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Na alma inferior, mergulhada na matéria e irracional, as potências pelas quais sua essência se manifesta são não apenas ligadas entre si, mas também nascem umas das outras e são desiguais entre si.
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O caráter próprio e eminente dessa alma é a sensação, potência que reside no composto da alma e do corpo, a partir da qual se desce até a potência geradora e a potência do crescimento.
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Cita-se que a força vital não impulsiona o ser mecanicamente, sendo uma força interna que, mesmo não consciente, é um pensamento e uma forma, podendo-se dizer que essa alma tem a potência de pensar e que não a tem de certo modo.
A alma vegetativa, nutritiva, geradora, animal, natureza, sensitiva e representativa existe no germe ou esperma, corpo confuso e indivisível, não necessitando de partes do corpo, órgãos ou figura corporal para existir.
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O corpo é insensível até o momento em que a alma lhe dá a potência de sentir as modificações e afecções que ele experimenta.
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Essa alma compreende a potência vegetativa, que se compõe da faculdade de nutrição, da faculdade de crescimento ou desenvolvimento no espaço e da faculdade de geração, além da potência de sentir, da imaginação e do apetite.
Todas essas potências implicam e têm por condição comum a potência do movimento e simultaneamente a potência do repouso.
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O movimento é o começo da vida, a vida que aparece sob sua primeira forma, e longe de alterar a essência do ser, ele completa sua perfeição.
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A persistência no movimento determinado e apropriado à essência constitui no ser um estado de estabilidade e identidade consigo mesmo, que está talvez mais em harmonia com sua natureza do que o próprio movimento.
Essa potência vital interna possui uma espécie de noção ou consciência que envolve todas as partes do ser que ela vivifica, tendo consciência da unidade que ela mesma cria.
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Dessa unidade nasce a simpatia ou homopatia, que consiste na faculdade que o animal tem de sentir todas as afecções experimentadas por qualquer uma de suas partes.
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Esse fenômeno não se produz apenas nos indivíduos vivos, pois no universo todas as partes estão ligadas entre si e formam um todo uno, submetendo-se cada uma às afecções de todas as outras.
A simpatia que reina no universo como nas potências da alma se exerce não apenas entre as partes de um animal individual e seus órgãos, mas também entre esses órgãos e as coisas sensíveis que os afetam.
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A sensação, considerada como forma de conhecimento, tem por condição geral que o mundo seja um animal vivo e simpático a si mesmo.
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Os órgãos sensoriais e os objetos sensíveis, por força dessa simpatia, atraem-se uns aos outros e tendem a se unir.
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A simpatia moral dos homens uns para com os outros e para com a natureza inteira se funda no mesmo fato, de modo que toda sofrimento individual é co-sentido pelo universo.
Todo ser vivo individual, seja vegetal, animal ou homem enquanto animal, é produto de três causas que concorrem e se unem para gerá-lo: a alma universal, os astros e a alma geradora.
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A ação da alma universal consiste em esboçar os contornos do corpo, lançando sobre a matéria como um raio da forma, para torná-la apta a receber uma alma individual, começando pela alma vegetativa e animal.
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Os astros, cujas influências são efeito da simpatia que reina em todo o universo, não criam, mas modificam as coisas engendradas e determinam suas qualidades, sendo a ação do próprio sol impotente para criar um homem ou um cavalo.
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Os astros agem apenas sobre os corpos, comunicando-lhes calor e frio e formando os temperamentos, mas são impotentes para dar ao homem seus costumes, gostos e pendores.
Na geração dos seres vivos, a parte mais considerável deve ser atribuída às razões da alma geradora transmitidas pelos pais no esperma material que é seu veículo.
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A razão seminal é uma unidade múltipla que encerra uma espécie de esquema onde se encontram desenhadas e circunscritas interiormente suas potências e pensamentos, cuja divisão interna chega por graus até a última potência, à forma indivisível onde se detêm.
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Cada ser vivo é gerado por pais de sua espécie: o cavalo nasce da razão seminal contida no esperma do cavalo, o homem nasce da razão seminal contida no esperma do homem.
