GADAMER, H.-G. Dialogue and Dialectic: eight hermeneutical studies on Plato. New Haven: Yale Univ. Pr, 1980.
1. O Lísis ocupa posição de destaque entre os diálogos do período inicial por permanecer próximo à figura histórica de Sócrates, embora já contenha indícios de um fundamento no ser e na ideia que se projeta por trás de toda disputa dialética, sendo sua proximidade com os grandes diálogos sobre o amor da maturidade platônica o que confere à análise deste texto especial valor para esclarecer a relação recíproca entre a linha argumentativa do elenchos socrático e o nível de compreensão dos interlocutores.
2. A harmonia dórica (dorische Harmonie) entre logos e ergon, palavra e ação, evocada no Laques, expressa-se quando Sócrates observa a Laques que a discussão carece dessa harmonia porque este, embora corajoso no agir, não sabe dizer o que é a coragem, e a exigência de prestar contas do que se diz (λόγον διδόναι) não pode ser afastada, uma vez que todos falam constantemente da coragem como essência da virtude (arete).
3. A invocação irônica dos espartanos taciturnos e de sua harmonia dórica decorre não de uma falta de saber, mas de uma falta oposta, no plano do agir, entre os jovens atenienses seduzidos pela nova arte da retórica.
4. Nesse fato reside a razão pela qual o diálogo platônico conserva permanente relevância para o presente, remontando à Carta Sétima, em que se relata o encontro fatídico com Sócrates, condenado à morte por corromper a juventude com as artes então em moda da sofística, sendo toda a obra de Platão dedicada a mostrar que aquele que bebeu a cicuta não era sofista, ainda que necessariamente parecesse tal ao tribunal ateniense, e é nesse homem que se encontra em vida real a capacidade de manter-se fiel ao que se via como reto, de modo incondicional e independente de toda influência externa.
5. O Críton constitui o monumento mais impressionante dessa fidelidade, ao mostrar Sócrates recusando, na véspera da execução, a fuga que lhe fora preparada, unicamente porque lhe parecia justo submeter-se mesmo a um veredito injusto após ter reconhecido por tanto tempo as leis da pólis e gozado da proteção por elas oferecida, o que leva a perguntar que poder teria tornado possível um Sócrates numa pólis de sentido político tão corrompido, capaz de aferrar-se ao justo como algo real, além de toda contestação.
6. A doutrina das ideias (Ideenlehre) responde a essa pergunta ao estabelecer que o justo não é algo válido por convenção contestável, mas algo tão soberanamente real que sua existência transcende todo comportamento fixado pela convenção social e todas as opiniões (doxai) de uma sociedade, formulando assim as condições de todo saber genuíno.
7. A República (Politeia), no centro dos diálogos platônicos, responde à mesma questão pelo lado oposto, construindo o Estado em que a filosofia governaria, no qual Sócrates não seria a exceção votada a um destino trágico, mas a regra aceita, e no qual a justiça, como unidade completa entre o individual e o universal, reinaria em toda parte.
8. Os diálogos menores visam manter viva a questão de que saber confere à ação e ao comportamento humanos a certeza inabalável exibida por Sócrates, e ao confrontá-lo com os célebres chefes do sofismo, Platão busca fazer emergir uma diferença que só se revela a quem tem em vista não apenas o logos, mas também o ergon.
9. O uso, por Sócrates, das artes argumentativas sofísticas não decorre de deficiência lógica, pois embora Aristóteles tenha sido o primeiro a esclarecer os fundamentos teóricos da inferência correta, o pensar correto não se adquire apenas por um desvio pela teoria lógica.
10. Seguir a evolução da discussão do Lísis quanto à correspondência entre logos e ergon, renunciando à reconstrução lógica crítica dessa linha argumentativa, revela ordem significativa onde a abordagem usual só encontra um ziguezague confuso por não tomar a harmonia dórica como fio condutor.
11. O cenário da discussão é a Palestra, onde Sócrates reúne dois amigos, Lísis e Menéxeno, perguntando-lhes quem é mais velho, mais belo e mais rico, e interrompendo-se a si mesmo para observar que tais perguntas não cabem, pois os amigos são iguais em tudo e têm tudo em comum, palavra de ordem para o restante do diálogo.
12. Esse prelúdio já deixa antever que a discussão versará sobre a amizade e sugere, além disso, quanto caminho ainda separa essa forma infantil de camaradagem, feita de vanglória e comparação competitiva, do verdadeiro conhecimento do que a amizade é, sendo a interrupção externa uma espécie de intimação do que está por vir.
13. Presume-se que a amizade pertença ao domínio das virtudes e ao mundo sociopolítico, sendo ter amigos pré-requisito para a eficácia política, embora os rapazes ainda não estejam maduros para tal, o que se confirma ao final quando Sócrates declara buscar interlocutores mais velhos e a reunião se dissolve.
14. A questão da amizade visa, em última instância, desvelar o que é a comunidade justa, e no início do diálogo Sócrates instrui Hipotales, que corteja o rapaz amado, mostrando que só é estimado quem sabe fazer algo, o que humilha Lísis, chamado de μέγα φρονεῖν, altivo e ao mesmo tempo “de grandes pensamentos”.
15. Menéxeno retorna e a discussão prossegue com ele, retratado por Platão, em tom jocoso, como particularmente contencioso, não por afinidade sofística, mas por gosto de contradizer, o que já anuncia um elemento de dialética erística que confunde sem instruir, quando Sócrates sugere ironicamente que os dois já encontraram aquilo que ele busca a vida inteira, a verdadeira amizade, ainda no estágio da ingênua concórdia infantil.
