Origens da ideia de contemplação

FESTUGIÈRE, André-Jean. Contemplation et vie contemplative selon Platon. Paris: Vrin, 1936.

A palavra theoria se relaciona com a ideia primeira de visão, sendo reconhecida como um composto de dois temas que indicam igualmente a ação de ver.

Não é seguro que theoros e seus compostos tenham tido de imediato, na Grécia, valor religioso, embora Teócrito e Epicarmo usem a palavra para designar “aquele que consulta um oráculo”, e o sentido cultual esteja presente.

Embora o vocábulo talvez não remonte aos pré-socráticos, o que ele expressa já não seria para eles uma realidade, pois eles não teriam fundado, à sua maneira, a vida teorética na qual se entrega à ciência pura?

A obra de Platão fará sofrer à contemplação religiosa um progresso análogo, pois, como o objeto divino dessa contemplação não é mais uma bela forma visível, mas a invisível Beleza, o amor que move em direção ao objeto eleva daquilo que era apenas um reflexo até o Exemplar.

O esforço de Platão parece ter consistido, desde então, em espiritualizar a theoria sob seus dois aspectos de consideração científica e de contemplação religiosa, esforço que talvez tivesse tomado outra direção sem a influência de Sócrates.

A introdução visa, portanto, um tríplice objetivo: traçar a imagem do sábio que, como Anaxágoras, leva o “bios theoretikos” na acepção mais larga que essa palavra comporta antes de Platão; definir a theoria nas práticas do culto; e discernir, entre os traços da fisionomia de Sócrates, aqueles que explicam o império desse raptor de almas.