Chaignet: LIVRO
Chega-se à parte mais importante e mais difícil da psicologia de Plotino, pois o sistema exige que se mantenha ao mesmo tempo a união e a diferença entre a razão e a alma e entre a razão humana e a razão divina.
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A lei da série, decrescente na ordem do ser e crescente na ordem do conhecimento, domina toda a filosofia de
Plotino.
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As potências dos seres estão submetidas à lei da evolução e do desenvolvimento, envolvendo-se e desenvolvendo-se umas das outras.
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O ser inferior está no ser imediatamente superior como o produto está naquilo que o engendra e também pelo desejo e esforço espontâneo de permanecer unido ao que o engendrou.
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O mundo sensível está na alma, a alma está na razão, e a razão está no uno, que é a medida e a condição universal de toda existência e perfeição.
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Há uma unidade mais verdadeira nos corpos organizados do que nos inorgânicos, na natureza do que nos corpos, na alma do que na natureza, e na razão do que na alma.
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Além dos fenômenos de sensibilidade e de conhecimento dependentes dos órgãos e da sensação, há em nós pensamentos e prazeres puros, não dependentes do corpo.
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Não se pode ligar tais fenômenos à alma sempre ligada a um corpo; a potência ou hipóstase à qual é preciso reduzi-los é o que se chama de razão.
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A razão existe tanto no universo quanto nos seres particulares, sendo absurdo duvidar de sua existência, pois nela estão os princípios supremos do pensamento e da vida que descem na alma sem lhe pertencerem.
O ato da razão é conhecer, conceber e pensar sem o corpo, tendo por objeto necessariamente os inteligíveis, que são os atos da razão, pertencentes a ela e contidos nela.
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Esse ato é o si mesmo, o verdadeiro ser, isto é, um inteligível.
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Quando se olha a si mesmo com a razão, vê-se uma natureza pensante, intelectual, capaz de pensar.
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Como o inteligível é o objeto da inteligência ou do pensamento puro, e se conhece a si mesmo como ser pensante, é-se, na verdadeira essência, um inteligível, sendo para si mesmo o objeto do próprio pensamento.
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Esse inteligível, por ser objeto do pensamento, é necessariamente anterior a esse pensamento que o apreende.
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A natureza pensante, objeto do pensamento, existe e vive, pois é o si mesmo; o pensamento é, portanto, o pensamento do ser, o pensamento da vida.
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Antes dessa vida, antes desse ser que consiste no ato de pensar e está em movimento, há uma outra vida, um outro pensamento que é seu objeto imóvel ou pelo menos em repouso.
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A razão que viu essas coisas de si mesma e em si mesma só as viu na medida em que são atos, atividades, e se a razão é ato pelo fato de pensar a si mesma, no fundo íntimo do ser se é um inteligível, e o pensamento que se pensa de si mesmo dá pelo menos a imagem do inteligível.
O pensamento da razão é o pensamento de certos inteligíveis, a compreensão de coisas inextensas, não passando da potência de pensar ao ato.
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O que está em potência exige um outro princípio cuja intervenção o leve ao ato.
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Quando por si mesmo um ser é sempre o que é, ele é um ato.
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A alma é um ato; com maior razão, a razão é um ato.
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Todos os primeiros princípios são atos.
Embora a razão seja uma hipóstase distinta, superior à alma e superior ao si mesmo, aquele que quer conhecer a razão e conhecer que há uma razão deve primeiro conhecer a alma e sobretudo o que há de mais divino nela, isto é, a razão da alma.
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A ciência deve subir progressivamente da natureza à alma e da alma à razão.
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Cada alma está suspensa à razão própria, sem dela se destacar e sem se confundir na essência com ela.
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As almas são os verbos das razões, apenas mais desdobradas do que as razões, tornando-se de pouco muito, mas permanecendo ligadas por um vínculo de continuidade à razão de onde procedem e na qual têm sua raiz.
