A Questão em Pauta

GADAMER, Hans-Georg. The idea of the good in Platonic-Aristotelian philosophy. New Haven, CT: Yale University Press, 1986.

1. Ao levantar-se um panorama dos últimos cinquenta anos de pesquisa sobre a filosofia antiga — mais de cinquenta anos desde que o livro de Werner Jaeger sobre Aristóteles deu impulsos novos e significativos a esse campo —, cresce o embaraço diante dos resultados dessa pesquisa: prevalecia em Jaeger um esquema simples que delineava o desenvolvimento de Aristóteles de platônico a crítico da doutrina das ideias e, por fim, a empirista, construção cuja validade universal já então se poderia duvidar, ainda que, partindo de interpretação histórico-literária da Metafísica, tenha extrapolado uma linha de desenvolvimento retro e prospectivamente no afastamento aristotélico da doutrina das ideias, podendo-se conceder-lhe ao menos inequivocidade, além de expor a artificialidade da edição até então vigente do corpus aristotélico.

2. Notava-se, mesmo então, que a construção jaegeriana produzia uma “proto-física” de contornos bem menos tangíveis que sua “proto-metafísica”, não sustentada de modo convincente do ponto de vista histórico-literário, dado o estado em que os livros da Física chegaram até nós; sobretudo a pretensão de haver encontrado um “desenvolvimento” na ética aristotélica — que Jaeger, com certa superficialidade drástica, conseguiu encaixar em sua construção valendo-se apenas de partes da Ética a Eudemo — logo encontrou objeções bem fundamentadas, revelando-se especialmente problemático o posicionamento do Protréptico nesse contexto; dispõe-se hoje, para comparação, do trabalho de J. Düring, sendo fato estabelecido que, em toda a obra tradicionalmente atribuída a Aristóteles, jamais se retorna a um ponto em que não fosse crítico da doutrina platônica das ideias, mas tampouco se chega a um ponto em que tenha deixado de ser, realmente, platônico — ficando, a partir desse fato, novamente em aberto o que significava, afinal, ser “platônico”.

3. Sendo inevitável que essa dificuldade em relação a Aristóteles reflita reciprocamente sobre a compreensão de Platão, desvanecida a confiança em discernir fases de desenvolvimento em Aristóteles, impõe-se a questão de saber se o mesmo não vale para Platão: haverá fundamento suficiente para a visão histórico-genética predominante de seus escritos? Supõe-se hoje, dominantemente, que a doutrina dogmática das ideias — que Platão teria ensinado no início e que, com tonalidades neoplatônicas, moldou a compreensão da filosofia platônica como teoria dos dois mundos — teria sido posteriormente retratada, ou ao menos diluída, pelo próprio Platão em autocrítica e revisão de seus ensinamentos, aferrando-se ainda hoje muitos estudiosos à crença de que o Parmênides testemunharia tal autocrítica.

4. É quase fatal para essa teoria, contudo, que a tradição antiga jamais relate tal mudança de opinião nem em Platão nem em Aristóteles — à exceção de uma única observação em Metafísica Mu 4, 1078b10, que faz a teoria dos números parecer forma tardia da doutrina das ideias —, citando Aristóteles o Fédon com a mesma prontidão com que cita o Parmênides ou o Timeu, sem parecer ter notado que o próprio Platão houvesse alguma vez posto em questão sua doutrina dogmática das ideias.

5. O quadro piora ainda mais quanto ao “desenvolvimento” na ética aristotélica: a presumida evolução de uma “política das ideias” (no Protréptico), passando por um ainda hesitante distanciamento de Platão na Ética a Eudemo, até a posição “madura” e autoconfiante da Ética a Nicômaco, constitui construção arbitrária e contraditória de Jaeger, particularmente pouco convincente ao confrontar-se com os diálogos tardios de Platão, pois o Filebo e o diálogo sobre o estadista estariam tão à frente dos supostos começos platonizantes da ética aristotélica que se pode perguntar propriamente quem critica quem — começando assim a desmoronar lentamente o esquema desenvolvimentista: postulação das ideias em si mesmas, depois participação das aparências nas ideias, depois dialética de ideia e aparência, e, por fim, a equiparação entre ideia e número.

6. Questiona-se se Platão realmente subestimou de início o problema da participação das aparências nas ideias, se ensinou que as ideias eram em si mesmas até reconhecer, um dia, que o problema da participação implicado nessa postulação de ideias em si mesmas era de todo insolúvel — ou se ambas as postulações pertencem juntas desde o início: o serem-em-si das ideias, o chamado chorismos (separação), e a dificuldade a que por isso se está exposto quanto à participação, ou methexis.

