Uno

Chaignet: LIVRO

A unidade é o caráter eminente de toda perfeição, confundindo-se com o bem do ser, de modo que todos os seres tendem não apenas a ser, mas ao seu bem-estar, que é a sua unidade.

A alma e a razão se movem em direção a um fim último e incondicionado, que é o uno, e ao contemplar a unidade das coisas existentes, não se pode duvidar de sua existência real.

O uno não é a alma, pois a alma é múltipla pela pluralidade de suas partes e funções, nem é a razão, que é múltipla por seus atributos e contém a diferença e o movimento.

É necessário que exista um princípio superior e anterior à razão, que a explique e no qual todos os outros seres tenham sua raiz e princípio.

A existência do uno é necessária, pois não se conceberia que aquilo sem o qual nada se pode afirmar, nada se pode conceber, não tivesse nenhuma forma de existência.

A razão possui sempre a ideia da justiça e da beleza, tendo necessariamente um princípio e uma causa distinta dela mesma, mas não separada dela por sua essência.

A razão tem consciência de que sua potência não vem dela mesma, mas do uno, vendo que sua essência é uma parte das coisas que pertencem ao uno e dele procedem.

A visão do bem ou do uno é a operação de um ser que já quis vê-lo, e essa vontade, como uma espécie de paixão amorosa, supõe na alma uma posse anterior do objeto amado.

O uno não é múltiplo nem em sua essência nem em seu ato, pois deve preexistir ao múltiplo, que tem nele a razão de sua existência.

O uno está em nós, em cada um de nós, pelo menos uma imagem dele, uma potência de mesma natureza, e a consciência no-la revela.

Deus está presente em cada um de nós sem deixar de ser todo inteiro em si mesmo, estando em toda parte e ao mesmo tempo em nenhum lugar.

A razão, nos momentos de intuição intelectual e meditação intensa, se confunde quase com o uno em nós, elevando-se acima de si mesma e absorvendo-se imóvel na contemplação de seu objeto.

Eleva-se primeiramente ao ser, depois às formas inteligíveis que vêm imediatamente abaixo dele, pensando-as sem necessidade de imagens nem de formas sensíveis, porque se é precisamente esses seres.

A vida é movimento, um movimento de circulação eterna, devendo, portanto, proceder de algo que não seja arrastado nesse movimento, mas que seja seu princípio.

O princípio não se divide no todo que engendra; se se dividisse, o todo seria destruído, pois não seria mais uno, nem mesmo nasceria.

Em Deus, o ato e a essência sendo idênticos, não se pode dizer que ele obedece à sua natureza ao criar, pois ele é livre.

A primeira hipóstase (o uno) consiste em uma espécie de razão, estando ao mesmo tempo debruçada sobre si mesma e imanente a si mesma.

A razão é a mais bela das coisas, e aquele que a engendrou é o objeto amável e o amor, o amor de si mesmo, pois ele não é belo senão por si mesmo e em si mesmo.

Os dois aspectos sob os quais Deus se apresenta de maneira mais manifesta e mais poderosa são o belo e o bem, sendo o bem anterior e superior ao belo.

O uno, potência de tudo, tem em potência a pluralidade, mas essa pluralidade não lhe vem de um princípio exterior e estranho: ela lhe vem de si mesmo e ele a tira de si mesmo, sendo a multiplicidade infinita.

Se alguém se apega a ver o uno e a não ver senão ele e ele todo inteiro, se renuncia à sua individualidade, torna-se universal e aumenta, incha sua natureza.

Todos os homens, movidos por um sentimento espontâneo, proclamam que Deus está presente em cada um de nós, que ele é um, idêntico a si mesmo e único.