A razão é introduzida de fora na alma, que ela domina e à qual não se dá toda inteira, projetando sobre a alma a cor e a luz e tornando-a assim intelectual.
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A razão tem como caráter essencial e próprio não ser apenas luz, pois a luz é apenas uma propriedade, um atributo, mas possuir em sua essência o próprio princípio luminoso.
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Se se pergunta de onde a razão mesma recebeu esse princípio luminoso, que não é mais um acidente, é preciso responder que o recebeu da luz essencial, substancial, do uno, do bem, de Deus, e isso se deve dizer tanto da razão universal quanto das razões particulares.
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Há uma razão universal assim como uma alma universal.
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O universo não tem apenas uma vida, mas uma razão; é dessa razão que a alma recebe as formas que imprime ao mundo visível.
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É por ela que tudo e o todo é racional e perfeito, pois essa perfeição não poderia vir do acaso.
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É a ela, mediatamente ao menos e por intermédio da alma, que se deve a criação das coisas, pois sendo perfeita e dotada de tão grande potência, não podia ser estéril: ela engendrou necessariamente.
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Ela criou o mundo, engendrou a alma, produziu as razões individuais ligadas a cada ser razoável e apropriadas a uma alma: as razões dos astros, as razões dos demônios, as razões dos homens.
Essa produção é uma espécie de ato interior da razão em si mesma que a partilha, como os indivíduos partilham e dividem a espécie, deixando-os no entanto juntos e indissoluvelmente unidos a ela, pois essa divisão só é produzida pela diferenciação.
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Cada razão individual é toda a razão, pois a razão não sendo composta de partes não pode ser possuída por partes; ela está toda inteira em cada um.
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A razão, o pensamento, é comum e idêntica em todos os seres razoáveis e pensantes; pela razão todos os seres pensantes são apenas um, e todas as razões particulares não fazem, em certo sentido, senão uma só.
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Alguns filósofos conceberam e resolveram o problema em sentido diametralmente contrário, fazendo nascer o superior do inferior, imaginando que era a alma que, por uma evolução gradual, chegada a seu máximo de potência e perfeição, engendrava a razão.
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Eles esquecem que a alma só tem a razão em potência, e que para fazê-la passar da potência ao ato é preciso um princípio que seja em ato a própria razão.
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Sabe-se por experiência que a alma é sujeita à passividade: ora é preciso que haja algo que seja superior e inacessível a essas modificações vindas do mundo sensível, sem o que tudo seria dissolvido pelo tempo.
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A alma está no mundo: ora deve haver algo fora do mundo, pois tudo o que está no mundo é corpo ou está num corpo, sem o que não haveria nada de permanente e durável.
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As razões do homem e todas as outras razões não seriam eternas.
Se a razão não nasceu da alma, ela se tornou razão porque, embora seja em si o ser uno, ela se dividiu, e se dividiu porque pensou o uno, para o qual é por essência levada e voltada.
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Ela deveria então ter permanecido una como seu objeto, mas reconheceu-se impotente para abraçá-lo em sua unidade e em seu todo.
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Foi preciso que ela se determinasse e se dividisse para apreendê-lo parcialmente.
A razão tem três relações: com a alma que ela ilumina e transforma numa razão raciocinante; com o bem, o uno ou Deus pelo qual ela mesma é iluminada; e consigo mesma, segundo existe considerada em si.
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Na relação com a alma, a razão é a forma da alma segundo a forma.
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Sob o último rapport, ela é um meio termo entre a alma e o uno.
A razão não é uma coisa inerte, mas uma força que tem seu fundamento em si mesma, a força mais intelectual, mais substancial, mais vivente; ela é o ato do ser.
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Pensar e ser é a mesma coisa, e os atos dessa força vivente e poderosa são os inteligíveis.
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Não é bastante dizer que ela é o lugar dos inteligíveis; ela é os próprios inteligíveis, que são seus atos ou seus pensamentos, pois seus pensamentos são seus atos.