As razões geradoras que fazem o homem não são as que fazem o animal, e as que fazem o animal não são as que fazem o vegetal.
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Umas estão contidas na alma vegetativa, outras na alma animal, e no homem as razões seminais são os atos da alma razoável.
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Mesmo no mineral, e com mais razão no homem, há uma razão viva, ligada por sua origem e essência ao mundo inteligível, pelo trabalho íntimo, escondido e inconsciente do qual se produz a criação de tudo o que pertence à sua essência.
As potências seminais, ao mesmo tempo una e múltipla, devem ser consideradas como atos e não como substâncias.
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Elas são inferiores ao seu princípio, pois o que dá é maior do que o que é dado, e a causa não é idêntica ao causado.
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Cita-se a proposição de que é preciso considerar o que dá como maior e o que é dado como menor do que o que dá.
Um fato característico e específico das potências da alma sensitiva é que elas se localizam em certas partes determinadas do corpo.
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A sensação se estendendo a todo o corpo, a alma sensitiva aí se espalha e necessariamente aí se divide relativamente às partes do corpo que a recebem, embora se possa dizer que ela é indivisa porque está toda inteira presente a cada uma delas.
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Cada parte do corpo recebe a vida de maneira diferente, e a alma reparte a cada órgão, segundo sua disposição a tal ou tal função, a potência que lhe é necessária para preenchê-la.
Diz-se que a potência de ver está nos olhos, a de ouvir nos ouvidos, a de gostar na língua, a de odorificar nas narinas, enquanto a potência do tato está em todo o corpo.
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O tato tem por órgãos os primeiros nervos, em sua origem e ponto de fixação, sendo eles que possuem a potência motora do animal.
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Como os nervos têm sua origem no cérebro, foi no cérebro que se deveu colocar o princípio da sensação e do apetite, princípio de toda a vida animal.
Os antigos haviam colocado a razão no cérebro, não porque ela aí resida realmente, mas porque a razão repousa sobre a sensação, a qual tem seu assento no cérebro.
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A alma é sobretudo dividida na sensação do tato, uma vez que o corpo todo lhe serve então de órgão, mas ela também é dividida nas outras sensações, embora em menor grau.
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As potências puramente vitais, contidas nas veias, têm sua origem no fígado, que foi designado como sede da parte concupiscível.
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O coração, fonte do sangue, é justamente designado como a sede da efervescência da potência irascível.
A parte passiva ou passional da alma é aquela onde parecem se produzir as emoções passivas, sendo essas emoções estados psíquicos acompanhados de prazeres e dores.
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Os apetites, dores e prazeres, considerados como afecções e não como sensações intelectuais, têm sua origem no corpo organizado e vivo, na parte comum.
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Há apelos do desejo que ainda não são desejos, e antes mesmo que a reflexão tenha nascido, a alma não quer beber ou comer, embora o desejo tenha chegado já a uma certa intensidade.
A natureza não se presta a certos desejos físicos, como os instintos depravados, comportando-se como se fosse já dotada de uma certa força de vontade e pensamento.
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Os diferentes estados do corpo são causas que produzem no concupiscível desejos diferentes, mas isso não explica por que a potência psíquica concupiscível experimenta essas diferenças de desejos, uma vez que não é ela que recebe satisfação.
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A comida, o calor, a umidade, o movimento não aproveitam a ela, nem é ela aliviada pela evacuação ou preenchida pelos alimentos ingeridos, pois tudo isso é para o corpo.
A mesma dificuldade sobre onde localizar o desejo e a quem atribuí-lo se apresenta a propósito da cólera.
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No fato psíquico de irar-se há um elemento de percepção e inteligência, e a parte irascível pode ser ora covarde, ora corajosa, sem mudar de natureza.
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A covardia da parte irascível só pode ser porque ela não considerou a razão, ou porque a razão do ser está pervertida, ou ainda porque a fraqueza dos órgãos lhe impede de cumprir sua função própria.
A propensão à cólera vem sobretudo de um temperamento onde o sangue é fervente, sendo-se mais irascível quando se está doente do que quando se está bem, e em jejum do que saciado.
