Ver e conhecer

BOUTOT, Alain. Heidegger et Platon: Le probleme du nihilisme. Paris: PUF, 1987.

A interpretação “óptica” do ser e do conhecer em Platão

1. A determinação platônica do ser como idea possui uma significação essencialmente “óptica”, pois a Ideia representa o rosto ou aspecto inteligível do ente e possui uma visibilidade intrínseca pela qual não apenas se oferece à visão, mas torna manifesto o próprio ente que dela participa, de modo que a compreensão do ser como presença constante e a interpretação da ousia como idea convergem numa concepção segundo a qual aquilo que verdadeiramente é se mantém diante do olhar com estabilidade, consistência e permanência.

2. A interpretação ideal do ser como idea determina correlativamente uma interpretação óptica do conhecimento, pois, se conhecer consiste em apreender a Ideia enquanto aspecto inteligível do ente, a relação entre conhecimento e conhecido passa naturalmente a ser elucidada mediante a estrutura da visão, exemplarmente apresentada no final do livro VI da República pela analogia entre o domínio visível e o domínio inteligível.

3. A determinação do conhecimento como visão ou contemplação não se restringe a Platão, mas percorre a tradição filosófica ocidental desde a época platônica, embora represente uma transformação decisiva relativamente ao pensamento pré-platônico, no qual, especialmente em Heráclito, pensar não significava prioritariamente ver o ente, mas escutá-lo, atender ao Logos e corresponder-lhe, sendo com Platão que essa dimensão originariamente “acústica” da relação com o ser começa a ceder lugar ao paradigma óptico que posteriormente se tornará normativo para a metafísica.

4. A própria filosofia de Hegel, embora transforme radicalmente o sentido da intuição e atribua à dialética um caráter especulativo, não rompe com o paradigma óptico instaurado pela tradição platônica, porque sua dialética pode ser entendida como intuição originária conquistada mediante o trabalho do pensamento, como visão do pensamento por si mesmo e como apreensão da unidade na qual o Absoluto se reflete e se reconhece, ao passo que o privilégio grego da visão aparece ainda mais claramente no verbo theorein, cuja estrutura semântica remete à contemplação do aspecto segundo o qual algo se mostra.

5. A tradução latina de theoria por contemplatio introduz uma alteração profunda na experiência grega do conhecer, pois o termo romano deriva de templum e contém a ideia de delimitar, cortar ou separar uma região no interior do real para submetê-la à observação, acrescentando ao puro deixar-ver grego um momento de recorte e ordenação que posteriormente preparará a concepção moderna da teoria como elaboração e construção sistemática da realidade.

6. A compreensão grega e especialmente platônica do conhecimento como theoria ou visão não decorre de uma suposta disposição fisiológica privilegiadamente visual dos gregos nem de condições externas como a luminosidade do ambiente mediterrâneo, mas da própria determinação ontológica do ser como idea e presença constante, porque, sendo o ser compreendido como aquilo que permanece manifesto e consistente, a visão torna-se o sentido particularmente apto para apreender aquilo que se apresenta com estabilidade diante do olhar, fazendo com que a ontologia determine secretamente a epistemologia.