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Nela, o que vê e conhece não difere em nada do que é visto e conhecido; nela se aplica e se realiza a grande lei do conhecimento, que é a assimilação do sujeito e do objeto, assimilação que supõe e mesmo põe uma tendência e um desejo recíprocos da inteligência para o inteligível e do inteligível para a inteligência.
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A razão é os próprios seres que ela pensa.
A razão verdadeira, primeira, grande, como a chama Plotino, sem a qual não poderiam se realizar nem se conceber os atos da sensação nem os atos do entendimento discursivo, é a razão que apreende em si mesma por um ato de intuição, imediatamente, os princípios inteligíveis que a constituem, sendo infalível.
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Não se pode supor um instante que ela seja capaz de errar, que não atinja as próprias coisas, o ser real.
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Não se pode duvidar que as coisas que ela vê sejam tais como ela as vê, pois onde poderia ela, senão em si mesma, buscar a convicção de que assim é?
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O conhecimento desses princípios pela razão nunca a abandona e não está sujeito ao esquecimento; não é conjectural, nem duvidoso, nem variável; não é emprestado a outra faculdade; não é o resultado de uma demonstração nem de uma análise.
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É certo, de uma evidência imediata, intuitiva, indefectível, inata, eterna.
A sensação também é intuitiva, mas não atinge o próprio objeto, pois ele permanece fora dela, e ela tem apenas a intuição de sua imagem; daí a possibilidade do erro em todos os atos de conhecimento que repousam mais ou menos diretamente sobre o exercício dos sentidos.
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O que as conhecimentos sensíveis possuem de certeza, elas o emprestam ao entendimento e à razão, que só eles podem julgar.
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Todo conhecimento desmorona se se abala a fé da razão em si mesma.
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A razão é evidente e certa para a razão, e isso vem de que seus objetos, o justo, o belo, o bem, não estão fora dela mesma nem são diferentes dela mesma, e ela os conhece por um contato.
Se a razão tivesse seu objeto fora de si, ela não seria mais do que a sensação, e então o justo, o belo, o bem seriam estrangeiros à sua essência; ela não apreenderia mais dos inteligíveis senão suas imagens, não os conheceria mais em si mesmos, e todas as suas noções seriam falsas, pelo menos por algum aspecto.
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Se ela não possui em si mesma as regras e a medida da beleza e da justiça, como poderá julgar as coisas belas e as coisas justas?
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Nessa hipótese, não se pode mais conceber o modo de existência e a natureza desses inteligíveis cuja presença a consciência atesta em nós, e cuja realidade todos os julgamentos supõem.
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Se os inteligíveis são privados de sentimento, de vida, de razão, são abstrações, formas puramente lógicas, vazias de conteúdo, mortas.
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Se são dotados de razão, serão confundidos com a razão no mesmo sujeito; a verdade estará neles e eles constituirão a razão primeira.
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Pergunta-se então qual é a natureza dessa verdade, como se comportam entre si os inteligíveis e a razão, se estão no mesmo sujeito, e como podem ser dois e diferentes um do outro.
Se os inteligíveis não têm nem a vida nem a razão, não são certamente nem proposições, nem julgamentos, nem o que os estoicos chamam de ditos, pois seriam então atributos e não seres.
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Quando se diz que o justo é belo, o justo e o belo seriam duas coisas simples, diferentes e separadas uma da outra; então o inteligível não será mais algo de uno, não residirá mais num só sujeito; cada inteligível será disperso e dividido, isolado.
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Onde estará ele? Onde a razão irá procurá-los, onde os perseguirá, como os encontrará? Nessa perseguição que a levará para diversos e numerosos objetos, como permanecerá idêntica a si mesma e perseverará em sua essência?
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Como conceber a causa e o princípio das diferenças que os diversos inteligíveis guardam entre si? Por que um é o justo, o outro o belo?
Não se deve, portanto, buscar os inteligíveis fora da razão, o que equivale a dizer que a razão não está fora de si mesma, que ela está sempre em si mesma e que nunca poderia estar desprovida de pensamento.
