Memória

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A percepção sensível, pelo menos em seus graus inferiores, reporta-se à alma sensitiva, enquanto a memória e a imaginação, que Plotino distingue com dificuldade e frequentemente confunde, pertencem apenas aos seres dotados da faculdade de refletir e raciocinar.

A alma vive no tempo, que ora lhe apresenta uma coisa e ora lha subtrai, estando encerrada na esfera da mudança e da sucessão.

A memória não poderia realizar seu ato se a alma não dispusesse de um aparelho de órgãos, mas as potências que colocam em jogo esse sistema são as potências da alma.

Lembram-se os conhecimentos que foram adquiridos pela sensação ou pelo pensamento, assim como os movimentos próprios da alma, como desejos não satisfeitos, com os quais o corpo evidentemente não tem relação.

A memória é o ato pelo qual a alma, tendo já percebido pela sensação interna a forma da impressão física produzida no corpo, a conserva ou a deixa perder.

A memória é sempre a lembrança de algo adquirido que a alma não possuía anteriormente, seja um conhecimento ou um estado emocional.

O pensamento, e mesmo o pensamento de si mesmo, a consciência de si e de seus pensamentos, é outra coisa que a memória, pois a consciência só pensa as coisas que possui em si mesma.

A memória pertence ao mesmo tempo à alma divina que constitui o eu e à alma irracional, imagem e produto da primeira e mergulhada na obscuridade da vida sensível.

A alma superior procura esquecer as coisas daqui de baixo, a menos que sua vida ali tenha sido tão perfeita que essas lembranças não lhe ofereçam nada além de puro.

Para resolver a questão de quais podem ser as lembranças da alma reconduzida à sua pureza primeira, é preciso determinar previamente a qual faculdade se reporta o fato psicológico da lembrança.

Atribuir a cada faculdade, além de sua função própria, a memória de suas operações e dos objetos de sua atividade passada não é possível, pois a experiência mostra que a razão mais firme e a percepção mais fina nem sempre estão unidas à melhor memória.

A memória é a função de uma faculdade que se lembrará das coisas previamente percebidas pela sensação, pois a sensação é sempre uma condição da memória, já que a memória é sempre a lembrança das coisas suscetíveis de fornecer a matéria e a forma de representações sensíveis.

A diferença dos graus de potência da memória depende da potência diversa e desigual da imaginação e da sensação, bem como da diversidade dos temperamentos.

A conservação das imagens indicaria antes uma fraqueza do que uma força na alma, pois, para receber numerosas imagens, a alma precisaria se prestar facilmente a toda espécie de formas.

A memória das coisas suscetíveis de serem representadas na imaginação estende-se também às pensamentos discursivos e raciocínios, sendo preciso admitir que esses pensamentos são acompanhados de uma representação.

O logos faz entrar o próprio pensamento na imaginação, mostrando-o ali como num espelho, onde ele se reflete em forma aparente e é transformado em imagem.

A memória não é uma faculdade superior e excelente da alma, mesmo quando tem por objeto coisas excelentes, pois por ela se cai num estado psíquico análogo às impressões e intuições anteriores.

Ao entrar na vida real, a alma carrega lembranças do mundo inteligível onde vivia, mas o ato dos inteligíveis obscurecia essa memória porque esses puros inteligíveis não são imagens, e a imagem é uma condição da memória.

A memória não é propriamente uma faculdade especial: quando se trata de coisas sensíveis, ela se confunde com a imaginação; quando se trata de coisas inteligíveis, confunde-se com a consciência.