Contemplação do Sábio

FESTUGIÈRE, André-Jean. Contemplation et vie contemplative selon Platon. Paris: Vrin, 1936.

A vida contemplativa de conhecimento aparece antes de Platão, e é necessário explicar como uma noção de felicidade tão contrária ao sentimento médio do povo grego pôde surgir.

Os heróis de Homero são guerreiros cujo ideal não é contemplar, mas lutar, e a excelência (arete) se confunde com a coragem (andreia).

No que diz respeito aos filósofos da natureza (physikoi), é preciso deixar de lado as anedotas, pois elas seguem a moda e um mesmo filósofo pode ser dito contemplativo, ativo ou nomoteta conforme se pregue uma dessas formas de existência.

O que caracteriza o jônio é uma maravilhosa ardor para viver, para esgotar todas as modalidades da existência, sendo o fogo da paixão e a exaltação da coragem e da energia os traços dominantes da Ilíada e da Odisseia.

Xenófanes de Colofão, tendo passeado suas humores de cidade em cidade por sessenta anos, critica os homens de seu tempo e afirma que não é justo preferir a força à sabedoria (sophia).

A pretensão a uma doutrina original que faz do sábio um homem à parte se acusa em Heráclito, cujos aforismos pintam, misteriosa, uma vida secreta do espírito.

Esses aforismos fornecem os elementos de uma doutrina da contemplação e da vida teorética, na qual o comum dos mortais é joguete das aparências, a unidade do conjunto lhes escapa, e somente o sábio, que vive do pensamento, tem a percepção da ordem.

É justo opor Parmênides e Heráclito como os campeões, um da imobilidade pura, o outro da pura mobilidade, mas esses dois desprezadores da multidão se assemelham por mais de um traço.

O ponto fraco da doutrina de ambos os filósofos é que eles só atingem um objeto material, não tendo distinguido com rigor o sensível do inteligível nem definido as marcas necessárias do ser pensado.

Não resta dúvida de que as pesquisas dos pré-socráticos os induziram a levar uma existência mais secreta, com um admirável ímpeto que os levava às únicas alegrias do espírito.

O problema de saber se os pré-socráticos organizaram a vida contemplativa como chefes de escola é insolúvel, pois falta todo testemunho contemporâneo e o mais antigo garantidor, Teofrasto, se inspira visivelmente no que tinha sob os olhos na Academia e no Liceu.

O caso de Anaxágoras é diferente, pois ele viveu em Atenas, onde foi visto, e testemunhos antigos, oriundos de Atenas, pintam sua conduta, concordando em mostrá-lo solitário e não tendo outro cuidado senão a pesquisa científica.

Os testemunhos de admiração que Péricles e Eurípides ofereciam ao ideal de Anaxágoras são corroborados, inversamente, por uma série contrária de reproches, pois o que a elite honra a massa critica.

Na República, Platão empreende demonstrar a verdade de seu proposição de que enquanto os filósofos não reinarem nas cidades, o Estado não cessará de sofrer, enfrentando uma vaga redutora.

O Estagirita nota a mesma dificuldade a propósito de Anaxágoras, reconhecendo que a sabedoria é ao mesmo tempo uma ciência e uma apreensão intuitiva dos seres mais sublimes por sua natureza.

Se se considera a vida contemplativa como uma vida de pesquisa filosófica, é justo admitir que tal existência, constituindo o sábio num estado particular que o designava à hostilidade do vulgo, foi levada por alguns indivíduos antes de Platão.

Essa série de aporias determina o triplo esforço de Platão, que consiste primeiramente em transpor o objeto do conhecer: o ser verdadeiro, imutável, por si, essencial, é um invisível, visível ao único olho da alma, um inteligível (noeton).

A Forma invisível não é apenas o objeto último do conhecer, pois, divina e divinamente bela, ela é o mais alto objeto de amor, e a beatitude depende da união amorosa com a Beleza eterna.