Entendimento discursivo

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Não há incerteza quanto à razão refletidora e raciocinante, na qual se completa a função própria da alma e o caráter distintivo do homem, diferentemente da opinião, cuja posição na classificação das faculdades pode gerar hesitação como em Porfírio.

O entendimento discursivo, cujos movimentos são sucessivos e passam de um objeto a outro, é a faculdade discriminativa da alma que julga, discernindo, separando, ligando, dividindo e unindo.

O entendimento discursivo é propriamente o pensamento da alma verdadeira, que é o ato das noções puras das sensações e equivale à fórmula da razão na alma.

O entendimento discursivo pode conhecer as coisas exteriores por intermédio da sensação, mas suas funções próprias incluem formar julgamentos, combinar representações sensíveis, operar sobre noções inteligíveis e reconhecer imagens antigas e novas.

Plotino coloca e discute o problema psicológico da consciência, no qual a consciência consiste no ato pelo qual o sujeito pensante se conhece e se pensa realmente a si mesmo, sem chegar a uma conclusão perfeitamente precisa e coerente consigo mesma.

A consciência não é condição necessária nem do conhecimento nem da felicidade, pois a alma pode possuir algo sem ter consciência de que o possui, e possuí-lo até mais fortemente.

A consciência pode ser alterada ou obliterada por estados mórbidos e cessar de funcionar, mas o entendimento discursivo e a razão intuitiva conservam sua atividade, mesmo com o eclipse acidental da consciência.

Na ordem da moralidade, a consciência não é condição necessária da felicidade, pois o sábio que perde a consciência de que é sábio não se torna menos sábio.

Plotino distingue várias formas de consciência, incluindo a conhecimento da unidade das partes do ser e a conhecimento do desdobramento do ser em sujeito e objeto.

Embora a consciência possa se eclipsar acidentalmente, as atividades mentais não permanecem absolutamente ignoradas pelo sujeito todo, mas apenas por uma parte dele.

A consciência pertence à razão pura ou também à alma que tem alguma relação com o corpo, sendo que a função própria da alma em sua atividade discursiva e múltipla é considerar as coisas exteriores mais do que pensar a si mesma.

Enquanto a razão, ao se recolher em si mesma, se conhece ao mesmo tempo em sua essência e em suas qualidades, a alma se conhece a si mesma ao conhecer que é como a matéria de um outro ser.

A consciência não se estende a todos os atos da alma, porque nem tudo o que se passa nela se torna sensível, havendo ideias inconscientes quando a faculdade em ato não se comunicou com a faculdade de sentir.

A alma julga e possui regras que determinam seus julgamentos, regras essas que têm um duplo relacionamento, primeiro com o conhecimento especulativo, depois com a condição humana e a vida prática.

No movimento ascendente da alma, a sensação vê um homem e fornece à imaginação os materiais para construir sua imagem, e a imaginação transmite essa representação sensível ao entendimento discursivo.

A forma nova que deu à alma a sensação do bem e do justo, e por isso mesmo o contato consigo mesma, não é o desenvolvimento natural de sua essência própria, mas uma transformação operada nela pela iluminação da razão em si.

Pela operação geradora dessa razão, a alma torna-se, por assim dizer, razão, atingindo seu máximo de pureza e potência, pois recebeu traços da razão.

A alma é como uma matéria em relação à razão que é sua forma, mas essa matéria, por sua simplicidade, tem uma essência intelectual.

Há duas razões: a razão de nossa alma que busca, reflete, raciocina e delibera; e a própria razão, a razão em si, que fornece à alma a potência de raciocinar e os princípios de seus julgamentos e raciocínios.

Essa faculdade, chamada indiferentemente de alma intelectual ou razão na alma, ocupa-se dos julgamentos e proposições, compreende o sentido dos termos que os exprimem, estabelece as regras do raciocínio, a teoria da consequência necessária, isto é, a lógica, e chega a conhecer os seres inteligíveis por via de consequência, não imediata e intuitivamente.

A alma não tem por função única conhecer e pensar, pois então não diferiria mais da razão; ela exerce sobre as coisas exteriores e sobre si mesma uma dominação, um governo, depositando nas coisas que governa segundo a razão a ordem e a beleza.

A dialética não se limita a estabelecer as leis do conhecimento e a buscar a ciência; ela envolve no círculo de suas pesquisas as questões do bem e do mal, e mesmo a questão das coisas eternas e de seus contrários.

O racional se relaciona ao que é dado pela percepção sensível e produz na alma apenas a forma inferior do conhecimento chamada persuasão, enquanto a razão traz a certeza por razões necessárias.