Potências da Alma

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A alma, sendo incorpórea, é una e indivisível em sua substância, mas possui múltiplas potências que dela se distinguem como os raios se distinguem do foco luminoso que os emite.

A dupla consideração da divisibilidade da alma dá origem à distinção entre suas faculdades ou potências e suas partes ou espécies.

A alma não é nem unidade pura nem pluralidade pura, constituindo uma unidade múltipla ou uma pluralidade una.

No ato mais elevado da razão, o dualismo, a divisão e a pluralidade aparecem, pois em todo espírito há duas coisas: o sujeito pensante e o objeto pensado.

A divisão da alma é obra da própria alma, que possui uma atividade divisante assim como uma atividade unificante, porque sua natureza é ao mesmo tempo una e múltipla, indivisível e divisível.

A alma é uma essência intermediária entre a essência absolutamente indivisível e a absolutamente divisível.

Apesar da dificuldade em compreender como um ser pode possuir simultaneamente as propriedades contrárias da divisibilidade e da indivisibilidade, os fatos atestam essa possibilidade.

Não se admite que haja uma parte da alma separada em cada órgão com funções diversas, como os olhos e os ouvidos.

É sob essas reservas e nesse sentido que se pode dizer que a alma tem partes e potências distintas.

As partes ou espécies da alma seriam, como diria Aristóteles, partes de quantidade, enquanto as faculdades ou potências seriam partes de qualidade.

Os fenômenos vitais se explicam pelo ato de uma alma que exerce num corpo apropriado suas potências variadas e numerosas, segundo a aptidão desse corpo.

Com base nos três ordens de razões, admitem-se três espécies de alma especificamente determinadas e ocupando pontos determinados da extensão.

A relação da alma com a razão pura que a cria define sua função de pensamento intuitivo, vontade e amor suprassensível, que não necessita de órgãos para se realizar.

A alma possui uma função produtora e criadora da vida física, sendo a alma não pensante, sensitiva e vegetativa, que necessita de órgãos corpóreos e dos sentidos.

A unidade das três almas no homem provém do fato de cada uma receber sua forma e seu ato daquela que a precede imediatamente e a toca, embora lhe seja superior.

A unidade é o caráter distintivo e a marca específica do ser e, por conseguinte, da alma.

A alma vegetativa ou sensitiva obedece em sua atividade geradora a razões e é ela mesma uma razão, mas uma razão que tem por função única produzir na matéria.

Se a função da alma vegetativa se limita a imprimir inconscientemente formas à matéria, o que ela cria assim é racional, e se não pensa, ela tende ao pensamento.

Como as espécies e as coisas individuais são infinitas na natureza e cada uma é o ato de uma alma, as almas devem ser em número infinito.

A variedade das espécies e a diversidade dos indivíduos é um princípio de beleza, não porque o princípio supremo tenha proposto uma finalidade ao criá-las, mas porque, sendo ele o bem e a beleza mesmos, suas criações devem ser semelhantes a ele, embora inferiores.

A criação produziu formas de vida cada vez menos perfeitas, percorrendo uma infinidade de graus, porque quanto mais as potências da alma e da razão se prolongam, mais se afastam de seu princípio.

A diferenciação infinita dos seres e a infinita multiplicidade das razões que os produzem jamais resultam em feiúra, pois essa diferenciação é organizada por um princípio de ordem.

A alma é o intermediário pelo qual as coisas sensíveis são ligadas aos seres inteligíveis, transmitindo como intérprete as ideias e as leis do mundo inteligível ao mundo dos corpos.

Na extremidade inferior da série graduada e ordenada dos seres psíquicos encontra-se a alma sensitiva, que compreende graus diversos e potências diversas.