PODER DA PALAVRA EM ARISTÓTELES

Pedro Lain Entralgo, «La curación por la palabra»

A parte mais relevante do legado médico de Platão — sua concepção pessoal da psicoterapia verbal — não foi assimilada pelos continuadores de Hipócrates na segunda metade do século IV, sendo provável que a desconhecessem inteiramente.

Platão havia ensinado que a palavra comunicativa pode adotar duas formas distintas — o logos dialético e o logos mítico —, produzindo em consequência dois efeitos psicológicos diferentes.

Os escritos que compõem o Organon — Categorias, Analíticos, Tópicos, Sobre a interpretação, Sobre as refutações sofísticas — constituem um tratado acerca do logos dialético, cujo exercício recebe o nome técnico de lógica.

A preocupação aristotélica com a persuasão verbal não se encerra na Retórica, estando presente também em páginas da Ética a Nicômaco, da Política e em quase toda a Poética, onde se coloca o velho e nunca resolvido problema da katharsis mencionado na famosa definição da tragédia.

A Retórica de Aristóteles nasce de um propósito ao mesmo tempo platônico e antiplatônico, herdando o pensamento do Fedro, do Filebo e das Leis para dar cumprimento ao projeto de uma arte retórica que seja verdadeira técnica e verdadeira ciência — conforme o Político (304c-d) — mas afastando-se do mestre em dois pontos graves, um de caráter moral e outro de índole lógica.

Para Aristóteles, a retórica é “a faculdade de considerar em cada caso o que nele pode ser próprio para persuadir” (I, 2, 1355, b 25), definição que a coloca em paralelo com a medicina, pois a missão desta não é sanar em absoluto, mas averiguar como e até que ponto é sanável cada enfermo (I, 1, 1355, b 10-15).

Os predecessores de Aristóteles, atentos sobretudo ao gênero judicial, abandonaram o cultivo dos outros dois — o deliberativo e o epidítico —, mas Górgias, Antifonte e Platão haviam iniciado a edificação de um quarto gênero, o terapêutico ou curativo, nunca nomeado pelo filósofo.

A arte do orador, segundo a Retórica, consiste em utilizar habilmente as três provas técnicas cardinais: o caráter de quem fala, a disposição do ouvinte e o que com o discurso se diz (I, 2, 1356, a 1-5).

A disposição do ouvinte é igualmente decisiva para a eficácia da persuasão retórica, tendo Platão já ensinado no Fedro (271a-272b) que o orador deve atentar nos vários aspectos das almas de quem o ouve.

As paixões são, do ponto de vista da retórica, “aquilo pelo que os homens mudam e diferem para julgar, e às quais seguem a pena e o prazer; tais são a ira, a compaixão, o temor e as demais semelhantes, e suas contrárias” (II, 1, 1378, a 22-24).

O elemento decisivo entre as três provas técnicas é sempre o que o discurso diz, pois “pelo discurso creem os ouvintes, quando com ele mostramos a verdade ou o que parece verdade, segundo o que seja persuasível em cada caso particular” (I, 2, 1356, a 20-21).

Aristóteles compreende o mecanismo da transformação psicológica produzida pela palavra persuasiva mediante cinco conceitos principais: caráter, disposição, paixão, opinião e crença.

Se a intenção do orador é honesta e se atém ao que pedem a natureza da arte e a natureza do homem, seus fins não podem ser outros que a verdade, o bem e a felicidade.

O que Aristóteles diz da persuasão deliberativa, demonstrativa e judicial pode ser transposto diretamente à persuasão terapêutica, tornando legítima a adição de um quarto gênero ao corpo da Retórica.