Forma ed evento. Principi per una interpretazione del mondo greco. Neri Pozza Editore, 1952
Resumo da apresentação da versão em inglês por Jacques Lezra
Exposição do problema fundamental: tensão irredutível entre idea (ἰδέα, εἶδος) e tyche (τύχη) como princípios constitutivos da consciência e da expressão do mundo grego.
Idea compreendida como forma inteligível, modelo eterno, estrutura estável e essência contemplativa que se oferece ao nous (νοῦς).
Tyche compreendida como evento, acaso, contingência irredutível, aquilo que advém e que se impõe à experiência de seres capazes de bem ou mal, de agir e padecer.
Esta tensão não é mero objeto de análise histórica, mas princípio ativo que estrutura a interpretação do mundo grego e, por extensão, os fundamentos do pensamento ocidental.
Análise lógica como ponto de partida: o contraste entre o silogismo categórico aristotélico e o silogismo hipotético estoico.
Silogismo aristotélico da forma: opera com categorias universais e necessárias, ignorando a particularidade dos eventos e a dimensão temporal.
Exemplo paradigmático: “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal.” A conclusão é necessária e deriva da essência formal.
Relação de correspondência reflexiva entre sintaxe lógica e objetos ideais, onde a tautologia garante a verdade.
Necessidade de caráter teórico e contemplativo, fundada na imutabilidade das essências.
Silogismo hipotético estoico do evento: opera com conexões condicionais e relações entre proposições singulares, ignorando as formas essenciais.
Estrutura: “Se é dia, há luz; é dia; logo, há luz.” A verdade depende da conexão factual e da validade do condicional.
Necessidade de caráter imanente e prático, fundada na conexão causal entre eventos singulares e no encadeamento discursivo.
Abertura para a tyche como pura indeterminação que o raciocínio tenta capturar, mas que permanece como resíduo contingente.
Consequências ontológicas e teológicas da dualidade forma-evento.
Ontologia aristotélica: primado da substância (ousia, οὐσία) como forma realizada (entelecheia, ἐντελέχεια).
O ser é compreendido a partir do tò tí ên eînai (τὸ τί ἦν εἶναι), a essência imutável.
Causalidade final como expressão da forma que atrai o movimento para sua realização plena.
Deus como forma pura, ato puro (energeia, ἐνέργεια), pensamento do pensamento (noêsis noêseôs, νόησις νοήσεως).
Deus é a “coisa vista” por excelência, o eidos supremo que contempla a si mesmo, separado do mundo, imóvel e eterno.
Ontologia estoica: primado do corpo (sôma, σῶμα) e do evento singular dentro de um cosmos materialista e panteísta.
Ser identificado com o corpóreo que age e padece (poioun kai paschon, ποιοῦν καὶ πάσχον).
Causalidade eficiente e imanente como teia de eventos encadeados pelo logos (λόγος) divino.
Deus não possui forma própria, mas é corpo fluido e ígneo (pyr technikon, πῦρ τεχνικόν) que permeia todas as coisas.
Deus é logos, discurso que se move de termo a termo, providência (pronoia, πρόνοια) e lei (nomos, νόμος) que realiza a identidade cíclica do ser.
Desdobramentos na concepção de tempo e história.
Tempo da forma (Aristóteles): tempo como medida do movimento em relação a um antes e um depois, subordinado à eternidade do motor imóvel.
A forma é atemporal; sua realização no mundo sublunar ocorre no tempo, mas seu modelo é eterno.
História como campo de manifestação contingente de formas essenciais que em si mesmas são anistóricas.
Tempo do evento (Estoicos): tempo como dimensão intrínseca da existência corpórea e do fluxo causal.
O evento é temporal por essência; sua singularidade é irredutível.
História regida pelo logos divino que realiza ciclos cósmicos (apokatastasis, ἀποκατάστασις), onde cada instante é identidade do ser que foi.
A contingência da tyche inscreve-se dentro desta ordem fática e providencial.
