Fink – Sócrates

O que é digno de questionamento e reflexão não é, para a filosofia, previamente decidido de forma definitiva, mas se revela como tal apenas em um pensamento que se questiona. Nada no vasto universo é pequeno demais para surpreender; nenhum ser é elevado demais para que o homem se surpreenda e o inclua em suas perguntas. Tudo o que é geral é admirável e misterioso em seu ser. Sócrates podia iniciar a conversa filosófica sobre as coisas mais comuns da vida cotidiana; ele podia tomar como ponto de partida as atividades mundanas do seleiro, do tecelão, do piloto, para discutir a respeito delas a natureza da ação humana, da ação boa ou má, e conduzir seu interlocutor à questão mais elevada da virtude do estadista, do sábio, à questão da virtude como (14) tal e da verdadeira felicidade do homem. Por meio de uma maneira hábil e astuta de fazer a pergunta, ele conduzia do insignificante ao supremo. Essa arte de dar à luz as mentes fez o prestígio e a glória desse filho de parteira desde a antiguidade, e sempre se volta a ela para dar como exemplo clássico da atitude livre de qualquer preconceito que a filosofia assume em relação a todas as coisas. Talvez devêssemos questionar isso, para não permitir que a própria filosofia se torne um mito. Sócrates (na medida em que tiramos nosso conhecimento dos diálogos platônicos) alguma vez partiu de coisas e ações insignificantes, que alguma vez foram a origem a partir da qual ele desenvolveu um questionamento filosófico? Ou, ao abordar atividades mundanas, ele já se movia em um pré-projeto não expresso da natureza da eudemonismo humano? Na sua ótica, mesmo as ações mais insignificantes e indiferentes já não estavam impregnadas pela estrutura da preocupação que o homem tem consigo mesmo? Não eram elas, portanto, guiadas pela ideia inicial de que, em tudo o que podemos fazer, tendemos a uma organização de nossa vida que seja feliz e eficaz? Se o que está em questão no mais profundo da vida humana é a eudemonismo, a influência se faz sentir mesmo nas menores parcelas do trabalho, mesmo quando não percebemos mais esse motivo fundamental, tomados que estamos pela nossa tarefa. O método de Sócrates consistia em fazer com que, em resposta às suas perguntas, seu interlocutor revelasse os motivos ocultos de toda ação, levando-o a representar o sentido da totalidade da existência em todos os momentos isolados da vida. Na verdade, Sócrates, por sua vez, era determinado por um pré-projeto do que era para ele o objeto supremo e mais digno da meditação do homem, ou seja, pelo pré-projeto da virtude entendida como uma organização de vida autêntica, feliz e eficaz. Mas ele primeiro escondia seus desígnios de seu interlocutor e o conduzia, por meio das perguntas da “maieutica”, a uma meditação sobre a arete. É verdade que ele não apresenta seu pré-projeto de forma “dogmática” desde o início; ele o verifica de certa forma através do desvelamento progressivo dos motivos da existência, que se entrelaçam de várias maneiras para se unificarem no objetivo definitivo. No entanto, ele nunca ultrapassa esse pré-projeto. Por outro lado, Platão se eleva acima do projeto socrático, na medida em que transforma em um novo problema, em um problema radical, a diferença sempre utilizada por Sócrates entre as ações (15) singulares mais ou menos boas e o bem em si, entre as atividades virtuosas e a virtude em si. Platão dá a essa diferença um alcance universal, compreendendo-a como diferença entre coisa sensível e ideia. Em nosso contexto atual, essa referência a Sócrates e Platão tem apenas o significado de uma reserva crítica cheia de desconfiança. É difícil confiar nos filósofos quando eles pretendem meditar sobre todas as coisas e questioná-las da mesma maneira, totalmente “sem preconceitos”, tratando da mesma forma a coisa mais insignificante e as coisas supremas. Não são eles, apesar de si mesmos, secretamente cativos de uma avaliação do ser, pré-filosófica e estranha à filosofia? Certamente esse perigo ainda existe. Mas o problema se coloca em um nível mais profundo; reside na própria natureza das coisas ligadas ao mundo, no fato de que, por um lado, elas concordam em sua característica fundamental, que é igualmente válida para todas, no fato de que cada uma delas é um ser, e que, por outro lado, elas diferem umas das outras pelo seu grau de força de ser. Por isso, o critério do que “é mais ser” do summum eus, esse critério em si mesmo vacila e se torna problemático. Talvez seja um preconceito manter-se fiel ao princípio de que todas as coisas são do mesmo nível aos olhos do pensador, assim como, inversamente, pode ser um preconceito manter-se firmemente fiel a uma ordem hierárquica. Os dois aspectos que parecem se excluir pertencem à problemática constituição do ser do ser mundano. Toda hierarquia das coisas pressupõe a igualdade de todos os seres como seres — e, inversamente, as coisas não desaparecem na uniformidade. A diferença e a contradição dominam a unidade do ser em toda a sua extensão universal.