A razão possui, portanto, em si mesma os inteligíveis; essa é a única maneira de explicar e fundar o conhecimento verdadeiro, isto é, o conhecimento das coisas, e o único meio de não se reduzir a apreender pelo pensamento apenas suas qualidades, que não representam delas senão as imagens e como que os traços.
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Os inteligíveis são as essências das coisas, mas a essência de uma coisa é essa própria coisa em sua realidade ideal.
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Segue-se que na razão o pensamento se confunde com o ser, e como a razão é o que ela pensa e pensa tudo, a razão é tudo.
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Ela tem todas as coisas num sujeito uno e idêntico, subsistindo no mesmo estado, limitando-se a ser, a ser sempre e não conhecendo as vicissitudes nem do futuro nem do passado.
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As coisas que possuem essas propriedades características são os seres verdadeiros, os próprios seres que nada desejam senão manter seu estado presente.
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Cada um deles é razão e ser, e o sistema desses seres é todo razão e todo ser.
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A razão pelo ato de pensar se dá o ser, e o ser pelo fato de ser pensado dá à razão o pensar e o ser.
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O pensar e o ser têm uma causa diferente deles mesmos; pois coexistem, são unidos na hipóstase, na substância, e nunca faltam um ao outro.
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Embora sejam dois, a razão e o ser, o pensante e o pensado, eles são apenas um, e o pensamento é a visão que vê nos dois o uno.
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Eles são dois, pois não haveria ato de pensar se não houvesse entre eles diferença, e não haveria tampouco se não houvesse identidade.
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Já se vê a pluralidade na razão, mesmo quando ela pensa a si mesma, pois ao se pensar ela pensa os inteligíveis que a constituem.
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Na razão, ou no inteligível, que é todo uno, não há apenas identidade e diferença, mas repouso e movimento, e pela pluralidade, número e quantidade, qualidade mesma, pois a qualidade não é senão a diferença própria e a diferença é oposição.
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Esses são os princípios das coisas, e a razão os contém todos e todas.
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É sobre esses princípios que se apoia o conhecimento verdadeiro, pois é neles que as próprias coisas têm seu fundamento.
A razão possui a potência de pensar ou de conhecer, isto é, de se mover, e o conhecimento puro é, portanto, uma espécie de movimento.
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É um movimento no seio do ato anteriormente imóvel, que não era razão senão em potência, abstratamente, como uma visão que não via ainda; era um pensamento que não pensava ainda.
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Todo movimento põe um motor e um fim para o qual ele se dirige.
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Esse fim motor não está na razão mesma; ele lhe é exterior e superior: é o bem, o bem que move para si mesmo a razão; ela sai assim de sua indeterminação, de sua abstração, e torna-se uma razão vivente, em ato, e ato mesmo.
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Esse movimento para o bem é o próprio pensamento, e esse pensamento, esse movimento, é um desejo, o desejo do bem.
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É assim o desejo que engendra o pensamento, e sua substância é una.
O pensamento é movimento, vida, portanto, pois o movimento é a vida, movendo-se para dois objetos: ou para os inteligíveis que contém em si, que é a consciência pura ou inteligível, ou para o princípio superior que essa mesma consciência põe, atestando que depende dele e que lhe é ao mesmo tempo unida e inferior, que é dele que recebe sua determinação e seu limite, sua forma, sua plenitude, sua perfeição, isto é, a potência de engendrar em si os inteligíveis.
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Os inteligíveis não estão em Deus porque ele é absolutamente uno, mas ela só os engendrou porque e desde que contemplou o bem, por uma espécie de intuição e de recepção.
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É somente então que ela se tornou um movimento perfeito, isto é, um conhecimento perfeito, pois ela tem désormais um objeto, e um objeto adequado e idêntico a si mesma.
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O bem é ao mesmo tempo causa do ser e causa do pensamento ou visão do ser.
