Chaignet: LIVRO
A alma, sendo incorpórea, é una e indivisível em sua substância, mas possui múltiplas potências que dela se distinguem como os raios se distinguem do foco luminoso que os emite.
-
A divisibilidade da alma sob esse aspecto permite conceber tanto a criação das espécies animais quanto a formação da individualidade no seio das espécies por meio de uma partição que faz sair da alma universal a alma particular e dividida.
-
Cita-se a noção de alma particular ou dividida como μειριχὴ ψυχὴ ou ψυχὴ τινὸς.
A dupla consideração da divisibilidade da alma dá origem à distinção entre suas faculdades ou potências e suas partes ou espécies.
-
As partes não devem ser entendidas como unidades ou forças separadas, pois a alma está inteira em cada um de seus atos.
-
O pensamento, como potência da alma, não está absolutamente ausente mesmo na pedra, onde existe em estado de sono devido à inaptidão do corpo mineral para receber a alma em sua plenitude.
A alma não é nem unidade pura nem pluralidade pura, constituindo uma unidade múltipla ou uma pluralidade una.
-
O Princípio supremo é exclusivamente uno, enquanto as formas nos corpos são pluralidade e unidade e os próprios corpos são exclusivamente pluralidade.
-
A alma é determinada por uma pluralidade de potências que constitui sua essência, pois essa pluralidade não lhe vem de fora, mas de sua própria natureza.
-
Questiona-se o que seria o ser da alma sem todo o resto, indicando que por essência ela está separada da unidade e não pode ser uma mesmo no conhecimento racional mais puro.
No ato mais elevado da razão, o dualismo, a divisão e a pluralidade aparecem, pois em todo espírito há duas coisas: o sujeito pensante e o objeto pensado.
-
O ato do conhecimento tem por condição a unidade do sujeito e do objeto, mas ao mesmo tempo estabelece sua diferença.
-
O movimento de conhecimento que vai de um termo a outro e os coloca em relação implica divisão e pluralidade de termos, que são pelo menos dois e podem ser considerados três.
A divisão da alma é obra da própria alma, que possui uma atividade divisante assim como uma atividade unificante, porque sua natureza é ao mesmo tempo una e múltipla, indivisível e divisível.
-
Se a alma fosse absolutamente simples e indivisível, o corpo que ela ocupa não seria animado em seu todo, pois ela deixaria a massa inteira sem alma.
-
Tanto o universo quanto o indivíduo vivo não teriam em cada uma de suas partes nem no todo a força que os anima e dirige segundo a razão.
A alma é uma essência intermediária entre a essência absolutamente indivisível e a absolutamente divisível.
Apesar da dificuldade em compreender como um ser pode possuir simultaneamente as propriedades contrárias da divisibilidade e da indivisibilidade, os fatos atestam essa possibilidade.
-
Nos corpos, a divisão separa partes que não são idênticas nem a outra parte nem ao todo, mas os incorpóreos, ao penetrarem nos corpos como formas, se dividem de tal modo que cada parte contém a essência toda inteira.
-
A brancura de uma massa de leite, sendo incorpórea, não tem grandeza nem quantidade e está toda inteira em cada uma das partes da massa branca.
-
Uma ciência pode ser dividida em múltiplas proposições, cada uma das quais contém em potência a ciência total, porque a divisão é o ato e como que a expansão de cada proposição.
Não se admite que haja uma parte da alma separada em cada órgão com funções diversas, como os olhos e os ouvidos.
-
É a mesma alma que vivifica esses dois órgãos e todos os outros, exercendo em cada um uma potência diferente e apropriada.
-
Todas as potências da alma estão presentes em todos os órgãos, mas não se exercem todas em cada um, e onde várias se exercem, não agem todas com a mesma intensidade de atividade.
É sob essas reservas e nesse sentido que se pode dizer que a alma tem partes e potências distintas.
-
A distinção entre partes ou espécies da alma e suas potências ou faculdades foi aceita por
Plotino como uma tradição filosófica, à qual não atribuiu grande importância.
-
Nicolau de Damasco confundia partes e potências, enquanto
Porfírio mantinha a diferença, caracterizando a parte por ocupar um ponto determinado na extensão do sujeito corpóreo, ao passo que as potências penetram todo o sujeito.
As partes ou espécies da alma seriam, como diria Aristóteles, partes de quantidade, enquanto as faculdades ou potências seriam partes de qualidade.
-
Veem-se separadas umas das outras as espécies da alma, sendo diferente a espécie que está no vegetal, a que está no animal, a que está no homem e a que está nos demônios e nos deuses.
-
Nas almas humanas, as faculdades da sensação, do entendimento discursivo e da razão não são separáveis.
Os fenômenos vitais se explicam pelo ato de uma alma que exerce num corpo apropriado suas potências variadas e numerosas, segundo a aptidão desse corpo.
