GADAMER, Hans-Georg. Plato’s dialectical ethics: phenomenological interpretations relating to the Philebus. New Haven , Conn.: Yale Univ. Pr, 1991.
Prefácio à Primeira Edição (1931)
1. Adverte-se que os dois capítulos do livro não formam um todo, não devendo o título iludir quanto a isso: em vez de prometer resposta, formula-se a questão de em que sentido a dialética platônica coloca, e pode em geral colocar, o problema da ética, não se afirmando que a “ética” platônica seja dialética, mas antes indagando-se se e de que modo a dialética platônica é “ética”, questão que orienta a interpretação do Filebo empreendida no segundo capítulo, para a qual o primeiro capítulo procura demonstrar que a teoria da dialética, em Platão, é a teoria da possibilidade objetiva do diálogo.
2. Define-se a tarefa como a de trazer novamente à vista as coisas mesmas discutidas por Platão, de modo que, por sua explicitação conceitual, se destaque o horizonte de seu filosofar, tarefa limitada a disponibilizar, para a pesquisa histórica sobre Platão, um modo de compreensão revigorado pelo contato com a coisa em questão, reconhecendo-se que essa tentativa de revigoramento foi empreendida de modo bastante parcial e nem sempre bem-sucedida, sendo que, quanto mais próximas do texto platônico as interpretações permanecem, mais se afastam da tarefa de abrir caminho até ele, e, inversamente, quanto mais se distanciam do mundo da linguagem e do pensamento platônicos, mais parecem cumprir essa tarefa.
3. Justifica-se a seleção frugal de passagens citadas como evidência pelo fato de que as interpretações propostas visam persuadir não pela rica confirmação textual explícita, mas por sua utilidade para a interpretação de Platão, pressupondo-se um leitor já “familiarizado” com o autor, ressalvando-se que o segundo capítulo exige referência contínua ao texto do Filebo, e que a ausência de uma explicitação uniformemente minuciosa dos detalhes decorre do propósito de carregar o mínimo possível do fardo daquilo que há muito já é sabido.
4. Reconhece-se referência apenas ocasional à literatura recente sobre Platão, malgrado esta determine em larga medida o que é enfatizado na interpretação, tornando-se por vezes explícita a relação contínua com as leituras de Natorp e Stenzel e com a pesquisa sobre Aristóteles de Jaeger e seus discípulos, informando-se que, concluído o trabalho na primavera de 1928 e submetido como Habilitationsschrift à Faculdade de Filosofia de Marburg, a literatura publicada posteriormente não foi considerada, ou apenas o foi em notas complementares, remetendo-se a discussão detalhada das bases metodológicas dos livros recentes de Friedländer, Reinhardt, Singer e Stenzel a uma resenha a publicar-se na revista Logos, sendo apenas o método de Friedländer já conhecido antes da publicação de sua obra.
5. Reconhece-se a dívida para com o ensino e a pesquisa de Martin Heidegger, revelada tanto em referências explícitas e tácitas a Ser e Tempo quanto, mais ainda, na atitude metodológica geral do trabalho, que busca estender o que dele se aprendeu e, sobretudo, torná-lo fecundo mediante uma prática renovada, agradecendo-se, por fim, à Associação de Emergência da Ciência Alemã (Notgemeinschaft der deutschen Wissenschaft) pela bolsa de pesquisa e pelo apoio à publicação do livro.
Do Prefácio à Segunda Edição (1967)
6. Relata-se a longa hesitação em reeditar o livro sobre Platão de 1931, esgotado havia muito, tendo-se preferido inicialmente fundir seus resultados com as interpretações mais intensivas de Platão empreendidas ao longo de anos, projeto ainda por apresentar em forma de livro, mas cedendo-se, ante a alarmante aceleração dos últimos anos, à necessidade de não mais adiar a reedição, desculpando-se a permanência inalterada do texto de 1931 pela modéstia de sua ambição original: aplicar a arte da descrição fenomenológica, recém-aprendida, a um diálogo platônico, sem que os resultados relevantes obtidos para as questões centrais da dialética platônica autorizassem a pretensão de tê-las tratado adequadamente, mesmo dentro dos limites da interpretação do Filebo.
