Platão de Heidegger

Andrew Fuyarchuk. Gadamer’s Path to Plato. A Response to Heidegger and a Rejoinder by Stanley Rosen. Eugene: Wipf & Stock, 2010

1. Platão I: Metafísica (1909–1920)

1. A relação inicial de Heidegger com a teoria platônica do Ser que transcende os entes foi ambivalente, pois, desde o início de seu desenvolvimento filosófico, ele buscou descobrir um sentido de significado intrínseco a um dado estado de coisas, em vez de recorrer a um fundamento de significado independente da coesão da vida cotidiana, sendo a metafísica, segundo sua compreensão inicial, uma linguagem sobre a realidade que, a exemplo das hipóteses (Hypothesen) científicas, não possui maior domínio sobre a verdade do que a linguagem falada por cientistas e epistemólogos.

2. Aristóteles e Desconstrução (1920–1928)

2. Na década de 1920, a relação de Heidegger com a filosofia grega sofreu uma mudança dramática em relação a Aristóteles, mas não a Platão, cujos ideais metafísicos permaneceram um obstáculo, enquanto Heidegger desenvolvia seu método de “destruição fenomenológica” (phänomenologische Destruktion) para desenterrar a situação motivadora original a partir da qual as experiências básicas da filosofia surgiram.

3. Platão II: Platonismo (1929–1935)

3. Do final dos anos 1920 ao início dos anos 1930, Heidegger passou a pensar a ideia platônica do Bem nos mesmos termos de qualquer outra ideia da consciência humana, alinhando Platão com a história da Cristandade e, após a Segunda Guerra Mundial, com a tecnologia do século XX, responsabilizando-o por transformar a experiência grega primitiva da verdade (aletheia) e do Ser (physis) em correção da representação e ideia, respectivamente, fundando assim a tradição metafísica ocidental e o esquecimento do sentido do Ser.

4. Platão III: Apropriação de Platão

4. Apesar de Heidegger insistir em uma ruptura histórica entre os pré-socráticos e Platão, sua relação com o passado não é unívoca, e ele também se apropria positivamente da tradição, revisitando a filosofia de Platão e modificando suas interpretações, o que revela que seu conceito de fim da filosofia inclui uma repetição original da história da filosofia da qual novas possibilidades de pensamento são descobertas.

Conclusão

5. A relação de Heidegger com Platão tem dois lados que coincidem com as condições da vida fáctica – lembrar e esquecer –, de modo que algo positivo da filosofia de Platão é revelado no próprio ato de criticá-la, sendo a relação entre eles dialética, embora a imagem de Platão que foi legada à história da filosofia seja, em grande parte, aquela alimentada pela invectiva de Lutero contra a razão, pela crítica de Aristóteles a Platão e pela fenomenologia de Husserl, tendo Nietzsche como catalisador para o foco em uma relação não dialética.