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Os transportes da cólera são excitados pelo sangue ou pela bile, partes vivas do organismo, e sob efeito de uma impressão corporal, o sangue e a bile se põem imediatamente em movimento e a cólera explode.
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A injustiça irrita mesmo quando o temperamento não está disposto à cólera, havendo portanto um momento racional na cólera.
A cólera tem sempre sua origem na potência vegetativa e geradora que, ao organizar o corpo, o tornou capaz de buscar o que lhe é agradável e fugir do que lhe é contrário.
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A cólera é idêntica em essência à faculdade concupiscível, e os que são menos inclinados aos prazeres corporais são também menos inclinados à cólera e às paixões desrazoáveis.
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Os vegetais não são sujeitos à cólera embora possuam o vegetativo a que se liga a cólera, porque não têm nem sangue nem bile.
Pode-se dividir a parte irracional da alma em faculdade concupiscível, identificada ao vegetativo, e em faculdade irascível, considerada como um traço ou efeito enfraquecido da primeira.
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O gênero vegetativo não será então dividido em suas espécies naturais segundo a regra lógica, pois a espécie deve dividir o gênero em diferenças opostas e contrárias.
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Pode-se conservar a divisão tradicional em dois membros como as duas potências opostas derivadas de uma mesma potência geral, o desejo, divisão que não toca a substância, pois a alma não é desejo.
Quando a concupiscência desperta, a imaginação, representação do objeto desejado, intervém para avisar e revelar o estado passivo sofrido pela alma, pedindo obediência e fornecimento do objeto desejado.
A propriedade de sentir o prazer e a dor pertence ao corpo no qual residem a natureza e a alma, corpo que, possuindo uma sombra da alma, torna-se capaz de gozar e sofrer.
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A alma razoável em nós percebe esses prazeres e dores apenas sob a forma de um conhecimento que, como tal, não nos faz experimentar nenhuma emoção nem afecção.
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Se o corpo não é nós, ele não nos é estrangeiro, pois é nosso corpo, e a ele estamos ligados, sendo a parte mestra e superior da nossa alma.
Esses estados afetivos não pertencem verdadeiramente à alma, mas ao corpo vivo, ao composto.
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Nem a alma nem o corpo em si podem ser sensíveis a essas afecções, porque cada um em seu gênero é algo de uno, e a divisão das partes do corpo não o atinge, tocando apenas a unificação dessas partes.
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Do composto que forma o corpo presente à alma ou a alma presente ao corpo, cuja unidade não é natural e verdadeira, mas artificial, nasce a dor, que proclama por sua presença que o ser não é uno.
O produto, o todo, torna-se algo intermediário entre o que era e o que gostaria e não pode tornar-se, sendo ao mesmo tempo dois e um.
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Essa sociedade imperfeita, mal-assortida e mal-assegurada, sempre puxada nos dois sentidos contrários, encerra em si um princípio de desarmonia e contradição.
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A dor é um conhecimento de que o corpo está privado da imagem da alma sensitiva, e o prazer é um conhecimento de que a alma sensitiva está novamente em relação mais harmoniosa com o corpo.
O corpo sofre quando experimenta uma modificação, como um corte ou uma queimadura que divide a massa corporal, mas o fremimento doloroso das carnes cortadas se produz porque essa massa é viva.
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A alma total tem a sensação da afecção que se produziu, mas não experimentou a afecção mesma, pois os atos das essências imateriais não implicam de modo algum que essas essências padeçam.
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A alma total percebe a sensação e diz que a afecção está onde foi dado o golpe, localizando o sofrimento.
A parte afetada sofre, a menos que se envolva na ideia de sofrer a percepção sensível que a acompanha ou a segue.
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A sensação da dor é o conhecimento da dor, e enquanto conhecimento, escapa à afecção, sendo essa impassibilidade necessária para que a alma possa dar conta do fenômeno afetivo.
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Se a faculdade que conhece experimentasse a afecção dolorosa ou agradável, absorvida pela dor ou pela fruição, ela não saberia mais o que se passa, ou o saberia mal.