7. Relata-se a continuidade dos estudos platônicos ao longo dos anos 1930, auxiliados pelos trabalhos de Jakob Klein e Helmut Kuhn, por um estudo mais cuidadoso da bibliografia inglesa, e posteriormente pelas obras de Gerhard Krüger, de Heidegger (A Doutrina Platônica da Verdade, 1947) e de Szilasi, contribuindo sobretudo o aprofundamento no conhecimento de Hegel para tornar mais nítida, a partir de Aristóteles, a importância do relato aristotélico sobre Platão, a posição central da doutrina dos dois princípios na filosofia platônica e a função do número como modelo dessa filosofia.
8. Anuncia-se, para indicar a direção em que se desejaria hoje aperfeiçoar o ensaio de 1931, o acréscimo à nova edição de dois ensaios mais antigos que estendem o livro original em direções particulares e de dois estudos mais recentes, com o propósito de situar o leitor de modo a fazer uso proveitoso, dentro de seus limites, desse trabalho de principiante, ressaltando-se que as interpretações de Platão buscam demonstrar que, na única e ainda insuficientemente apreciada harmonia entre logos e ergon que distingue os diálogos, encontra-se muito mais da filosofia platônica do que em todo o testemunho posterior, embora, sem este último — e sobretudo sem o de Aristóteles —, dificilmente se pudesse recolher dos diálogos as intenções filosóficas últimas de Platão.
Do Prefácio à Reimpressão de 1982 da Primeira Edição
9. Relata-se que, ante as contínuas solicitações por um livro já com mais de meio século, cuja segunda edição ampliada de 1968 também se esgotara, a editora propôs nova reimpressão, tornando-se então necessário justificar por que os ensaios acrescidos à segunda edição não foram retirados do trabalho coletivo mais amplo sobre Platão, cujos fundamentos, dispersos sobretudo nos Anais da Academia de Ciências de Heidelberg, já se haviam acumulado desde a aposentadoria em 1968, permanecendo o livro original, ainda assim, inteiramente autônomo frente a esse projeto maior.
10. Caracteriza-se o livro, como todo primeiro trabalho, um primeiro passo num campo cujas dimensões ainda não eram claras a seu jovem autor, adquirindo caráter próprio precisamente por buscar, com consciente unilateralidade, destacar-se dos padrões recomendados por predecessores e mestres — Natorp, Hartmann, Stenzel, Jaeger, Reinhardt, Friedländer —, sem a eles se vincular expressamente, sentindo-se antes como um primeiro leitor de Platão a experimentar sobre um texto clássico a nova imediaticidade de acesso pensante “às coisas mesmas”, lema da fenomenologia husserliana, ousadia devida sobretudo à influência profunda e decisiva do ensino de Heidegger durante os anos em Marburg, cuja força e radicalismo questionador, herdeiros da fenomenologia, cultivavam uma arte descritiva devotada aos fenômenos em sua concretude, evitando tanto os ares eruditos da fraternidade científica quanto, na medida do possível, a terminologia técnica tradicional, fazendo com que as coisas quase se impusessem por si mesmas — indagando-se, assim, se não seria possível ver com olhos novos a filosofia grega, Aristóteles e Platão, tal como Heidegger fizera em suas lições sobre Aristóteles, apresentando um Aristóteles inteiramente incomum, no qual se redescobriam as próprias questões contemporâneas em forma surpreendentemente concreta.
11. Critica-se, nesse contexto, a filologia clássica da época, aprendida sob a orientação de Friedländer, por ter alcançado tal refinamento do senso histórico que, na escola berlinense de Jaeger, numerosos conceitos da ética e da retórica aristotélicas passaram a figurar cada vez mais sem tradução nas discussões acadêmicas, como se a mera transposição garantisse por si só adequação histórica, questionando-se se isso não implicava evasão da verdadeira tarefa de exprimir, com os próprios recursos linguísticos e seu potencial conceitual, o modo como, no pensamento grego, as coisas mesmas se apresentavam — tentando-se, por isso, deixar de lado todo o saber erudito e partir dos fenômenos tal como se mostram.
