Razão Intuitiva

Chaignet: LIVRO

Chega-se à parte mais importante e mais difícil da psicologia de Plotino, pois o sistema exige que se mantenha ao mesmo tempo a união e a diferença entre a razão e a alma e entre a razão humana e a razão divina.

O ato da razão é conhecer, conceber e pensar sem o corpo, tendo por objeto necessariamente os inteligíveis, que são os atos da razão, pertencentes a ela e contidos nela.

O pensamento da razão é o pensamento de certos inteligíveis, a compreensão de coisas inextensas, não passando da potência de pensar ao ato.

Embora a razão seja uma hipóstase distinta, superior à alma e superior ao si mesmo, aquele que quer conhecer a razão e conhecer que há uma razão deve primeiro conhecer a alma e sobretudo o que há de mais divino nela, isto é, a razão da alma.

A razão é introduzida de fora na alma, que ela domina e à qual não se dá toda inteira, projetando sobre a alma a cor e a luz e tornando-a assim intelectual.

Essa produção é uma espécie de ato interior da razão em si mesma que a partilha, como os indivíduos partilham e dividem a espécie, deixando-os no entanto juntos e indissoluvelmente unidos a ela, pois essa divisão só é produzida pela diferenciação.

Se a razão não nasceu da alma, ela se tornou razão porque, embora seja em si o ser uno, ela se dividiu, e se dividiu porque pensou o uno, para o qual é por essência levada e voltada.

A razão tem três relações: com a alma que ela ilumina e transforma numa razão raciocinante; com o bem, o uno ou Deus pelo qual ela mesma é iluminada; e consigo mesma, segundo existe considerada em si.

A razão não é uma coisa inerte, mas uma força que tem seu fundamento em si mesma, a força mais intelectual, mais substancial, mais vivente; ela é o ato do ser.

A razão verdadeira, primeira, grande, como a chama Plotino, sem a qual não poderiam se realizar nem se conceber os atos da sensação nem os atos do entendimento discursivo, é a razão que apreende em si mesma por um ato de intuição, imediatamente, os princípios inteligíveis que a constituem, sendo infalível.

A sensação também é intuitiva, mas não atinge o próprio objeto, pois ele permanece fora dela, e ela tem apenas a intuição de sua imagem; daí a possibilidade do erro em todos os atos de conhecimento que repousam mais ou menos diretamente sobre o exercício dos sentidos.

Se a razão tivesse seu objeto fora de si, ela não seria mais do que a sensação, e então o justo, o belo, o bem seriam estrangeiros à sua essência; ela não apreenderia mais dos inteligíveis senão suas imagens, não os conheceria mais em si mesmos, e todas as suas noções seriam falsas, pelo menos por algum aspecto.

Se os inteligíveis não têm nem a vida nem a razão, não são certamente nem proposições, nem julgamentos, nem o que os estoicos chamam de ditos, pois seriam então atributos e não seres.

Não se deve, portanto, buscar os inteligíveis fora da razão, o que equivale a dizer que a razão não está fora de si mesma, que ela está sempre em si mesma e que nunca poderia estar desprovida de pensamento.

A razão possui, portanto, em si mesma os inteligíveis; essa é a única maneira de explicar e fundar o conhecimento verdadeiro, isto é, o conhecimento das coisas, e o único meio de não se reduzir a apreender pelo pensamento apenas suas qualidades, que não representam delas senão as imagens e como que os traços.

A razão possui a potência de pensar ou de conhecer, isto é, de se mover, e o conhecimento puro é, portanto, uma espécie de movimento.

O pensamento é movimento, vida, portanto, pois o movimento é a vida, movendo-se para dois objetos: ou para os inteligíveis que contém em si, que é a consciência pura ou inteligível, ou para o princípio superior que essa mesma consciência põe, atestando que depende dele e que lhe é ao mesmo tempo unida e inferior, que é dele que recebe sua determinação e seu limite, sua forma, sua plenitude, sua perfeição, isto é, a potência de engendrar em si os inteligíveis.

Sendo movimento, a razão se divide, e o conhecimento mais puro está submetido à dupla condição da distinção da razão em sujeito e objeto, e da unidade dos dois no ato do pensamento.

É preciso manter as duas afirmações, embora pareçam contraditórias: a unidade é a condição do pensamento como do ser; mas se os três modos sob os quais se o considera se confundissem numa unidade absoluta, eles se suprimiriam uns aos outros e desapareceriam todos, e, por outro lado, se o sujeito e o objeto fossem exclusivamente dois e separados um do outro, seriam como que paralelos um ao outro e não saberiam jamais se encontrar e se unir.

Os inteligíveis são os próprios seres, os seres em sua vida inteligível, isto é, em sua verdadeira verdade. No inteligível, toda força é essência e existência, e reciprocamente nenhuma essência pode ser concebida sem força.

Na ordem do conhecimento, há igualmente entre a alma e a razão analogia e diferença.

O conhecimento da razão pura é de uma ordem superior e de um gênero diferente. Elevando-se da alma à razão, elevam-se a pensamentos mais puros, porque os objetos são aí mais semelhantes de natureza, mais unos com o sujeito que os pensa.

A razão no ato de pensar se faz não apenas múltipla, mas universal, e mesmo infinita; a razão quer tudo compreender, mesmo as coisas inferiores, embora tivesse sido melhor para ela não querer compreendê-las.

Tão ideal quanto seja, essa pluralidade na razão lhe faz compreender que ela não é o princípio supremo, que há algo acima dela.

Tem-se, portanto, em si, no homem interior, esses três princípios: a alma, a razão e o uno.

Esses princípios estão dispostos na seguinte ordem: o primeiro é manifestamente o uno, colocado acima do pensamento como do ser, o primeiro uno que é o uno no sentido mais verdadeiro, mais próprio; em segundo lugar, o ser e a razão, chamado de uno pluralidade; enfim, no último e terceiro lugar, a alma, que é una e várias.