Sendo movimento, a razão se divide, e o conhecimento mais puro está submetido à dupla condição da distinção da razão em sujeito e objeto, e da unidade dos dois no ato do pensamento.
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Se a razão não fosse dupla, ela não teria nada a pensar, e se não fosse una, ela não existiria e não pensaria, sendo a unidade a condição do ser como do pensar.
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Para que haja pensamento, visão interior como visão exterior, é preciso uma pluralidade, e é preciso também a unidade.
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Se se diz “eu sou isto”, se isto é uma coisa diferente de mim que fala, a afirmação é manifestamente falsa; se isto é um puro acidente do eu que afirma, a afirmação põe uma pluralidade; se isto é absolutamente idêntico a “eu sou”, a afirmação é uma tautologia pura, vazia de todo conteúdo.
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Em toda hipótese, é preciso que o sujeito pensante pense uma outra coisa, e que o objeto pensado, enquanto pensado, ofereça uma diferença com o pensante; sem o que não haverá pensamento do objeto, haverá apenas um toque, uma penetração inconcebível e inexprimível, um pensamento que será anterior à razão pensante e que não é mais verdadeiramente o pensamento.
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O sujeito pensante não pode, portanto, permanecer numa simplicidade absoluta, mesmo e sobretudo quando pensa a si mesmo.
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Ele é uno, pois ele é; é preciso, então, que ele se divida a si mesmo, que, sem ter consciência, se torne vários, que se desdobre e se desenrole, semelhante a uma mulher grávida.
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O absolutamente uno não saberia pensar. Tudo o que se desenvolve é pluralidade.
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Por essa divisão, por esse parto, a razão não sai de si mesma, mas sai da unidade absoluta, se enche, e tendo désseis um conteúdo, torna-se razão.
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Se a razão se dividiu e como que se multiplicou, é que ela já tinha em si mesma o princípio dessa multiplicidade.
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Não apenas ela desejava uma coisa outra que si mesma, ter um objeto a apreender, mas já tinha em si uma representação vaga desse objeto.
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A razão e o inteligível que ela tem por objeto são diferentes; não são separados; ambos não fazem senão um e não são divididos senão pelo pensamento, pois o pensado e o pensante são igualmente o ser, que é uno.
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Há um terceiro princípio: o princípio que divide o inteligível, e é ainda a razão.
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Há, portanto, tanto no universo quanto no homem, três princípios que não fazem senão um: o mundo inteligível, que se pode chamar com
Platão o próprio animal que é; a razão que o pensa; o pensamento.
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Nada impede que o inteligível seja a razão em estado de unidade e de repouso, e que a razão, que percebe essa razão imóvel, seja o próprio inteligível ao qual a visão que ela tem dele a assimila.
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São apenas rapports diferentes, diferentes modos de ser, sob os quais se considera um princípio uno.
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É assim que na razão a diversidade é simples e a pluralidade é unidade.
É preciso manter as duas afirmações, embora pareçam contraditórias: a unidade é a condição do pensamento como do ser; mas se os três modos sob os quais se o considera se confundissem numa unidade absoluta, eles se suprimiriam uns aos outros e desapareceriam todos, e, por outro lado, se o sujeito e o objeto fossem exclusivamente dois e separados um do outro, seriam como que paralelos um ao outro e não saberiam jamais se encontrar e se unir.
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A razão se move e no entanto é imóvel; se move, pois o sujeito se move para o objeto; não se move, pois sendo o sujeito idêntico ao objeto, ele não sai de si mesmo.
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O pensamento é um movimento imóvel.
Os inteligíveis são os próprios seres, os seres em sua vida inteligível, isto é, em sua verdadeira verdade. No inteligível, toda força é essência e existência, e reciprocamente nenhuma essência pode ser concebida sem força.
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O ser não é coisa morta. A razão é as coisas que ela pensa, os seres que não nascem nem perecem.
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Quando ela os pensa, eles não estão fora dela; não lhe são nem anteriores nem posteriores.
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Ela é a lei do ser. Ela não faz senão um com eles; ela os possui como se possui a si mesma.
