Beleza

Chaignet: LIVRO

Capítulo Segundo: Teoria do Belo

O bem e o belo, inseparáveis entre si, confundem-se no uno e são o próprio Deus, mas a razão humana, ao separá-los para melhor conhecê-los, fá-los descer de sua essência absoluta para a região do relativo.

O belo inteligível é o lugar das formas, e o mundo das formas é o mundo da beleza, para o qual é preciso subir uma longa série de graus.

O feio é reconhecido pelas impressões contrárias, diante das quais a alma se contrai, se furta, se desvia, tendo o sentimento de uma dessarmonia, de uma contrariedade de essência entre sua natureza e a dele.

O mundo sensível, considerado em seu conjunto e não em suas partes isoladas, é perfeitamente belo, pois as partes estão em harmonia entre si e com o todo, cada uma tem sua forma e função própria, e ele se basta a si mesmo.

O mundo é grande, mas isso não o impede de ser belo, porque todas as suas partes convergem para a unidade, e sua grandeza está contida na unidade.

Em virtude mesmo de sua perfeição e de sua essência, o primeiro princípio desdobra de seu seio imutável toda a variedade infinita dos seres, transbordando e produzindo tudo com o excesso de sua vida.

Aquele que é movido por essa beleza reconhece nela uma imagem das essências inteligíveis (simetria, ordem, proporção), o que lhe facilita a reminiscência da verdadeira beleza.

É um erro ter criticado este mundo; tudo o que se tem o direito de dizer é que ele é inferior ao seu modelo.

Não é apenas na natureza visível que se descobre a beleza, mas também nas obras das artes musicais (poesia e música), nas ações humanas, nas ciências e nas virtudes, e pergunta-se se não haveria ainda alhures uma beleza superior.

A alma, por natureza ligada à razão, quando vê em um objeto algo que tem uma afinidade essencial ou mesmo apenas um traço de afinidade consigo mesma, reconhece-se aí, admira e ama a si mesma no objeto.

A beleza do objeto sensível tem seu fundamento na unidade à qual ele foi conduzido pela forma que se deu a suas partes e a seu todo.

A alma conhece o belo por uma faculdade especial que toma como medida e critério o acordo harmonioso da forma que ela encontra em si mesma e da forma que descobre no objeto exterior.

As harmonias musicais são belas porque são as harmonias invisíveis que criam as harmonias sensíveis, e é por isso que a alma pode tomar conhecimento do belo, reconhecendo em um outro objeto uma coisa idêntica a si mesma.

A proporção não basta para dar à alma as impressões deliciosas descritas; é preciso que se junte a ela a graça, que se derrama e corre como à superfície da beleza.

O amor é o primeiro mágico e o mais poderoso encantador, e sua potência repousa sobre a simpatia natural que as coisas e os seres do universo, que é um todo vivente e uno, experimentam uns pelos outros, sobre a necessidade que têm de se amar e se fazer amar.

Goza-se e conhece-se a beleza em coisas que não é dado à sensação perceber, e que a alma vê e proclama belas sem a intervenção dos órgãos, como a beleza das artes, das ciências, da virtude, da justiça, da sabedoria.

Nos inteligíveis, a alma vê a alma, mas purificada e tornada razão, isto é, beleza, e a purificação da alma lhe dá, além da beleza, a perfeição moral, ou melhor, o belo e o bem são nela uma só e mesma coisa.

Para adquirir essa vista interior, essa intuição direta espiritual, a alma precisa de uma disciplina, de uma educação progressiva, habituando-se a ver homens puros, isto é, belos, e, para isso, sendo bela e pura.

O homem não é apenas capaz de gozar a beleza, ele tem o desejo de exprimi-la e faz um esforço, frequentemente bem-sucedido, para reproduzi-la.

O amor, que os mitos chamam de Deus ou de demônio, pode ser considerado ora como uma potência ou paixão da alma, ora como uma potência da razão.

Além do amor da alma, há o amor da razão, ou uma razão amorosa, que difere da razão especulativa, mas aí não se trata mais do belo, e sim do bem e do bem absoluto.

A arte dá à matéria a beleza da forma, forma que residia no pensamento do artista, porque ele possuía por participação a própria arte, na qual existe a beleza inteligível.

A arte não se limita a imitar a natureza em seus elementos materiais; ela remonta às razões de onde provém a natureza das coisas que imita, e cria muitas coisas que tira de si mesma.