PLATÃO – ENSALMO

Pedro Lain Entralgo, «La curación por la palabra»

Em 1925 foi publicado em Viena um livro de inegável importância para a história da medicina contemporânea, cuja abertura trazia um fragmento do Cármides platônico sobre a cura da alma por meio de certos ensalmos.

Os filósofos também não estudaram de maneira plenamente satisfatória a ideia platônica do ensalmo ou conjuro, a epode.

A palavra epode e as palavras a ela aparentadas aparecem nos escritos platônicos não menos de cinquenta e duas vezes, distribuídas ao longo de toda a obra do filósofo.

A análise da epode em Platão exige distinguir dois modos de emprego da palavra: o denominativo-descritivo e o interpretativo-metafórico.

A epode é, em sua origem, uma fórmula verbal de caráter mágico, recitada ou cantada diante do enfermo para obter sua cura.

Platão alude por vezes, com extrema sobriedade, a essas epodai tradicionais, sem acrescentar juízo de valor além da mera enumeração da prática mágica.

Em outros textos, à mera enumeração da prática mágica acrescenta-se uma clara atitude de vitupério moral e intelectual.

Há textos em que a epode mágica já aponta para a intenção metafórica ou analógica que será desenvolvida adiante.

Uma passagem do Êutidemo introduz decisivamente o campo da utilização metafórica ou analógica do vocábulo.

Os personagens dos diálogos platônicos chamam epode à palavra psicologicamente eficaz, à expressão verbal persuasiva, nas mais diversas ocasiões.

No Fédon, a epode adquire um sentido especial ligado ao temor da morte.

A transposição semântica de epode — de conjuro mágico a raciocínio ou relato contra o erro e os afetos danosos — não é uma simples metáfora, como afirmam Boyancé e Dodds.

II

De volta da batalha de Potideia, Sócrates encontra o jovem Cármides no ginásio de Taureas e aceita curar-lhe a dor de cabeça por meio de uma planta à qual deve ser acrescentado um ensalmo.

O ensalmo aprendido de um médico trácio, discípulo de Zamolxis, fundamenta a ideia de que o corpo não pode ser curado sem curar a alma.

As indicações do trácio zamolxida sobre o bom emprego do ensalmo contra a dor de cabeça podem ser reduzidas a três pontos principais.

A epode terapêutica é, em suma, um logos kalos, um “belo discurso”, eficaz por produzir no alma a sophrosyne, cuja posse é condição prévia para a operação curadora.

O corpo do diálogo é uma resposta a três interrogações: o que é a sophrosyne, se ela existe já na alma de Cármides e se o rapaz possui ideia suficientemente clara dessa virtude.

Diante do fracasso na definição racional da sophrosyne, Sócrates prefere considerar-se “mau buscador” e continuar crendo que ela é um grande bem.

Cármides entrega-se confiadamente ao procedimento de seu mestre e confessa sem reservas sua necessidade de sophrosyne.

O Cármides é, ao mesmo tempo que uma discussão em torno da sophrosyne, um poderoso esforço por racionalizar a epode.

O sentido translato, não diretamente mágico da epode, é frequente nas páginas das Leis.

Em outros contextos das Leis, epode designa todo recurso verbal, relato ou canto, que sirva para educar a alma dos jovens.

Um texto do livro X das Leis permite conhecer mais precisamente a ideia platônica dessas “coisas belas” como “mitos encantadores.”

O fato de Platão chamar epode à expressão verbal persuasiva não é mera metáfora, mas também, em certa medida, verdadeira analogia.

Em ambos os casos, mas de modo eminente no segundo, a modificação real da alma do ouvinte consiste na produção de sophrosyne — taxativamente o diz o Cármides (157a).

Isso é o que se chama “racionalização do ensalmo” — mas a palavra “racionalização” deve ser entendida aqui com cautela.

Com isso Platão converte-se, sem sombra de dúvida, no inventor de uma psicoterapia verbal rigorosamente técnica.

III

As reflexões sobre a concepção platônica do ensalmo não ficariam completas sem examinar a relação entre a epode e a kátharsis.

A ideia platônica da kátharsis apresenta, no mínimo, cinco sentidos distintos, que convém delimitar antes de examinar sua relação com a epode terapêutica.

Os cinco sentidos da kátharsis platônica estão unidos por um duplo vínculo — um nexo formal externo e um nexo profundo e radical.

Platão foi o primeiro a fazer da alma o sujeito da “purificação” ou kátharsis.

O nous, a mente, “o divino em nós” — “o puro nous”, como é chamado em Crátilo (396b) —, é puro por si mesmo e não necessita de kátharsis.

A solução do Fédon é simplista e extremada: o homem consegue a pureza de sua alma entregando-se à vida teorética, sendo puro nous na medida em que isso é possível na existência terrena.

A mente de Platão não pôde ficar encerrada nos limites de um antissomatismo tão rígido, e logo após o Fédon sua doutrina começa a ser matizada.

A causa real da nósos psykhes — da “doença da alma” — não é o corpo, mas o ato e o desejo desordenados.

Entre as doenças do corpo e as da alma não há só paralelismo metafórico ou analogia extrínseca, mas também transição contínua e estreita relação genética.

Os agentes catárticos capazes de reinstaurar a ordem nas almas afetadas de ametria são a palavra idônea e eficaz — não as fumigações de enxofre nem os banhos lustrais da kátharsis tradicional.

Não são poucos os textos em que Platão alude expressamente a essa kátharsis verbal e racionalizadora das “doenças da alma.”

A conexão essencial entre a kátharsis e a epode delineia-se com clareza: toda epode é um katharmós verbal, um recurso para a “purificação” da alma mediante a palavra.

IV

O exame da concepção platônica do ensalmo lança luz sobre três campos distintos: a história do saber médico, a antropologia geral e a teoria da expressão verbal.

A meditação platônica sobre a epode e a kátharsis ilumina também a relação entre o que no ser do homem é “racional” e os ingredientes que hoje costumamos chamar de “irracionais.”