4 Fala

GADAMER, Hans-Georg. Plato’s dialectical ethics: phenomenological interpretations relating to the Philebus. New Haven , Conn.: Yale Univ. Pr, 1991.

Sobre a Dialética de Platão

Parte I: A Conversação e o Modo Como Chegamos a uma Compreensão Compartilhada

Seção 4: Formas Degeneradas de Fala

1. A pretensão ao saber confirma-se pela chegada a um entendimento compartilhado, sendo o acordo do outro o teste de se o logos oferecido é realmente capaz de expor a coisa em questão de modo convincente, encontrando-se aqui, contudo, possibilidade específica de inautenticidade a que a fala, como possibilidade da existência humana, está sujeita.

2. Caracteriza-se repetidamente o espírito “substantivo” (voltado à coisa em questão) da busca dialógica de entendimento compartilhado, atribuindo-se as mesmas características distintivas à conduta conversacional socrática, à platônica tardia (Sofista, Leis) e à acadêmica (Carta Sétima), resumíveis, uniformemente, na exclusão do phthonos — que designa a preocupação de estar à frente dos outros ou de não ficar atrás deles.

3. As formas degeneradas de fala, contrastantes com a espécie anteriormente discutida, distinguem-se fundamentalmente por não embotarem a pretensão de chegar a um entendimento sobre a coisa em questão (embotamento operado pela autorreflexão), mas por usarem a aparência de fazer tal pretensão como meio de distinguir o próprio falante dos demais — sendo tal confiança grega no poder da fala e na possibilidade de acordo através dela tão intensa que somente essas formas degeneradas exerceram influência entre eles.

4. A pretensão ao saber estabelece-se pela disposição sobre o logos mais forte, “força” devida à impossibilidade de o logos fracassar, à impossibilidade de contradizê-lo, sendo nesse sentido forte todo logos que aspira a ser saber, na medida em que é irrefutável — “força”, assim vista, sendo simples expressão da adequação do dito à coisa em questão, efeito colateral do esforço de tornar o que se diz adequado à coisa, não algo buscado por si mesmo.

5. Ao fazer discursos, dirige-se-se desde o início não a um indivíduo, com quem se poderia buscar um entendimento compartilhado substantivo, mas a uma multidão, com a qual tal entendimento é impossível, nem que seja porque a multidão não pode responder, sendo o discurso, consequentemente, em vez de exibição puramente substantiva de algo, um processo de persuasão.

6. Esse tipo insubstancial de fala, voltado a mostrar-se conhecedor irrefutável, tem contrapartida na refutação alheia pela refutação em si mesma, servindo aqui também a fala ao propósito — por meio da capacidade de refutar — de conferir aparência de saber, não pela reivindicação imediata de superioridade própria, mas, inversamente, pela demonstração da inferioridade alheia.