-
Essas potências obedecem a razões e leis racionais que são ao mesmo tempo forças, princípios de ação e movimento.
-
Não há razões fora da alma: umas são as razões que fazem o vegetal, outras as que fazem o animal, outras as que fazem o homem.
Com base nos três ordens de razões, admitem-se três espécies de alma especificamente determinadas e ocupando pontos determinados da extensão.
A relação da alma com a razão pura que a cria define sua função de pensamento intuitivo, vontade e amor suprassensível, que não necessita de órgãos para se realizar.
-
Quando a alma, no ato do conhecimento, se põe em relação com os corpos e os sentidos, passando de potência a ato mediante movimento sucessivo, ela toma o nome de entendimento discursivo.
-
Ao entendimento discursivo pertencem os fenômenos da representação, memória, raciocínio, vontade e amor humanos.
A alma possui uma função produtora e criadora da vida física, sendo a alma não pensante, sensitiva e vegetativa, que necessita de órgãos corpóreos e dos sentidos.
-
Pela união dessa alma com o corpo, constitui-se o animal ou vivente.
-
No homem, essas três almas estão reunidas e substancialmente ligadas umas às outras, formando uma unidade.
A unidade das três almas no homem provém do fato de cada uma receber sua forma e seu ato daquela que a precede imediatamente e a toca, embora lhe seja superior.
-
Assim como a vida é a forma do corpo, a alma é a forma do ser vivo, a razão pura é a forma da alma, e o Uno ou Deus é a forma da razão.
-
A alma, mesmo em sua função vital, só pode criar e governar por meio de razões cuja fonte última está na razão pura.
A unidade é o caráter distintivo e a marca específica do ser e, por conseguinte, da alma.
-
A própria alma sensitiva, mesmo no vegetal, está presente toda inteira e em toda parte, a mesma no todo e em cada uma de suas partes, não estando dividida em partes separadas.
-
Embora se reparta na massa, ela não está dividida ali em partes separadas.
A alma vegetativa ou sensitiva obedece em sua atividade geradora a razões e é ela mesma uma razão, mas uma razão que tem por função única produzir na matéria.
-
Trata-se de uma alma imaterializada, que produz segundo formas e razões, mas as ignora porque estão contidas na alma superior que a preenche.
-
Essas razões seminais são inferiores às Ideias, executando suas direções sem raciociná-las nem pensá-las.
Se a função da alma vegetativa se limita a imprimir inconscientemente formas à matéria, o que ela cria assim é racional, e se não pensa, ela tende ao pensamento.
Como as espécies e as coisas individuais são infinitas na natureza e cada uma é o ato de uma alma, as almas devem ser em número infinito.
-
As razões que são a realidade das coisas existem apenas na alma, portanto há nela o infinito, e pode-se dizer que ela tem tudo e é tudo.
-
As coisas individuais são infinitas em número e infinitamente diferentes, e essa diferença infinita se deve à infinita diferença das razões que as produzem.
A variedade das espécies e a diversidade dos indivíduos é um princípio de beleza, não porque o princípio supremo tenha proposto uma finalidade ao criá-las, mas porque, sendo ele o bem e a beleza mesmos, suas criações devem ser semelhantes a ele, embora inferiores.
-
A variedade é um elemento da beleza que ele imprime em sua obra, comportando uma diferença de essência e também de perfeição nas coisas.
-
A processão a partir do princípio supremo produziu o máximo possível, espalhando a vida e a beleza onde houvesse um sujeito capaz de recebê-las.
A criação produziu formas de vida cada vez menos perfeitas, percorrendo uma infinidade de graus, porque quanto mais as potências da alma e da razão se prolongam, mais se afastam de seu princípio.
A diferenciação infinita dos seres e a infinita multiplicidade das razões que os produzem jamais resultam em feiúra, pois essa diferenciação é organizada por um princípio de ordem.
-
A alma, ao se comunicar às coisas e nelas se multiplicar, não se torna má em si mesma, porque faz os corpos participarem da vida e a própria matéria do ser e da forma, o que é um bem.
-
Nessa comunicação, ela segue uma ordem, e a ordem é um bem que se liga ao Bem supremo, ao Uno.
A alma é o intermediário pelo qual as coisas sensíveis são ligadas aos seres inteligíveis, transmitindo como intérprete as ideias e as leis do mundo inteligível ao mundo dos corpos.
-
Ao se dividir nas coisas por suas potências, ela permanece una em sua essência, e sua unidade faz o elo de continuidade entre o mais alto dos inteligíveis e as últimas das coisas sensíveis.
-
Esse elo produz a harmonia universal e o acordo mútuo e coordenado das coisas, que é a imagem sensível da unidade absoluta.
Na extremidade inferior da série graduada e ordenada dos seres psíquicos encontra-se a alma sensitiva, que compreende graus diversos e potências diversas.