Alma Senciente

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Na alma inferior, mergulhada na matéria e irracional, as potências pelas quais sua essência se manifesta são não apenas ligadas entre si, mas também nascem umas das outras e são desiguais entre si.

A alma vegetativa, nutritiva, geradora, animal, natureza, sensitiva e representativa existe no germe ou esperma, corpo confuso e indivisível, não necessitando de partes do corpo, órgãos ou figura corporal para existir.

Todas essas potências implicam e têm por condição comum a potência do movimento e simultaneamente a potência do repouso.

Essa potência vital interna possui uma espécie de noção ou consciência que envolve todas as partes do ser que ela vivifica, tendo consciência da unidade que ela mesma cria.

A simpatia que reina no universo como nas potências da alma se exerce não apenas entre as partes de um animal individual e seus órgãos, mas também entre esses órgãos e as coisas sensíveis que os afetam.

Todo ser vivo individual, seja vegetal, animal ou homem enquanto animal, é produto de três causas que concorrem e se unem para gerá-lo: a alma universal, os astros e a alma geradora.

Na geração dos seres vivos, a parte mais considerável deve ser atribuída às razões da alma geradora transmitidas pelos pais no esperma material que é seu veículo.

As razões geradoras que fazem o homem não são as que fazem o animal, e as que fazem o animal não são as que fazem o vegetal.

As potências seminais, ao mesmo tempo una e múltipla, devem ser consideradas como atos e não como substâncias.

Um fato característico e específico das potências da alma sensitiva é que elas se localizam em certas partes determinadas do corpo.

Diz-se que a potência de ver está nos olhos, a de ouvir nos ouvidos, a de gostar na língua, a de odorificar nas narinas, enquanto a potência do tato está em todo o corpo.

Os antigos haviam colocado a razão no cérebro, não porque ela aí resida realmente, mas porque a razão repousa sobre a sensação, a qual tem seu assento no cérebro.

A parte passiva ou passional da alma é aquela onde parecem se produzir as emoções passivas, sendo essas emoções estados psíquicos acompanhados de prazeres e dores.

A natureza não se presta a certos desejos físicos, como os instintos depravados, comportando-se como se fosse já dotada de uma certa força de vontade e pensamento.

A mesma dificuldade sobre onde localizar o desejo e a quem atribuí-lo se apresenta a propósito da cólera.

A propensão à cólera vem sobretudo de um temperamento onde o sangue é fervente, sendo-se mais irascível quando se está doente do que quando se está bem, e em jejum do que saciado.

A cólera tem sempre sua origem na potência vegetativa e geradora que, ao organizar o corpo, o tornou capaz de buscar o que lhe é agradável e fugir do que lhe é contrário.

Pode-se dividir a parte irracional da alma em faculdade concupiscível, identificada ao vegetativo, e em faculdade irascível, considerada como um traço ou efeito enfraquecido da primeira.

Quando a concupiscência desperta, a imaginação, representação do objeto desejado, intervém para avisar e revelar o estado passivo sofrido pela alma, pedindo obediência e fornecimento do objeto desejado.

A propriedade de sentir o prazer e a dor pertence ao corpo no qual residem a natureza e a alma, corpo que, possuindo uma sombra da alma, torna-se capaz de gozar e sofrer.

Esses estados afetivos não pertencem verdadeiramente à alma, mas ao corpo vivo, ao composto.

O produto, o todo, torna-se algo intermediário entre o que era e o que gostaria e não pode tornar-se, sendo ao mesmo tempo dois e um.

O corpo sofre quando experimenta uma modificação, como um corte ou uma queimadura que divide a massa corporal, mas o fremimento doloroso das carnes cortadas se produz porque essa massa é viva.

A parte afetada sofre, a menos que se envolva na ideia de sofrer a percepção sensível que a acompanha ou a segue.

Quando o estado afetivo é uma dor, a alma, querendo evitar o objeto que a causa, produz em si mesma um estado psíquico, a aversão.

Nessa análise psicológica do desejo, distinguem-se três coisas: os apetites que o corpo vivo tem por si mesmo, os apetites da natureza distintos dos do corpo mas que nascem deles, e a alma distinta da natureza que intervém no fenômeno julgando se deve acordar ou recusar as reclamações da natureza e do corpo.

Os outros fenômenos da alma sensitiva revelam ainda melhor sua intervenção.

Todos os desejos corporais têm seu princípio na natureza do corpo vivo e animado, mas não no corpo enquanto massa nem na própria alma, que certamente não deseja coisas salgadas nem doces.

O passional é a causa da paixão, quer o movimento passional nasça nele da imaginação, quer se produza sem nenhuma representação expressa.

Antes de entrar na análise das potências imediatamente superiores, deve-se dar conta da morte, fenômeno da ordem sensitiva.

Da permanência de um vestígio de vida após a morte não se segue que as duas almas que são os princípios respectivos da vida sensível e da vida razoável não sejam diferentes, ao menos por suas funções e potências.