7. É notável, em todo caso, ser extremamente livre, ao longo dos diálogos, a terminologia usada para a relação entre ideia e aparência: parousia (presença), symploke (entrelaçamento), koinonia (acoplamento), methexis (participação), mimesis (imitação) e mixis (mistura) encontram-se lado a lado, sendo methexis, dentre essas expressões, singularizado tanto pelo Parmênides quanto pela crítica aristotélica.

8. Com essa nova palavra pretende-se destacar a conexão lógica dos muitos com o uno, a coisa “em comum”, conexão não implicada na mimesis nem na relação pitagórica de número e ser concebida como “aproximação [do número] ao ser” (J. Klein), devendo-se ainda, atendendo ao conjunto de sinônimos platônicos, tomar tanto methexis quanto mimesis mais “objetivamente” — não como “atos” de subjetividade, nossos modos de conceber as coisas, mas como relações reais.

9. Está-se, contudo, plenamente consciente do paradoxo de uma participação ou Teilhabe que não toma uma parte, mas participa do todo — como o dia participa da luz do sol —, mostrando-o o uso dessa mesma imagem no Parmênides e confirmando-o indiretamente o conjunto de sinônimos acima listado; a aporia (problema impenetrável) do todo e das partes, como já se demonstrou alhures, sempre espreita por trás da dialética de ideia e aparência, unidade e multiplicidade.

10. O relato aristotélico implica, contudo, algo mais, que oculta: a mudança de mimesis para methexis não é a inofensiva variação terminológica que soa em Aristóteles, refletindo antes o giro decisivo que Platão realiza — sua distinção entre aisthesis (percepção) e noesis (intelecção) —, isto é, o passo rumo à primeira autocompreensão da matemática como ciência “eidética”.

11. Sendo esse o caso, mimesis torna-se expressão inadequada, embora continue fazendo sentido de modo metafórico ao descrever-se o mundo das aparências como mimesis de relações matemáticas puras, isto é, como meras aproximações, permanecendo assim possível usar a expressão mimesis, junto ao par cópia/paradigma, do Fédon ao Timeu.

12. Isso talvez não diga muito, mas cabe perguntar que relação tem com a relação dos muitos com o uno, isto é, com a participação na ideia, questão levantada pelo Filebo, sendo, qualquer que seja sua solução, descartada uma concepção dogmaticamente rígida do chorismos pelo fato de “os muitos”, que não são ser mas genesis (vir-a-ser), pertencerem ao ser como partes e membros — o que não impede a dialética holon-meros (todo-parte) de desempenhar papel importante alhures em Platão, no Sofista e no Parmênides além do Filebo, servindo-se dessa dialética para desnudar a multiplicidade no logos do ser (a enunciação daquilo que uma coisa “é”).

13. A julgar pelos relatos antigos sobre os discípulos de Platão, a mesma liberalidade na interpretação da relação entre ideia e aparência parece ter prevalecido em sua escola, sabendo-se, por Alexandre, que Êudoxo ensinava explicitamente serem as ideias imanentes às aparências, usando para tanto o conceito de mixis (mistura), também frequente nos próprios diálogos platônicos.

14. Comparando-se Aristóteles com os ensinamentos de pensadores gregos anteriores ou posteriores, não se pode duvidar de que, no conjunto, deve ser contado entre os filósofos do eidos (forma) que Platão fundou ao introduzir as ideias e a dialética, não deixando o próprio Aristóteles dúvida a esse respeito: em sua análise crítica na Metafísica, Alfa, reconhece que pitagóricos e Platão foram os primeiros a ir além do esquema explicativo dos “físicos” — hyle (matéria) e hothen he kinesis (de onde vem o movimento) —, concedendo-lhes o conceito do ti estin (o que algo é) (para os pitagóricos, 987a20; para Platão, 988a10 e, sobretudo, 988a35).

15. Utilizando-se aqui os conceitos das (contestadas) Categorias, apoia-se essencialmente não só nelas, mas igualmente nos livros centrais da Metafísica, particularmente Zeta 6, sendo evidente não haver, aos olhos de Aristóteles, contradição entre isso e sua demarcação crítica frente a Platão, sendo o problema comum, básico a ambas as investigações, o de como é possível o logos ousias (a enunciação do ser, do que uma coisa é).

16. Questiona-se, então, o que pretende afinal significar a objeção estereotipada aristotélica de que Platão teria hipostasiado o universal, sua objeção do “chorismos”: aplica-se ela realmente a Platão? O que pretenderia exprimir, em Platão, o ser-em-si das ideias? Implicaria realmente a abertura de um segundo mundo, supostamente separado do mundo das aparências por hiato ontológico?