Manifestações da tensão na tragédia ática, especialmente em Sófocles.
A tragédia como lugar privilegiado onde a tyche irrompe na ordem da forma, da lei (nomos) e da previsão humana.
Análise de Édipo: filho da Tyche, cuja identidade e destino são tecidos pelo acaso que subverte todas as formas estáveis de parentesco e poder.
O parricídio e o incesto como eventos que não decorrem de uma forma má, mas de uma constelação de acasos e erros não intencionais (hamartia, ἁμαρτία).
A revelação final não restaura uma forma perdida, mas instaura o vazio da contingência e a aceitação do evento puro.
Implicações éticas e antropológicas.
Ética da forma (eudaimonia aristotélica): felicidade como atividade da alma segundo a excelência da forma (aretê, ἀρετή), que é a própria razão.
A vida contemplativa (bios theoretikos, βίος θεωρητικός) como realização mais alta da forma humana.
Ação humana orientada para um fim (telos, τέλος) determinado pela essência.
Ética do evento (estoicismo e epicurismo): busca da ataraxia (ἀταραξία) diante do fluxo dos eventos e da tyche.
Sabedoria como aceitação do destino (amor fati) e discernimento entre o que depende de nós e o que não depende.
Ação humana como resposta adequada aos eventos singulares, dentro de uma compreensão da natureza material das coisas.
Repercussões na estética e na poética.
Arte como mimesis (μίμησις) da forma (Platão, Aristóteles): imitação das essências ou das ações humanas, conferindo ordem e universalidade ao particular.
Arte como expressão do evento e do pathos: capacidade de capturar o instante singular, a força do acaso e a intensidade do sofrimento ou da alegria.
A catarse (katharsis, κάθαρσις) trágica como experiência purificadora através do encontro com a tyche dramatizada.
Projeção histórica: a tensão forma-evento como chave interpretativa não apenas do mundo grego, mas da tradição europeia.
Recepção e transformação da idea platônico-aristotélica no cristianismo e no idealismo moderno: primado da forma, do conceito, do espírito absoluto.
Sobrevivência subterrânea da tyche e do pensamento do evento no materialismo, no nominalismo e em certas correntes da filosofia contemporânea.
Crítica à tentativa de síntese hegeliana e às suas consequências políticas no século XX, em particular à noção de Estado como forma espiritual totalizante (referência implícita a Giovanni Gentile).
O Estado como “forma e norma interior”, “alma da alma” que pretende resumir todas as formas da vida moral e intelectual, anulando a singularidade do evento.
O fascismo visto como tentativa extrema de realização de uma forma política absoluta, correlativa a uma leitura idealizada do classicismo.
Atualidade filosófica do pensamento de Diano: o enfraquecimento das noções de necessidade e singularidade.
A crise dos fundamentos e o “retorno do evento” no pensamento do pós-guerra e contemporâneo.
A filosofia do evento em Heidegger (Ereignis) e sua diferença em relação à tyche grega.
O formalismo lógico e a filosofia matemática do evento (referência a Jan Łukasiewicz e Alain Badiou).
A pertinência da dupla forma-evento para pensar as aporias da globalização, a hegemonia cultural e a catástrofe ambiental, onde forças formais abstratas (capital, tecno-ciência) colidem com a singularidade de eventos irredutíveis.
Conclusão metodológica: princípios para uma interpretação que não dissolve a tensão.
Recusa de uma síntese dialética que supere a dualidade em uma terceira instância.
A interpretação deve manter-se fiel à irredutibilidade dos dois princípios, cartografando suas manifestações e entrelaçamentos históricos.
A tarefa do intérprete: pensar a “identidade mística do princípio que rege ambos”, não como unificação, mas como reconhecimento da co-pertença conflitiva que estrutura a experiência do real.
O legado grego para o presente reside justamente nessa abertura tensa, que desafia toda leitura dogmática ou identitária da tradição ocidental.