Imortalidade no Fédon

GADAMER, H.-G. Dialogue and Dialectic: eight hermeneutical studies on Plato. New Haven: Yale Univ. Pr, 1980.

1. O Fédon deve ser considerado uma das obras mais admiráveis e significativas de toda a filosofia grega, sobretudo por ser ali que Sócrates fala das expectativas sobre a morte e o além-túmulo no último dia de sua vida, sendo equivocada, ainda que produtiva no século XVIII, a ideia de que as provas socráticas da imortalidade prefigurariam de modo pagão a superação cristã da morte, pois o que Platão de fato levanta é a questão do que pode ser salvo da antiga tradição religiosa numa época em que a explicação científica da natureza e a lógica começam a se impor.

2. Não se deve perder de vista o caráter mimético dos diálogos platônicos, tratando-se de apresentação poética de uma discussão humana, e não de texto a ser medido por critério unilateral de consistência lógica, pressupondo-se que as provas da imortalidade da alma têm algo profundamente insatisfatório, sendo o poder de convencimento poético do Fédon mais forte que o poder lógico de prova de seus argumentos, tal como Nietzsche observou ao apontar Sócrates moribundo como novo ideal da juventude grega em lugar de Aquiles.

3. O cenário ficcional escolhido para a discussão do Fédon merece atenção, pois os dois amigos “pitagóricos”, Símias e Cebes, não representam grupo religioso algum, mas antes aquele tipo de investigação matemática, teoria musical e conhecimento cosmológico com raízes pitagóricas, familiarizados também com a ciência natural, a biologia e a medicina de seu tempo, ao contrário do Sócrates da Apologia, que se restringe aos problemas morais e ao autoconhecimento, revelando-se aqui o propósito platônico de unir a introspecção moral socrática ao saber científico representado pelos pitagóricos.

4. A troca efetiva se acende por um problema religioso específico, o suicídio, forma de autoaniquilação expressamente proibida pelo pitagorismo, momento em que Sócrates assume a condução da discussão a partir de sua posição sentada.

5. Tudo isso contrasta com a ênfase inicial que caracteriza a atividade de Sócrates como obra quase divina, sucessor de Apolo, e embora ele justifique sua disposição para morrer valendo-se da ideia de purificação da alma, a antiga concepção pitagórica de pureza cede lugar, nele, a uma nova, já não identificada com ritos cultuais prescritos, mas com a nova consciência de si própria da vida do filósofo dedicado ao pensar, reformulação prontamente aceita pelos pitagóricos, pois o “pensar puro” caracteriza justamente a matemática central para essa geração pitagórica.

6. Coerente com a atitude “deste mundo” desses homens é o materialismo grosseiro que professam, opondo-se à religião homérica ao pensar a morte como dissolução total da alma humana (70a), dando a essas dúvidas modernas sobre o além e a imortalidade o tema efetivo da discussão, dividida em duas partes: uma primeira série de três provas, à última das quais Sócrates acrescenta uma exortação moral impressionante, e uma segunda etapa, marcada por novas objeções, que aprofunda a discussão.

7. A primeira prova, fundada nos ciclos universais da natureza e no equilíbrio neles vigente, recorre à antiga doutrina jônica dos opostos que servira de esquema à filosofia pitagórica da natureza, mostrando-se manifestamente inadequada ao que deveria provar, quase como se Platão quisesse expor deliberadamente ao leitor essa inadequação.

8. Tampouco a prova da anamnese, cujo intento é mostrar o conhecimento prévio, numa vida anterior, das essências verdadeiras (ideias), basta para afastar a incerteza sobre a vida após a morte, embora seja exemplo magistral da capacidade platônica de analisar e esclarecer simultaneamente, tornando-se sua insuficiência evidente quando os pitagóricos a tratam como apenas meia prova, deixando em aberto a questão da sobrevivência da alma (77a,c), e a proposta socrática de combinar as duas primeiras provas apenas sublinha essa limitação, pois “alma” significa, em cada uma, algo diferente, não pensando os pitagóricos em termos da alma socrática que se autoconhece.

9. As limitações do ponto de vista pitagórico se expõem indiretamente quando Sócrates sugere que ambos ainda possam ter o medo infantil de que a alma simplesmente se dissipe na morte (77d), apelando justamente a eles como especialmente qualificados para segui-lo, sinal de que os versados em ciência matemática dispõem da capacidade requerida do pensar “puro”, voltado a uma ordem de realidade distinta da dada pela experiência sensível, capacidade já sugerida na prova da anamnese e que valera a Sócrates a adesão entusiástica de Símias, preparando o terreno para a terceira prova, centrada na distinção ontológica, conhecida dos matemáticos, entre realidade visível e invisível.

10. Sócrates não poupa seus interlocutores: ao oferecer a síntese das duas primeiras provas como complemento que manifestamente não satisfaz às exigências lógicas, devolve-os ao nível do dogma do homem comum, que teme a morte como dissolução de si mesmo, indicando que ainda não apreenderam o sentido de psyche elaborado na doutrina da recordação.

11. Esse propósito concorda com o pensamento pré-socrático, mas não assegura que o conceito próprio de psyche pretendido por Sócrates tenha sido apreendido, nem que se tenha alcançado o autoconhecimento capaz de fundar moralmente a philosophia, gerando as insuficiências dessa terceira prova a discussão subsequente.

