensão, razão pela qual deve ser comparado à análise do agora na Física de Aristóteles e permanece inscrito na forma derivada e nivelada do tempo do agora (Jetzt-Zeit).
17. Apesar de sua aparente intemporalidade, o instante platônico possui uma característica que poderia aproximá-lo superficialmente da temporalidade originária heideggeriana, pois se encontra associado à mudança que faz o ente sair de si mesmo, parecendo adquirir uma estrutura extática; essa semelhança, contudo, desaparece quando se considera que a ekstase heideggeriana não significa transformação de um ente em outro, mas a abertura temporal constitutiva do próprio ser-aí (Dasein).
18. O porvir (Zukunft), primeira ekstase da temporalidade originária, não designa simplesmente o conjunto de acontecimentos que ainda não estão presentes, mas possui sentido existencial como antecipação livre e decidida das próprias possibilidades, pela qual o ser-aí (Dasein), enquanto adveniente, projeta-se constantemente para diante de si e permanece aberto ao seu próprio poder-ser.
19. O ter-sido (Gewesenheit), segunda ekstase da temporalidade originária, não corresponde ao passado entendido como conjunto de coisas que existiram e desapareceram, mas ao retorno do ser-aí (Dasein) sobre si mesmo e sobre sua condição originária, mediante a retomada daquilo que Heidegger denomina seu estar-lançado (Geworfenheit), de maneira que a relação com o que foi permanece constitutivamente aberta e ativa.
20. O presente (Gegenwart), colocado em terceiro lugar e não em primeiro como ocorre na temporalidade derivada, não corresponde ao agora pontual, mas ao movimento pelo qual o ser-aí torna presente (gegenwärtigen) aquilo que Heidegger denomina situação (Situation), isto é, seu ser-no-mundo concreto, permanecendo fora de si mesmo e aberto ao mundo no qual efetivamente se encontra.
21. A ekstaticidade da temporalidade originária não está ligada a um devir ou a uma alteração do ser-aí, mas à estrutura segundo a qual ele se mantém fora de si e aberto ao seu poder-ser, à sua condição originária e ao mundo, de modo que a ekstase deve ser compreendida como advento, irrupção ou fulguração que acontece no coração do ser-aí e constitui sua própria temporalização, e não como um estado fixo ou uma simples transformação ontológica.
22. A semelhança entre o caráter extático do instante platônico e a temporalidade originária heideggeriana permanece, portanto, apenas superficial, pois em Platão o instante é extático enquanto o ente que muda abandona o estado em que estava para tornar-se outro, ao passo que em Heidegger a ekstase constitui originariamente o ser do ser-aí, sua abertura constitutiva e sua existência, de maneira que o instante platônico permanece uma forma derivada e secundária da ekstase primordial.
23. Apesar de Platão compreender fundamentalmente o tempo no Timeu e no Parmênides a partir do agora e, portanto, dentro do horizonte do tempo do agora (Jetzt-Zeit), a noção grega de kairos, o momento oportuno ou favorável, permite entrever uma figura temporal distinta e pode ser aproximada do instante (Augenblick) heideggeriano, que constitui fenômeno originário da temporalidade e não deve ser confundido com o agora (Jetzt) da temporalidade derivada.
24. O kairos aparece em Platão como o tempo próprio, favorável ou oportuno para a realização de uma ação, pois deixar passar o momento adequado significa perder a possibilidade concreta de fazer algo, enquanto agir “no tempo desejado” significa apreender a ocasião em que determinada ação pode realizar-se adequadamente.
25. Embora Platão reconheça a importância do kairos na condução das ações humanas e perceba sua especificidade relativamente à competência puramente matemática, não chega a tematizar seu caráter temporal próprio nem a reconhecer nele uma temporalidade não nivelada e irredutível à repetição numérica do agora, mantendo como concepção dominante do tempo o movimento do Céu no Timeu e a alteração ou sucessão dos estados no Parmênides.