Chaignet: Livro
A distinção entre prazeres que ocorrem por intermédio de movimentos fisiológicos na sequência de sensações e aqueles que se manifestam sem sensação na alma sozinha.
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Existem prazeres ligados ao corpo e prazeres puros da alma, sendo que estes últimos têm por objeto as ciências.
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O corpo sem a alma, a alma sem o corpo, e ambos em conjunto são suscetíveis de prazer e de dor.
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A distinção entre prazeres do corpo e da alma é apenas aparente, referindo-se mais à localização do fenômeno sensível do que à sua verdadeira causa e sujeito.
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A rigor, não há prazeres do corpo, pois sem a inteligência o homem ignoraria se seu corpo goza ou sofre.
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Sem o julgamento verdadeiro, não se saberia que se sente alegria no momento em que ela é experimentada.
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Sem a consciência, ato da alma pouco distinguido por
Platão da inteligência, o homem não sofreria nem gozaria.
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Chamam-se de prazeres e dores do corpo, de forma imprecisa, aqueles que se localizam em uma parte determinada do corpo e que são atribuídos a tal ou tal órgão.
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Sem a memória, os souvenirs de prazeres e dores passados, que são uma grande parte dos prazeres presentes, não existiriam.
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Sem a razão e sem a faculdade de julgar, a experiência do prazer e da dor seria impossível.
A alma se lança sobre suas asas em direção às essências que está ávida de contemplar, mas as paixões grosseiras e vis do corpo, a volúpia simbolizada pelo mau cavalo, revoltam-se contra os sacrifícios que a sabedoria e a castidade pretendem impor.
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Nessa revolta, as paixões abaixam e às vezes precipitam a alma do alto do céu sobre a terra.
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Após muitos combates e lutas, guiada pela inteligência, piloto da alma, ela pode enfim não contemplar nem ver, mas entrever as ideias, termo último e fim supremo de sua viagem.
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Turbada pelo furor de seus cavalos, isto é, pelo elemento passional que encerra, ela só entrevê algumas ideias.
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Essa visão imperfeita e velada de sombras basta, no entanto, para a enlevar e lançar fora de si mesma em um transporte de irressão sagrada.
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Se na vida da alma que acabou de unir-se a um corpo ela não pôde contemplar todas as essências em sua pureza perfeita porque esse esplendor a teria ofuscado, hoje aprisionada no túmulo do corpo, só pode ver as imagens imperfeitas.
A alma humana, para chegar às ideias, é obrigada a atravessar a região inferior do tempo e da mudança, das sombras que passam e das figuras que desaparecem.
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Por sua natureza, que está em afinidade íntima com as ideias, toda vez que reencontra uma imagem mesmo enfraquecida ou uma forma particular, ela tende para a ideia que sustenta essa forma sensível e para o gênero que contém essa forma particular.
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O próprio da alma é reunir o que há de comum em várias sensações e disso fazer uma unidade.
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O mito do
Fedro explica, por detalhes transparentes, os combates e as lutas da alma partilhada e dilacerada entre as exigências cegas da sensibilidade e as vontades esclarecidas e os movimentos livres da razão.
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Estão presentes na alma um gosto refletido do bem, que é o amor do belo verdadeiro, e um apetite inato e violento do prazer, que é a tendência sensual para a forma material.
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Conforme M. V.
Cousin, essa é toda a história interior do amor em todos os seus graus, com o cortejo dos fenômenos necessários de que se compõe.
A análise do amor no Fedro, embora profunda, deixa lacunas e contém erros, especialmente a teoria dos dois cavalos que simbolizam as paixões.
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O amor, que só pode ser o amor do belo, seja excitado pelas artes que o exprimem ou pelos seres reais que contêm alguns pálidos reflexos, é a contemplação de um ideal ou de uma ideia por meio da alma, que é também uma espécie de ideia.
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Trata-se de uma contemplação do semelhante pelo semelhante, pois é em si mesma, nas recordações que a reminiscência desperta, que a alma reencontra o traço obscuro e a luz real do belo ideal.
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O amor é, portanto, um ato intelectual, um fato de conhecimento, uma operação dessas faculdades da alma onde domina o movimento do mesmo, que
Platão não distinguiu da razão.
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Dotada da faculdade de se recolher em si e de se contemplar, a razão contempla nesse ato a essência do que é perfeito.
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Trata-se do mesmo que se dirige para o mesmo, produzindo esse movimento circular da alma que não pode significar outra coisa senão a atividade imanente, o ato perfeito, mas não sem movimento, do ser no seio da identidade.
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Quanto mais se estuda
Platão, mais se verifica a observação de seu douto e eloquente tradutor:
Aristóteles não faz quase nada além de reproduzir, em filosofia pura, as grandes ideias de seu mestre, esclarecendo-as às vezes, mas mutilando a beleza, diminuindo a grandeza e rebaixando o sentido elevado.
Toda a filosofia estética desde Platão gira em torno do ponto que ele fez primeiro: o belo é o ideal.
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Pode-se rejeitar os acessórios dessa teoria e não é obrigatório admitir que o belo é uma ideia ou uma alma vivente, mas ele é algo da alma.
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Não é obrigatório admitir que o belo não é outra coisa senão o bem, pois
Platão reconheceu que há duas espécies de bem: o bem em geral e absoluto, e o bem particular a cada indivíduo.
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Se o belo fosse o bem absoluto, ele seria sem forma, enquanto a noção do belo envolve sempre uma forma representável, e seria meritório, quando o sentimento do belo não é obrigatório nem moral em si.
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Se o belo fosse o bem particular de cada ser, haveria tantas formas do belo quanto bens particulares, e se perderia um dos caracteres mais certos e marcantes do belo, que é ser desinteressado e despido de toda finalidade real.
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Permanece adquirido para a filosofia das artes que o belo é outra coisa que as formas materiais que o mostram e frequentemente o escondem: a verdadeira beleza é ideal.
Há pontos delicados e perigosos na teoria de Platão sobre o amor que aproxima os indivíduos uns dos outros na harmonia, além de um erro grave que é a acusação contra o casamento.
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M. V.
Cousin observou judiciosamente que
Platão, no nono livro das
Leis, castiga severamente as vergonhosas e ignóbeis preferências dos gregos e vinga a moral ultrajada pelos costumes.
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No mesmo livro,
Platão honra e eleva a condição da mulher, aqui um pouco sacrificada, reconhecendo-a capaz dos mesmos trabalhos e suscetível da mesma coragem que o homem, admitindo-a a compartilhar seus perigos.
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Platão nunca variou quanto aos hábitos depravados que infestaram a sociedade grega, e sua cólera e indignação os fustigaram eloquentemente em toda parte.
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Todas as vezes que se trata de um amor casto, estranho ao comércio dos sentidos, enfim platônico,
Platão nunca pensou que a mulher pudesse ser seu objeto.