16. Contra a exigência socrática de definição, opõe-se o argumento de que a verdadeira realidade de uma coisa não estaria contida no saber do que ela é por definição, como quando Aristóteles afirma que o importante não é saber o que é uma virtude, mas o que a produz.
17. As perguntas “minuciosas” de Sócrates sobre quem se torna amigo de quem, o amante do amado ou o amado do amante, conduzem a uma aporia que revela ser impossível, na amizade real, distinguir amante e amado dessa maneira, pois a amizade existe precisamente onde tal questão deixa de se colocar.
18. A exclamação de Lísis, “Sim, por Deus, é isso mesmo!”, e seu rubor evidenciam o quanto se envolve na discussão, sugerindo que, além de resistir com sua compreensão infantil às distinções sofísticas, começa a pressentir que a amizade verdadeira poderia ser algo bem diferente, permeado de tensão.
19. Sócrates recorre então à sabedoria dos poetas, invocando Homero e Empédocles para sustentar que o “semelhante” busca o “semelhante”, numa ironia comparável à da passagem do Sofista sobre os primeiros filósofos que trataram do ser.
20. A possibilidade oposta, de que os opostos se atraem, parece então mais plausível, apoiada em Hesíodo, segundo o qual inveja e ódio ocorrem entre semelhantes, ao passo que o rico é caro ao pobre, o forte ao fraco, o médico ao enfermo, o sábio ao ignorante, tese confirmada por um simples olhar sobre a antiga ciência jônica da natureza.
21. Resta a terceira possibilidade lógica, do “nem/nem”, segundo a qual algo é caro a alguém porque este não é nem semelhante nem dessemelhante, nem caro nem desprezado, nem bom nem mau, distinção conceitual conhecida da escola de Espeusipo e um dos primeiros conhecimentos lógicos adquiridos na Academia platônica.
22. Sócrates deduz que, se alguém não é nem bom nem mau, algo deve estar “presente” (parousia) nele como carência, sendo a parousia o modo de ser do mal aqui em questão, um dos conceitos ontológicos fundamentais de Platão.
23. Essa passagem só se compreende adequadamente se não se atentar apenas para seu esgotamento lógico imediato, devendo-se ver nas insuficiências lógicas antes insuficiências da própria concepção de amizade até então vigente, da qual germina um insight mais profundo.
24. O caminho da amizade no Lísis conduz a um primeiro resultado e serve de prelúdio ao célebre caminho do amor guiado por Diotima no Symposium, sendo equivocados os intérpretes que consideram essa linha de pensamento infundada ou apressada, pois a amizade verdadeira só pode existir onde o que é caro não depende de condições, já que as condições sempre podem mudar, definindo-se amizade e amor por um ser-caro incondicional, situado fora de toda cadeia de meios para fins.
25. O argumento que justapõe o verdadeiramente caro ao apenas condicionalmente caro parece, à primeira vista, logicamente insatisfatório, por confundir meio e finalidade, como no exemplo de amar o médico e o tratamento por causa da doença e em vista da saúde.
26. Esse entrelaçamento manifesta-se na amizade, e aquilo que a Platão parece a finalidade mais alta, o amor “primário”, não é, em sentido estrito, o cume numa hierarquia ascendente de grau, mas expressão do que a doutrina das ideias elaborará mais precisamente: um modo diverso de realidade ou de ser, e não uma elevação dentro da mesma realidade.
27. Questiona-se se todo anelo depende realmente de uma carência, pois, se assim fosse, aquilo que se aneja deixaria de ser bom uma vez satisfeita a necessidade, indagando-se se não há algo caro que permanece quando o mal, a privação, desaparece (221c).
28. Sócrates encontra na palavra oikeion, relativa ao oikos, à casa, o termo que exprime o caráter dessa relação tensa entre carência e realização, expressão comum para parentes e amigos da casa, todos os que pertencem ao lar, sendo oikos, em sentido amplo, a unidade econômica característica da casa grega, e oikeion também o lugar onde alguém se sente em casa, pertence e tudo lhe é familiar.
29. Em das Angehörige ressoa sempre das Zugehörige, aquilo que é próprio da casa, que responde a mim e a que respondo por me pertencer, e Sócrates emprega o campo semântico de oikeion para dizer que há em mim uma necessidade de das Zugehörige, necessidade que não cessa ao ser satisfeita, e aquilo em que ela se realiza não deixa de ser caro.
30. A discussão, conduzida por Sócrates até a borda da doutrina platônica do verdadeiro ser da ideia, transforma-se subitamente em cena dramática vivida, tornando-se evidentes as implicações reais da vida humana quando o amante até então malfadado concorda apaixonadamente com essa legitimação do próprio anelo, enquanto Lísis, sem olhos para o amante que persistentemente o corteja e que se oculta atrás dos demais, emudece e admite apenas a contragosto que o amado deveria também amar o verdadeiro amante.
31. Sócrates desempenha aqui um papel singularmente reservado, esforçando-se antes por obscurecer a verdade a que a discussão conduz, embora a resposta “to oikeion” contenha o sentido mais profundo do que fora antes chamado “o mesmo”, ambos também identificáveis ao “bom”.
32. A discussão que Sócrates conduziu com os rapazes, e que gostaria de prosseguir com alguém “mais velho”, aponta, para além de si mesma, ao crescimento de uma amizade efetiva e a um saber do que é ser amigo, abrindo o caminho para a harmonia dórica entre logos e ergon que a utopia filosófica platônica ainda há de construir — embora somente em palavras.