12. Reconhece-se, passados quinze anos desde a segunda edição (1967), a impossibilidade de contestar a prioridade dos diálogos platônicos sobreviventes frente à tradição indireta, sendo pobres leitores de Platão aqueles que não se deixassem conduzir por seus diálogos às coisas mesmas, em vez de tomá-los como mero material para reconstruir a doutrina dos princípios, questionando-se qual seria o termo platônico correspondente ao que Aristóteles chamou de “princípio” (arche), observando-se que até Porfírio, que ainda dispunha de cópia das lições sobre o Bem na origem da tradição indireta, reconheceu não tê-las podido compreender sem o auxílio do Filebo.
13. Reconhece-se, todavia, nessa mesma observação de Porfírio, a unilateralidade do esforço juvenil quanto à interpretação das partes pertinentes do Filebo, uma vez que o segundo capítulo do livro apenas reproduz, numa espécie de transcrição fenomenológica, o curso da discussão do diálogo, permanecendo válido quanto à proximidade textual e à convergência entre descrição fenomenológica e interpretação textual, mesmo onde se aprendeu depois a extrair conclusões adicionais da observação textual — por exemplo, quanto à reformulação das “causas” pitagóricas, o ilimitado e o limite, numa trindade e numa quaternidade de “causas” —, sem que, contudo, se tivesse então alcançado explicar o diálogo em sua posição no conjunto da obra platônica, nomeadamente seu paralelismo com o Timeu, isto é, a correspondência entre o discurso sobre a ética e o discurso sobre a física, limitação fenomenológica própria desse primeiro trabalho acadêmico, destinado apenas a demonstrar o domínio adquirido das ferramentas do ofício fenomenológico.
14. Reconhece-se, em contrapartida, que o primeiro capítulo, ao esclarecer por meios igualmente fenomenológicos a conexão entre o diálogo socrático e a dialética platônica, esboça em larga medida o conjunto das investigações posteriores sobre Platão, inclusive as ainda por publicar, reconhecendo-se plenamente a primazia metodológica que a arte conceitual aristotélica possui para a interpretação de Platão, mas conduzindo a interpretação fenomenológica cada vez mais a um insight hermenêutico importante: que criações literárias, obras de arte como os diálogos platônicos, de um lado, e escritos de trabalho como os textos reunidos no corpus aristotelicum, de outro, não podem ser medidos pelo mesmo padrão nem relacionados entre si sem que se tomem precauções hermenêuticas.
15. Conclui-se que os dois capítulos desse primeiro livro ainda podem ensinar duas coisas: primeiro, que a fenomenologia é menos algo de que se fala — o que ocorre em excesso hoje em dia — do que algo que se pratica e se adquire como ofício — o que decerto ocorre de modo insuficiente —; e, segundo, que, ao tratar de textos filosóficos, jamais se pode dispensar a reflexão hermenêutica, que ensina a ouvir o que as mais diversas formas do discurso filosófico — diálogo e dialética, mito e logos, arte da dramatização e esforço do conceito — têm a dizer, incluindo-se nessa lição, em sua mais ampla extensão, o ensinamento do Romantismo alemão: que, embora não se devam confundir as revelações da arte com os resultados do pensamento filosófico, deve-se continuamente medir uma pelo outro, esfregando-os um contra o outro até que saltem faíscas — sem pretender-se ter então atendido plenamente a essas duas lições, mas reconhecendo-se tê-lo tentado, e que representam algo de que nenhum pensador pode se libertar; permanecendo, por fim, ainda insuficientemente esclarecido o que seja a prestação de contas socrático-platônica e em que medida seria possível, a partir do pensamento moderno, a ela se aproximar sem incorrer nos procedimentos unilaterais da modernidade, isto é, sem confundir a autoconsciência com autoafirmação e sem reduzir a compreensão de algo ao cálculo e ao domínio disponente sobre ela.