Nota de Miguel Morey, em sua tradução da obra de Colli, “La naturaleza ama esconderse”
Reconhecimento de Colli através da edição crítica das obras de Nietzsche.
Colaboração monumental com Mazzino Montinari na edição completa dos escritos filosóficos de Friedrich Nietzsche.
Decisão controversa e paradigmática: publicar integralmente os fragmentos póstumos em ordem cronológica, desconstruindo a entidade editorial A Vontade de Poder.
Impacto terminante para as gerações posteriores de intérpretes, deslocando leituras canônicas (ex.: Heidegger, Deleuze).
Trajetória prévia como editor e helenista.
Diretor da coleção Classici della filosofia (Einaudi): publicou primeira tradução italiana completa do Organon de Aristóteles (1955) e nova versão da Crítica da Razão Pura de Kant (1957).
Responsável pela Enciclopedia di autori classici (Boringhieri, 1958-1965): 90 títulos que harmonizam cânones ocidentais e orientais, desde as origens arcaicas até a modernidade.
Projeto inacabado La sapienza greca: edição crítica dos filósofos pré-socráticos em 11 volumes (concluído postumamente o volume sobre Heráclito, 1980). Critérios rigorosos e polêmicos.
Virada filosófica: Filosofia dell'espressione (1969).
Revelação de Colli como pensador sistemático, além do helenista e editor.
Crítica radical ao pressuposto moderno do conhecimento como representação (Vorstellung) entre um sujeito substancial e um objeto exterior.
Tese central: o logos não é representação, mas expressão.
A expressão remete a um fundo irrepresentável, de pura imediatez.
Deste eco expressivo é que se abrem, derivadamente, a possibilidade de algo como um sujeito e um objeto.
O sujeito psicológico não é fundamento, mas resultado deste movimento.
Hipótese expressiva desdobra a interrogação em dois caminhos (ascendente e descendente) que são um só:
Inmediatez como primeira expressão balbuciante.
Inmediatez como última representação que aponta para além do discurso.
Gênese do pensamento: La natura ama nascondersi (1948) e La ragione errabonda (1982).
La natura ama nascondersi antecipa o duplo percurso do eros e da philia, explorando o amor pela verdade e a dificuldade de dizê-la.
Estabelece os problemas filológico-filosóficos decisivos para pensar a gênese do logos: fontes, autores, fragmentos, termos essenciais.
Estrutura clara e firme:
Abertura: “A Grécia dos filósofos”.
Três lições sobre a transmissão aristotélica da sabedoria arcaica e o problema das Diadochai (sucessões).
Retratos dos três grandes sábios arcaicos: Parmênides, Heráclito, Empédocles.
Exegese de Platão em três atos: panorama dos escritos; análise minuciosa de Fédon, Fedro, Simpósio sobre o pano de fundo da crise do Górgias; retrospectiva a partir do Parmênides.
Método: utiliza poucos problemas filológicos precisos como fulcro para abrir uma fenda na opacidade que sepulta o logos antigo.
Estilo e estratégia escriturística: uma prosa enigmática e desafiadora.
Escrita para ser lida em voz alta, com tempo cordial.
Uso exaustivo do hipérbaton (incisos aclaratórios entre vírgulas cujo sentido só se completa ao fim da frase).
Encadeamento de parágrafos onde a chave de abóbada é enigmática, adquirindo inteligibilidade plena apenas páginas adiante.
Convite a uma leitura dupla, ativa, que meça a força do pensamento do leitor.
Enigma entendido em seu sentido originário: desafio aos limites do pensamento do leitor, convite a ir além do explicitamente dito.
Prosa sapiencial em Filosofia dell'espressione; tonalidade filológica em La natura ama nascondersi, mas com idêntico desafio.
Opções tradutórias e respeito à integralidade do texto.
Recusa de simplificar ou explicar o enigma, o que deslocaria o plano de enunciação.
Evitação de notas explicativas que imporiam a força interpretativa do tradutor.
Tradução fiel das versões de Colli para os fragmentos gregos, mesmo quando controversas, pois são parte constitutiva dos enigmas propostos.
Inclusão dos textos originais em grego para permitir a controvérsia e o cotejo.
Avaliação final: a transformação do olhar.
O valor da obra não reside numa “verdade inapelável”, mas em sua capacidade de transformar a perspectiva do leitor.
Após a leitura, não é possível retornar aos temas tratados da mesma maneira.
O legado é um convite a pensar de novo e de modo diferente, inaugurando um novo começo para a reflexão.