Categorias

Chaignet: LIVRO

§ 1. — Crítica das teorias anteriores das categorias

2. — Os gêneros ou categorias do ser inteligível

A grande crítica de Plotino à teoria das categorias de Aristóteles é a negligência em separar o ser sensível do ser inteligível e ideal, o que resultou na supressão do ser verdadeiro ou na confusão entre o perfeito e o imperfeito, o anterior e o posterior, dentro de uma mesma categoria.

A pesquisa dos gêneros primeiros e irredutíveis do ser deve começar por uma definição precisa do ser, dividindo o problema em questões particulares.

A proposição “o ser é um” pode ser entendida de várias maneiras, sendo necessário rejeitar a primeira e a segunda hipóteses, que destroem as espécies e os seres individuais.

A natureza do ser ou da razão é única, embora pareça múltipla, formando um todo necessário, imutável e indissolúvel, no qual o movimento e a multiplicidade se produzem.

Na razão pura, distinguem-se a essência ou o ser e o movimento ou a vida primeira, que são dois gêneros distintos, embora façam um na existência.

Atribui-se também o repouso ao ser inteligível, que é um eterno repouso, constituindo um terceiro gênero, diferente do movimento e do ser.

O ser é idêntico ao pensamento, sendo o ato e o movimento encontrados no pensar, e a essência e o ser no ato de se pensar a si mesmo.

Os três gêneros (ser, movimento, repouso) formam uma unidade, e são completados pela identidade e pela diferença, totalizando cinco categorias do inteligível.

As cinco categorias do inteligível (ser, repouso, movimento, identidade, diferença) são encontradas no espírito, não nas coisas exteriores nem nas noções abstratas, sendo irredutíveis e contendo sob si todas as outras.

Os cinco gêneros são primeiros em si e primeiros uns em relação aos outros, pois nada pode ser afirmado deles na ordem da essência, sendo os quatro últimos os diferentes modos pelos quais o ser se manifesta.

O número primeiro ou a grandeza discreta poderiam ser colocados nos gêneros primeiros, e a grandeza contínua nos gêneros derivados, mas o número é um misto de repouso e movimento.

A qualidade, a relação, o lugar, o tempo, o agir, o padecer, a posse e a situação não são gêneros primeiros.

Nem a matéria nem a forma podem ser categorias do ser, pois são os princípios e os elementos últimos da substância.

A razão (o nous), o ser pensante, não é um gênero distinto, pois é o todo que une e abraça todos os gêneros.

No mundo inteligível, excluindo a essência, há apenas quatro gêneros, mas como são gêneros, contêm e produzem espécies que os dividem.

As espécies de cada gênero nascem de seu mistura com os outros três, sendo necessário determinar a natureza da relação entre esses gêneros e suas espécies.

A razão universal tem um modo de existência diferente das razões individuais, sendo anterior a elas e fornecendo-lhes as noções gerais que possui.

O problema da filosofia é dar razão da existência e da geração das coisas particulares, e é a razão que, por intermédio das ideias e da alma, as cria, permanecendo em si mesma.

A razão possui as ideias de tudo o que existe, e como as ideias são as próprias coisas, a razão possui todas as coisas em sua realidade inteligível e em sua existência verdadeira.

Há tantos tipos ideais de seres quantas são as espécies e os seres individuais no mundo percebido pelos sentidos ou concebido pela razão, pois o princípio de individualidade é uma ideia.

Há ideias não apenas do mundo sensível, mas também das coisas criadas pela arte e pela razão dos homens.

Há dois ou mesmo três homens: o homem ideal (a ideia do homem) no mundo inteligível; o homem que quis se individualizar mas permaneceu uno ao homem inteligível; e o homem sensível, que se separou quanto pôde do mundo inteligível.

3. — As categorias do mundo sensível

No mundo sensível e fenomenal, onde o ser composto é produzido pelo contato das formas com a matéria, desenvolve-se o sistema das categorias em sua significação habitual, não podendo o sistema dos gêneros primeiros do ser ser aplicado senão em um sentido impróprio e por pura homonímia.

No mundo sensível, é preciso reconhecer vários gêneros, observados e distinguidos pelos métodos da análise e da indução, faculdades da razão discursiva.

Reconhece-se nos seres sensíveis a matéria e a forma, mas nem uma nem outra, separadamente, constitui o gênero da substância; o melhor é considerar como gênero da substância o composto desses dois elementos, ou seja, o corpo.

As determinações da substância que só podem ser atributos ou predicados (como causa, elemento) devem ser referidas à categoria da relação.

As categorias do mundo sensível são: a substância (em sentido impróprio), a relação, a quantidade, a qualidade, o tempo, o lugar e o movimento (que compreende o fazer e o padecer).

A substância sensível é o que não está em um sujeito, o que não se diz de nenhum sujeito enquanto este sujeito é outro que ela mesma; ela é por si mesma o que é.

O gênero da substância sensível pode ser dividido de várias maneiras: corpos brutos ou elementos; corpos organizados; corpos pesados ou leves; corpos quentes ou frios; corpos humanos e animais.

A quantidade é uma categoria, podendo ser tomada como número ou como grandeza contínua (extensão), sendo divisível em espécies (como par e ímpar para o número, igualdade e desigualdade para a extensão).

A qualidade é o que caracteriza a coisa, mostrando-a como tal ou tal (bela ou feia, branca ou preta), e é preciso distinguir entre a qualidade sensível e a qualidade ideal (nas razões seminais, nas virtudes da alma, nas artes).

Distinguir espécies na categoria da qualidade sensível é difícil, pois a diferença dos órgãos sensoriais que as percebe é subjetiva e não explica as diferenças percebidas por um mesmo sentido.

A negação de uma qualidade, quando expressa o oposto positivo, expressa uma qualidade (exemplo: o vermelho não é branco); quando é puramente negativa, é apenas uma forma de linguagem.

A qualidade não é o complemento da essência; o que completa a essência são os atos que provêm das razões e das potências substanciais.

Há entre a quantidade e a qualidade relações importantes: a quantidade expressa a divisibilidade infinita do corpo; a qualidade, ao contrário, expressa a penetração mútua, pois todas as qualidades se penetram e se fundem para constituir o corpo.

O movimento é o gênero ao qual se reduzem as categorias do agir e do padecer, sendo definido como a passagem da potência ao ato daquilo do qual ela é a potência.

O sistema das categorias da ordem sensível não é fixo nem firme na classificação geral, nem completamente desenvolvido em suas partes.

A consciência faz conceber a eternidade e o tempo como coisas diferentes: a eternidade é o predicado do que existe perpetuamente, o tempo é o predicado do que se torna.

O tempo e o espaço só têm existência pela alma, sendo o resultado de sua processão; são determinações que acompanham a realidade sensível e são posteriores à matéria eterna e ao corpo criado.