Quando o estado afetivo é uma dor, a alma, querendo evitar o objeto que a causa, produz em si mesma um estado psíquico, a aversão.
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A natureza engendra o desejo, a sensação engendra a representação, após a qual a alma ou satisfaz o desejo da natureza, ou lhe resiste.
Nessa análise psicológica do desejo, distinguem-se três coisas: os apetites que o corpo vivo tem por si mesmo, os apetites da natureza distintos dos do corpo mas que nascem deles, e a alma distinta da natureza que intervém no fenômeno julgando se deve acordar ou recusar as reclamações da natureza e do corpo.
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O princípio e a origem do desejo estão no corpo que sofreu uma afecção, corpo que tem seu desejo próprio de substituir a dor pelo prazer, preencher o vazio e satisfazer a necessidade que experimenta.
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A natureza, como uma mãe, adivinha os desejos do corpo, os partilha e procura satisfazê-los, associando seus esforços, dirigidos por um instinto, aos movimentos puramente vitais do corpo.
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A alma pensante é que aparece, é a razão que começa, quando se trata de julgar se é preciso acordar ou recusar as reclamações da natureza e do corpo.
Os outros fenômenos da alma sensitiva revelam ainda melhor sua intervenção.
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A vergonha é para a alma a opinião de que tal coisa é feia, enquanto para o corpo é uma modificação produzida nele pelo sangue e sua mobilidade.
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O medo tem seu princípio na alma, manifestando-se no corpo pela palidez produzida pelo refluxo brusco e violento do sangue ao coração.
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Na alegria, a dilatação da qual se tem consciência se passa no corpo, mas o que se passa na alma não é uma paixão.
Todos os desejos corporais têm seu princípio na natureza do corpo vivo e animado, mas não no corpo enquanto massa nem na própria alma, que certamente não deseja coisas salgadas nem doces.
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Pode-se chamar os desejos e as outras paixões, como também as opiniões e os raciocínios, de movimentos da alma, mas não se deve entender com isso que a alma seja agitada por um outro: é dela que nascem esses movimentos.
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A virtude e o vício não produzem na alma nada que se assemelhe ao que o quente e o frio produzem no corpo.
O passional é a causa da paixão, quer o movimento passional nasça nele da imaginação, quer se produza sem nenhuma representação expressa.
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A impressão corporal encerra já uma percepção sensível, mais clara ou mais obscura, da qual nasce a imaginação sensível, uma espécie de faculdade de conceber o falso.
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A imaginação sensível mantém o meio entre a natureza e a razão, representando o objeto exterior e possuindo ao mesmo tempo a consciência da afecção que o corpo experimenta por ele.
Antes de entrar na análise das potências imediatamente superiores, deve-se dar conta da morte, fenômeno da ordem sensitiva.
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Enquanto a alma sensitiva permanece no corpo e une suas partes em um todo bem uno, ele permanece e vive, mas assim que ela não lhe está mais presente, a vida do corpo desaparece.
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A alma sensitiva é o ato da alma primeira, da alma pensante: quando a alma superior deixa o corpo, a alma segunda, seu ato, não pode aí permanecer ainda.
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A morte não destrói toda a vida, pois permanece um vestígio dela: os pêlos nascem e crescem sobre os corpos mortos, as unhas crescem, animais cortados em pedaços palpitam e se movem.
Da permanência de um vestígio de vida após a morte não se segue que as duas almas que são os princípios respectivos da vida sensível e da vida razoável não sejam diferentes, ao menos por suas funções e potências.
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Quando um animal morto se putrefaz e de seu corpo se engendram numerosos animalículos, estes não recebem sua vida da alma do animal inteiro, pois essa alma já não ocupa o substrato corporal destinado a recebê-la.
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Os materiais provenientes da putrefação, uns, porque têm a aptidão, recebem cada um uma alma diferente e produzem seres vivos, enquanto outros, não sendo suscetíveis de receber uma alma, se resolvem em seus elementos materiais.
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Os seres vivos assim formados não aumentam o número das almas, pois dependem da alma universal que permanece una e indivisa.