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Todos estão juntos nela, e no entanto permanecem distintos.
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Como na alma a multidão das noções coexistem e se penetram sem ser confundidas, assim e com maior razão na razão, onde cada inteligível é uma força própria.
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A razão os contém como o gênero contém as espécies, como o todo contém suas partes.
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Nas razões que estão na alma, já se viu e assinalou esse duplo caráter da universalidade e da individualidade: cada uma, como num centro, contém indivisas todas as partes do ser futuro, e cada uma dessas potências ainda escondidas é ela mesma uma ideia una e completa, com todas as partes envolvidas nela.
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Visto que o pensamento é o pensamento de uma coisa imanente à razão, essa coisa interna e a ideia dessa coisa são idênticas, e cada ideia é a razão, e a razão em seu todo é todas as formas que ela contém e que ela pensa.
Na ordem do conhecimento, há igualmente entre a alma e a razão analogia e diferença.
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As ideias, as razões, que estão na alma, nem sempre estão nela em ato: às vezes estão inativas e adormecem.
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Elas estão então na alma como se não estivessem, porque a alma não tem consciência delas, e para que o conhecimento dessas ideias tenha lugar, é preciso que a noção, a forma da coisa, não seja como que exterior à alma, mas lhe seja realmente unida.
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Quando essa união se operou, a consciência atesta à alma que essa forma lhe era própria, que ao menos ela se assimilou a ela; pois anteriormente ela não a possuía em realidade.
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Agora ela lhe dá uma expressão pela linguagem; ela a trata pelos procedimentos do entendimento discursivo, e por essa mesma operação ela reconhece que essa essência formal é diferente dela mesma e que lhe vem de fora; ela só pôde se pôr em harmonia com ela, como se vê na sensação.
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A alma, por sua própria natureza, não pode vencer o dualismo, e a causa que não lhe permite vencê-lo é que ela não é plena, isto é, que ela não tem a posse plena e verdadeira, em ato, das ideias que são os atos da razão e das quais ela só recebeu, nas razões, as imagens.
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Seu conhecimento permanece, portanto, sempre imperfeito e encerrado na pesquisa crítica ou discriminativa.
O conhecimento da razão pura é de uma ordem superior e de um gênero diferente. Elevando-se da alma à razão, elevam-se a pensamentos mais puros, porque os objetos são aí mais semelhantes de natureza, mais unos com o sujeito que os pensa.
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Os dois aqui não fazem mais do que um na substância; o ser e o pensar, o objeto e o sujeito não são mais do que uma coisa; a diferença substancial se evanesce.
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Esse pensamento da razão não é mais apenas um objeto pensado, é o pensamento vivente; é a própria vida, não a vida vegetativa, nem a vida sensível, nem mesmo qualquer das formas da vida da alma.
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Toda vida é uma espécie de pensamento, mas há graus: o pensamento superior é a vida superior ou primeira; o pensamento da ordem inferior é o segundo grau da vida; o último grau do pensamento é a última forma da vida.
A razão no ato de pensar se faz não apenas múltipla, mas universal, e mesmo infinita; a razão quer tudo compreender, mesmo as coisas inferiores, embora tivesse sido melhor para ela não querer compreendê-las.
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Seu desejo de conhecer não tem limites; mas como compreender é possuir, e essa possessão é uma unificação, a razão é tudo o que ela pensa e ela pensa tudo.
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Cada uma de suas partes, que são ao mesmo tempo distintas e unidas juntas, possui e compreende o universal, seu objeto. Sem o que ela não seria mais do que um agregado de partes sem razão, e a razão não é uma síntese de partes; a divisão nela é apenas ideal.
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Cada um dos inteligíveis cujo sistema uno e vivente ela é, é razão, e a razão em seu todo é todos os inteligíveis.
Tão ideal quanto seja, essa pluralidade na razão lhe faz compreender que ela não é o princípio supremo, que há algo acima dela.