17. Basta ter em mente o que Platão visava e a motivação histórica que o levou a realizar essa separação entre ideias e aparências: diante de si estava toda a extensão das ciências matemáticas, não havendo melhor caracterização do fato de que a geometria euclidiana se refere a relações espaciais puras — e não às imagens sensíveis de um círculo ou triângulo que desenhamos como ilustração — que sua exigência de que os construtos matemáticos sejam separados do mundo sensível.

18. Coisas semelhantes valem para os fenômenos morais: a distinção entre a justiça mesma e o que é considerado (dokei) justo está longe de ser abstração conceitual vazia, constituindo antes a verdade da própria consciência prática, tal como Platão a viu graficamente diante de seus olhos na figura de Sócrates — o comportamento humano verdadeiro e justo não pode basear-se nos conceitos e padrões convencionais a que se apega a opinião pública, devendo antes tomar como padrão apenas normas que transcendem toda questão de aceitação pública, e mesmo a questão de se podem ser, ou são alguma vez, plenamente realizadas, apresentando-se assim à consciência moral como incontestável e imutavelmente verdadeiras e certas.

19. E, finalmente, ao aventurar-se por todo o vasto mar do que dizemos e buscar orientação fixa em meio às oscilações do falar e do refletir — em meio à própria instabilidade, em outras palavras, cultivada precisamente nessa época na nova arte de falar e argumentar que Platão deprecia como sofisma —, apenas o divórcio entre o modo ilusório como um argumento soa e seu sentido real, entre a aparente força cogente do dito e a lógica consequente inerente à matéria, pode fornecer essa orientação.

20. O chorismos não é doutrina a ser primeiramente superada, mas, do início ao fim, componente essencial da verdadeira dialética, não devendo, portanto, ser avançada como evidência contra o chorismos, nem constituindo remédio para ele.

21. A investigação seguinte concentra-se no problema da ideia do bem, que não é apenas mais uma ideia entre as demais, ocupando, também para Platão, lugar preeminente, buscando-se elaborar seu estatuto especial e lançar nova luz sobre sua importância para o problema fundamental do platonismo — que é igualmente o problema fundamental em Aristóteles: o papel das entidades eidéticas, ou formas.

22. A questão sobre o bem e, em particular, sobre o bem no sentido de arete, a “excelência” do cidadão da polis, domina os escritos platônicos desde o início, e, mesmo deixando-se de lado o consenso hoje alcançado quanto à cronologia geral dos diálogos, não há dúvida de que a doutrina das ideias não ocorre neles do mesmo modo do princípio ao fim, sem que isso signifique que Platão tenha chegado a essa teoria apenas mais tarde, sendo tempo de finalmente abandonar tal ordenação cronológica ingênua da ficção dialógica platônica, que ao fim equivalia a um verdadeiro jogo de vaivém entre uma base e outra, buscando-se em seu lugar semelhanças estruturais entre grupos de diálogos, de modo a esclarecer tanto as intenções autorais de Platão quanto o conteúdo implícito dos diálogos.

23. Distinguem-se, consequentemente, diferentes tipos de diálogo na obra platônica, a partir dos quais se poderá estabelecer uma cronologia estrutural: os diálogos “aporéticos”, em que Sócrates refuta seus interlocutores sem finalmente responder à questão posta, representam um tipo claramente definido de discussão socrática.

24. Em contraste, a abrangência da questão posta na República parece destinada a contrapor-se à convencionalidade das concepções de arete encontradas nas discussões anteriores, indagando-se aí sobre a sympasa arete (virtude total abrangente) e a dikaiosyne (justiça), e, portanto, sobre todas as aretai (virtudes), introduzindo-se ao final a ideia do bem “além” de todas essas.

25. A noção-chave no que geralmente se aceita como saber é a techne (arte), o que vale também, evidentemente, para Platão: assim, na Apologia, Sócrates encontra ao menos entre os artesãos saber real das coisas específicas de que tratam, embora, como outros homens “sábios”, também os artesãos falhem quando o que está em jogo são as coisas mais importantes de todas (ta megista) (Apologia 22d), em vista das quais tende, em última instância, toda vontade humana de saber.

26. Que o bem só possa ser avistado nesse apoblepein pros — esse olhar para ele, vendo além de tudo o mais — não é apenas sugerido pelo resultado negativo das discussões socráticas, mas afirmado explicitamente no primeiro diálogo em que a aceitação das ideias é de fato proposta, o Fédon, que assim se coloca como o notável elo entre os diálogos elênticos ou refutacionais, atribuíveis ao Platão inicial, e a obra sobre o Estado ideal.

27. Destaca-se o Fédon como o diálogo em que se introduz primeiramente a doutrina das ideias, tendo a escola de Marburg valido-se particularmente da introdução platônica do eidos como melhor “hipótese” para uma assimilação um tanto forçada de Platão a Kant.

