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Entre o século VIII e o século V a.C., produz-se na vida grega uma importante modificação que afeta todos os ordenamentos da existência humana: a religiosidade, a vida social, a relação entre o homem e as coisas, a atitude do indivíduo frente à sua própria realidade.
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Dodds fala do trânsito de uma “cultura do pundonor” (shame-culture) para uma “cultura da culpabilidade” (guilt-culture), na qual o difuso sentimento de culpabilidade ganha extensão e força em todo o mundo helênico.
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Hesíodo, Sólon, Teógnis, Ésquilo e Heródoto são apresentados como testemunhos literários desse profundo cambio de situação e sensibilidade.
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Os ingredientes religiosos, morais e psicológicos da “cultura de culpabilidade” que se constituiu na Grécia a partir do século VII são apontados como importantes.
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No orden religioso, muda sensivelmente a disposição do homem frente à Divindade, com um temor profundo de incorrer em pecado de hýbris ou desmesura, e uma expressão de Heródoto (“ciumentos e perturbadores”) é citada para expressar a nova situação das almas.
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Aparecem e se difundem formas de religiosidade distintas da olímpica (culto orgiástico a Dioniso, mistérios órficos e eleusínicos, coribantismo do culto a Cibeles), que cumprem uma missão ao mesmo tempo libertadora e purificadora para seus adeptos.
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A frequência considerável com que os daímones (benignos às vezes, malignos quase sempre) são mencionados nos textos literários da época é consignada, e Teógnis é citado por chamar “perigosos daímones” ao temor e à esperança.
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Na vida moral, o centro é o difuso e vago sentimento de culpabilidade, e a atē deixa de ser acidente psíquico imprevisível para se converter em castigo ou calamidade (Teógnis chama atē ao infortúnio de receber ouro falsificado I, 119; Eurípides chama as Atai de Creonte a Antígona e Ismena em Tro., 530).
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A importância e extensão que os ritos catárticos alcançam na Grécia, tanto na vida pública como na existência individual e privada, fazem patente essa geral consciência de culpabilidade, sendo lembrada a famosa “purificação” de Atenas pelo catarta Epimênides de Creta, a fines do século VII.
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A contaminação punitiva da realidade humana e cósmica por um miasma invisível (às vezes concebido como daímōn) torna-se uma ominosa e constante possibilidade, sendo o destino pessoal das estirpes trágicas (atridas de Argos, labdácidas de Tebas) uma ilustração da crença helênica no caráter hereditário (físico) da impureza moral.
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A profissionalização da kátharsis é assinalada, passando a mãos de sujeitos especializados na execução remunerada dos ritos de purificação, como os “charlatães e adivinhos” que
Platão menciona na
República (II, 364 b).
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Na psicologia do homem helênico, as potências psíquicas de índole “irracional” e os modos de comportamento que a elas correspondem ganham importância, sendo a manía (arrebato extático causado pelos deuses) ausente no epos homérico, mas atestada por Heródoto, os trágicos,
Empédocles, o Corpus Hippocraticum e
Platão nos séculos seguintes ao VIII.
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A crescente importância atribuída na Grécia aos sonhos durante esse mesmo período é mencionada.
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As causas determinantes da mudança da mentalidade grega são apontadas como duas: uma relativa à sociedade helênica em seu conjunto (desorden social consecutivo à invasão dórica, insegurança da existência individual, pessimismo, alterações bruscas de caráter econômico e político, superpovoação da Grécia continental) e outra pertencente à vida intrafamiliar (tensões psicológicas no seio da vida familiar com a constituição da pólis e o progresso da democracia, gerando uma ambivalência entre a forte vinculação moral e afetiva ao costume patriarcal e um crescente desejo de existência autônoma).
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A secreta rebelião do filho contra o pai faz-se também rebelião contra Zeus, Pai celestial, e o sentimento da culpa moral foi ao mesmo tempo sentimento de culpa religiosa, prosperando atitudes de ânimo como hýbris, míasma, kátharsis, daímōn, manía, enthousiasmós, teletaí.
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A medicina popular da Idade Média helênica é descrita com quatro rasgos principais:
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Intensifica-se e estende-se a crença no caráter punitivo da doença, concebida popularmente como contaminação da natureza individual do enfermo por um míasma ou como possessão do paciente por um deus dotado de nome (Hécate, Cibeles, Pan, Coribantes, Apolo Nomio, Ares, Heróis) ou por um oscuro daímōn maligno, como se expressa no escrito de morbo sacro (Littré, VI, 360-362) e no escrito pseudo-hipocrático de virginibus (Littré, VIII, 466).
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Aparecem novas “enfermidades” como consequência psicossomática do sentimento de culpa e dos ritos a que tal sentimento conduziu, deixando a difusão epidêmica da religiosidade dionisíaca uma disposição mórbida no homem grego (Rohde), sendo a linha que separa a saúde perfeita da doença “sumamente tênue” (Ésquilo, Agam., 1.001-1.003).
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No tratamento das enfermidades, fazem-se muito mais frequentes as curas mágicas de caráter mántico ou purificador: encantamentos diversos, cerimônias catárticas, oráculos medicinais, cultos orgiásticos, sono nos templos de Asclépio.
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O médico é, ao mesmo tempo, um libertador ou purificador da mancha física (um “catarta” mais ou menos próximo de algum culto religioso) e um herdeiro de algum dos “primeiros inventores” da arte médica, não sendo acaso que Apolo e os médicos arcaicos sejam chamados iatrómantis (Ésquilo, Eum., 62-63, e Supl., 263), e que a palavra chegue a ser usada metaforicamente para expressar a operação “purificadora” da dor: “para ensinar à mesma velhice, as cadeias e a fome são iatromantes dos corações, phrenōn iatrománteis” (Ésquilo, Agam., 1.621-1.623).