12. É precisamente essa terceira prova que Moses Mendelssohn desenvolve, em sua reelaboração setecentista do Fédon, enfatizando o conceito de alteração em vez dos simples conceitos de dissolução e composição, para mostrar a impossibilidade de algo cessar subitamente de ser, garantida pela continuidade dos processos naturais, a lex continui.

13. O modo dialógico de apresentação platônico nada tem da lógica dedutiva reivindicada por Mendelssohn, cujo caráter “dogmático” Kant expôs em sua célebre crítica, tratando-se antes de mero estágio de uma exposição dialógica cuja preocupação profunda não é a imortalidade, mas o próprio ser da alma em sua compreensão vigilante de si e da realidade.

14. A resposta dos amigos reunidos a esses novos elementos torna completamente claro o pano de fundo que determina toda a discussão, o iluminismo científico e o consequente colapso da validade antes incontestada da tradição religiosa, dúvidas tão graves que seu efeito corrosivo se estende da situação da discussão original à situação dos que a relatam, Fédon e Equécrates, este último, pitagórico, consternado com o tratamento cético que Símias dá à doutrina da harmonia da alma.

15. Ao examinar os contra-argumentos aos quais Sócrates recorre, nota-se que os dois pitagóricos endossam de bom grado o conceito de anamnese, menos por seu papel na doutrina pitagórica da salvação do que por sua importância para fundar a ciência (cf. Mênon), mas Sócrates facilmente lhes mostra a incompatibilidade dessa doutrina com o ensino pitagórico da harmonia (92a ss.).

16. O argumento de Sócrates contra o ceticismo de Símias toca o núcleo da matemática pitagórica, na distinção entre ser harmonia e ter harmonia: a alma concebida como harmonia, participante da harmonia indestrutível do mundo, mostra-se vulnerável à objeção “científica” de depender de um substrato material, não podendo a teoria dos números justificar a dimensão religiosa da alma.

17. O ponto culminante de todo o diálogo é indubitavelmente a refutação da objeção de Cebes, sublinhada mais uma vez por meios dramáticos característicos: Sócrates permanece silencioso, recolhido em si mesmo, antes de expor o célebre relato de seu caminho até o pensamento filosófico, sua insatisfação com a filosofia natural, suas esperanças e desilusões quanto a Anaxágoras, e finalmente aquele segundo melhor caminho (δεύτερος πλοῦς), o caminho através dos logoi, o procedimento de hipotetizar o eidos.

18. Ao contrário do procedimento moderno de verificação de hipóteses, a hipótese do eidos não deve ser testada contra uma “experiência” que a validaria ou invalidaria, procedimento absurdo em relação a um eidos postulado, pois aquilo que constitui o ser-cavalo jamais poderia ser provado ou refutado por um cavalo particular.

19. Somente uma vez assegurada a hipótese, isto é, o acordo comunicativo que ela implica, é que se pode testar sua validade e avançar para novas hipóteses, sendo a hipótese concebida para afastar os truques dialéticos da nova paideia sofística, em reação aos quais o Sócrates de Platão arrisca essa segunda melhor viagem, rumo aos próprios logoi.

20. É evidente, contudo, que mesmo aqui os pitagóricos ainda não veem as reais implicações da doutrina das ideias, indicação que Platão sugere de modo engenhoso ao leitor, que deve pensar essas questões por si mesmo: baseando Sócrates o restante de sua demonstração no fato estabelecido de que os opostos se excluem mutuamente, e que portanto Morte e Alma, Morte e Vida não se podem combinar, intervém então alguém não identificado (103a), cuja identidade o narrador já não recorda, talvez porque ninguém além de Sócrates pudesse levantar tal objeção.

21. Ainda que Cebes não o admita, deve-se reconhecer que ele mesmo não vê claramente a diferença decisiva entre “ideia” e o que “se torna”, entre os próprios opostos e o que possui qualidades opostas, e justamente nisso reside a limitação da explicação pitagórica do número e do mundo, que toma os números e as relações numéricas pela existência mesma, incapaz de pensar por si a ordem noética da existência.

22. A tese aqui sustentada é que o próprio Platão não esperava que esse fato escapasse a ninguém, nem superestimava o poder dessa prova, o que se percebe na formulação do resultado (107a): Cebes declara-se convencido, mas Símias, de quem também se espera resposta, mostra-se mais cauteloso, não encontrando razão para descrer com base no que fora dito, mas julgando necessário, dada a importância da matéria e a fragilidade humana, permanecer cético quanto ao afirmado (107b), concordância enfaticamente compartilhada por Sócrates: por mais convincente que a discussão tenha sido, conclui-se que as provas são insuficientes e que se devem continuar testando suas premissas na medida do humanamente possível.

23. Resta dessas demonstrações apenas sua aplicação no plano moral: se a alma é imortal, é justo e necessário cuidar dela devidamente já nesta vida, pois disso dependerá criticamente todo o seu ser, aplicação moral repetida após o colorido relato do outro mundo e expressamente reiterada em 114d, devendo-se, por assim dizer, “cantar” essas perspectivas futuras a si mesmo.

24. Kant expôs a falácia da demonstração “racional” que Mendelssohn desenvolveu ao repensar o Fédon, mas o próprio insight filosófico kantiano se aproxima muito do diálogo platônico, pois a crítica de Kant “provou” a liberdade humana tão pouco quanto Platão provou a imortalidade, provando apenas que a validade a priori da causalidade subjacente a toda ciência natural não poderia refutar nosso sentimento humano de liberdade, sendo para Kant a liberdade o único fato racional, e Platão houve por bem chamar esse mesmo fato de outro nome: ideia.