28. Essa interpretação soa hoje como falso modernismo; olhando-se, em vez disso, o Fédon como etapa intermediária a caminho da ideia do bem, emerge outro paralelo estrutural: também o Fédon é diálogo repleto de refutações, representando seus interlocutores, a seu próprio modo, posição a ser levada a sério, ainda que a defendam apenas pela metade — o materialismo “cientificamente” fundado.

29. Aristóteles apresenta Platão precisamente como pitagórico (Metafísica, Alfa 6), mas não é apenas em retrospecto aristotélico que se torna claro estarem esses pitagóricos do Fédon, em certo sentido, muito próximos do pensamento platônico: quanto mais se penetra nos problemas cercando o desenvolvimento platônico de uma doutrina de uma arche — problemas que aparecem primeiro nos diálogos tardios, particularmente no Filebo —, mais evidente se torna que a posição pitagórica representa o real elo entre os problemas insolúveis exibidos nessa nova paideia baseada em techne e a dialética posterior.

30. Não é de todo excessivo ver, nos manuais aristotélicos, a execução precisamente desse projeto, particularmente na Física e na Política, que contém sua ética, tendo-se aqui um ideal de ciência que claramente não impediu o nascimento e o surpreendente desenvolvimento das ciências especializadas helenísticas.

31. Nota-se, como ponto ao qual frequentemente se retorna, que para Platão e Aristóteles o bem podia funcionar simultaneamente como conceito ontológico-teórico e prático, permanecendo esses dois âmbitos contínuos: como o Fédon esclarece, os processos naturais deviam ser apreendidos teoricamente como propositivos, tendentes ao que é bom, meramente estendendo a teleologia aristotélica esse modo de pensar, ocorrendo, consequentemente, tanto em Platão quanto em Aristóteles, a prática humana — fazer escolhas em vista do que é bom, melhor ou o melhor — dentro do cenário do cosmos, levando a ciência moderna, ao rejeitar a teleologia como antropomorfismo, à cisão entre ciência teórica e prática, entre razão teórica e razão prática, rebelando-se naturalmente a razão como tal, que busca unidade em seus empreendimentos, uma vez ocorrida essa cisão.

32. A ideia do bem assume, nesse sentido, significação especial dentro da nova orientação noética platônica: a República concentra-se nela, fornecendo a base para determinar a ordem da polis e da psyche, contentando-se os interlocutores de Sócrates se este falasse do bem do mesmo modo como falara antes de dikaiosyne (justiça) e sophrosyne (temperança) (República 506d).

33. Que Platão use apenas a palavra idea, e nunca eidos, para o agathon, relaciona-se certamente com essa transcendência, sem que se negue serem essas palavras, idea e eidos, intercambiáveis no grego da época e no uso linguístico dos filósofos.

34. Na República, em todo caso, Sócrates trata a ideia do bem como algo difícil de apreender, observável apenas em seus efeitos: como o sol, que, concedendo calor e luz, dá a tudo o que é visível seu ser e sua perceptibilidade, o bem está presente apenas nos dons que confere, gnosis kai aletheia, insight e verdade.

35. Parece haver modo simples de explicar esse estatuto privilegiado e essa incompreensibilidade da ideia do bem, que a distingue das demais ideias: sendo precisamente o que vem “primeiro” (to proton), estaria removida de qualquer derivação, sendo o que mais tarde se chamaria de princípio, solução geralmente adotada desde Aristóteles, o primeiro a introduzir o conceito de arche (princípio primeiro).

36. Vem à luz corroboração convincente desse ponto no Filebo, onde, é certo, a preocupação inicial não é a ideia do bem, mas a questão do bem na vida humana, embora, ao fim, todo falar sobre a ideia universal do bem sempre tome como ponto de partida essa questão humana: o que é o bem para nós? — emergindo isso claramente no autorretrato de Sócrates no Fédon.

37. Esse deslocamento torna tema a prática humana, podendo colocar-se ao lado dessa consideração do prático uma física, à qual o Filebo também dá indicações preliminares e sobre a qual discorre a narrativa mítica do Timeu, dirigindo-se ambos os diálogos ao domínio da genesis (vir-a-ser), de modo que contrasta fundamentalmente com a separação estrita platônica entre ser e devir.

38. A relação entre ambos ganha foco ainda mais nítido no Filebo do que na matemática celestial ideal e na física terrestre do Timeu: nele, a ideia do bem tem precisamente a função de fornecer orientação prática para a vida reta e justa, na medida em que essa vida é mistura de prazer e saber, e na medida em que essa mistura, descrita ao final, é explicitamente dita regulada pela ideia de medida, mensuração, racionalidade — ou qualquer outro nome que se dê a todas as determinações estruturais do belo, em cujas aparências apenas o bem mesmo há de ser apreendido.