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Visto que ela é pluralidade e sempre ligada a um inteligível, ela é número, e o número tem um princípio, a unidade absoluta, o uno perfeito.
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Não apenas ela reconhece que está suspensa, em sua essência e sua função, a esse princípio primeiro, cuja existência necessária ela proclama assim, mas ela chega a dizer algo dele, por exemplo, que ele é a coisa mais absolutamente simples e una, que ele é para ela e absolutamente o bem.
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Visto que esse princípio ultrapassa a natureza da razão, sobre o que se apoiam suas afirmações a seu respeito? Por que ato de intuição intensa pode ela apreendê-lo?
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A única resposta que se pode dar a essa questão psicológica é que há na razão algo de semelhante a ele, ou melhor ainda, algo dele.
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Não há sequer uma única coisa onde ele não esteja, porque não há uma única que não participe dele.
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Todas as coisas o imitam e buscam reproduzi-lo em si, umas mais, outras menos. Quanto mais há nelas de perfeição, mais há de unidade.
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A alma já é mais una do que a natureza; mas a razão é ainda mais una do que a alma: ela é o ser uno, uma imagem do uno, mas sua mais verdadeira imagem.
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Para se lhe assemelhar, ela quis vê-lo; mas para vê-lo, é-lhe preciso, por assim dizer, sair de si mesma, abandonar-se a si mesma, isto é, renunciar a pensar e a ser as coisas outras que o uno, elevar-se acima do pensamento, isto é, acima de si mesma.
Tem-se, portanto, em si, no homem interior, esses três princípios: a alma, a razão e o uno.
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Eles estão em si porque estão no mundo, e é assim que o homem é uma imagem em pequeno do universo, um pequeno mundo.
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Esses princípios se sucedem na ordem de sua geração: a alma procede da razão e a razão procede do uno.
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Essa gênese é toda ideal e não tem lugar no tempo; os três princípios são eternos e coexistem desde toda a eternidade.
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Não há, pois, neles sucessão real, e a ordem na qual se os classifica é uma ordem de dignidade, de perfeição, um rapport de causalidade eterna, medido por sua maior ou menor unidade.
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Nada é mais uno do que o uno absoluto; a razão tem mais unidade do que a alma; a ordem de sua perfeição é, portanto, a ordem natural.
Esses princípios estão dispostos na seguinte ordem: o primeiro é manifestamente o uno, colocado acima do pensamento como do ser, o primeiro uno que é o uno no sentido mais verdadeiro, mais próprio; em segundo lugar, o ser e a razão, chamado de uno pluralidade; enfim, no último e terceiro lugar, a alma, que é una e várias.
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É preciso pôr esses três princípios e não imaginar nem mais nem menos; não se poderia reduzir o número senão identificando seja a alma e a razão, seja a razão e o uno, mas já se demonstrou que eles diferem uns dos outros.
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Não se saberia admitir um número maior, pois não se pode encontrar um princípio mais simples e mais elevado do que o uno, já que nele a potência não é diferente do ato. Não há, portanto, nada acima dele.
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Mas também não há nada abaixo dos outros princípios. Não há evidentemente nada abaixo da alma, que está no último lugar.
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Não se poderia imaginar abaixo do primeiro princípio e acima da alma várias hipóstases, como, por exemplo, admitir uma razão em repouso e uma razão em movimento? Mas o movimento não pertence senão à alma, que se move para a razão.
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Descendo na alma, a razão não cria aí um ser intermediário entre a alma e si mesma; sem o que a alma seria em si um ser privado de razão.
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Se ela recebesse a razão de um outro princípio que não a razão, ela não conheceria a razão e, por consequência, não pensaria de modo algum.
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É possível admitir uma razão que pensaria e uma outra que pensaria que ela pensa? Como conceber um sujeito pensante que não pensa que pensa, quando o próprio da razão sendo pensar a si mesma, ela tem o inteligível em si? Se se recusa a reconhecer que há apenas uma razão, vai-se ao infinito.