Nascimento: 15 de janeiro de 1872, filho de um oficial irlandês excêntrico e irresponsável no Exército Indiano.
Pai, Capitão Stephen Joseph MacKenna: desertou regimento na Índia nos anos 1860 para lutar com Garibaldi na Itália.
Retorno à Inglaterra em 1869, casamento com Elizabeth Deane, início de família sem recursos.
Tentativa do pai de viver de ficção romântica baseada em suas aventuras, com pouco sucesso.
Morte do pai por malária em 1883, família desamparada com dez filhos.
Stephen e o irmão Robert acolhidos por duas tias solteiras.
Educação e Fracasso Inicial no Ensino Superior
Envio para colégio interno Ratcliffe College em Leicestershire.
Criança estranha, quieta, fisicamente desajeitada, mas precocemente interessada em literatura e política (nacionalismo irlandês).
Excelência em Clássicas e Inglês; aversão e incapacidade em matemática (álgebra não só repugnante, mas em princípio ininteligível).
Decisão de cursar Clássicas na Universidade de Londres.
Fracasso inesperado no exame de Inglês, possivelmente por ser demasiado inteligente ou perverso.
Fim abrupto das chances de educação formal superior, alimentando uma falta de confiança fatal (chip on the shoulder) que marcou sua carreira.
Período como Bancário em Dublin e Primeiras Traduções
Breve experiência com vida religiosa; depois, emprego bancário arranjado pelas tias em Dublin.
Profunda inadequação ao trabalho burocrático, crescente inquietação.
Manifestação de duas facetas: simpatia pelo nacionalismo irlandês (inclusive extremo) e talento para tradução.
Desde a escola, reconhecido por belas traduções de Virgílio e Sófocles.
Primeira publicação: tradução inglesa da Imitatio Christi em 1896 (aos 24 anos).
Mudança para Londres e Início no Jornalismo
Decisão de romper com a vida respeitável e tornar-se escritor.
Ajuda do irmão mais velho Theobald, jornalista no Daily Chronicle, para emprego em jornal londrino.
Trabalho como repórter de incidentes (incêndios, acidentes) por um ano, vivendo em Brixton.
Gastos em livros e leitura intensiva.
Envolvimento com sociedades patrióticas irlandesas; sensação de vigilância policial.
Elemento de bravata herdado do pai, mas sublimado; nunca homem de violência prática.
Sentimento de marginalidade: Há algo profundamente ilegal em mim. Sempre, quer minha mente o queira ou não, encontro-me do lado não do jardineiro, mas das ervas daninhas. (Diário, 27 de junho de 1907)
Período Formativo em Paris e Aventura na Guerra Greco-Turca
Inverno de 1896: mudança para Paris como correspondente de um jornal católico inglês.
Amizade com o dramaturgo J. M. Synge e outros exilados irlandeses.
Vida boémia de fome e cafés literários.
Alargamento de simpatias: apoio a armênios e gregos oprimidos.
Primavera de 1897: eclosão da guerra Greco-Turca; fervor filo-helênico romântico.
Tentativa de se juntar à brigada internacional organizada pelo filho de Garibaldi; viagem a Atenas.
Ausência de combate real; retorno a Paris no outono, sem dinheiro.
Artigo para Dublin Weekly Freeman com observações afetuosas mas críticas sobre caráter grego (terra de discursos, aproximação pelo ridículo).
Desenvolvimento de uma Filosofia Pessoal Próxima a Plotino
Desenvolvimento de uma visão de vida em cadernos de anotações (a partir de dezembro de 1897).
Ideias que o aproximam de Plotino:
Distinção entre almas inferiores (pensar, sentir, querer) e o Homem real, alma pura e inalterada que as observa e julga.
Sobre a Arte: A arte da expressão em poesia e filosofia é a arte da descida: é limitar e encaixotar a ampla visão do Espírito: é contar uma verdade de modo a ser entendida, não de modo a ser verdadeira; é materializar o espiritual e perder muito na decantação.
Anos de Sobrevivência e Casamento
Período de três a quatro anos de mera subsistência, entre Londres, Dublin, Nova York e Paris.
Trabalhos de jornalismo e empregos mais humildes.
1900: chamado atenção de Gordon Bennett (New York Herald, Paris); trabalho como entrevistador (entrevistou J. D. Rockefeller e Rodin, tornando-se amigo deste).
1902: encontro com Mary (Marie) Bray, americana de ascendência irlandesa; casamento em janeiro de 1903.
Virada na fortuna: trabalho para o Herald leva a Joseph Pulitzer, dono do New York World.
Nomeação como representante continental do World, com alto salário, escritório em Paris e assistentes.
Cobertura de eventos europeus notáveis.
Primeiro Contato com Plotino e Gênese do Projeto de Tradução
Evento significativo: Revolução Russa de 1905.
Em São Petersburgo, encontra edição de Creuzer das Enéadas; começa leitura.
Início de 1907: ideia de traduzir Plotino para inglês toma forma.
Entrada no diário (5 de dezembro de 1907): Parece-me que devo ter nascido para ele, e que de alguma forma, algum dia, devo tê-lo traduzido nobremente.
Início de um diário introspectivo (fevereiro de 1908 a junho de 1909), documentando importância do projeto e sua luta interior.
Ruptura com Pulitzer e Retorno à Pobreza Voluntária
Maio de 1907: discussão com Pulitzer (motivo trivial: entrega de galinhas) e renúncia ao cargo.
Razões profundas: desconforto com vulgaridade de ganhar dinheiro; desprezo pelo jornalismo; desejo de escrita pura.
Entrada no diário (29 de março de 1907) profética sobre o destino do tradutor de Plotino: pobreza e anonimato versus sucesso mundano.
Mudança para Londres (julho de 1907) e depois para Dublin (verão de 1908), onde viverá pelos próximos 16 anos.
Vida Intelectual em Dublin e Primeira Tentativa de Tradução
Ideais literários avançados para sua época: previsão de romance sem enredo, psicológico ou fantástico.
1908: produção de um espécime de tradução, o tratado Sobre a Beleza (Enéada I.6), publicado em edição limitada (esgota-se, sem lucro).
Novembro de 1908: emprego fixo como editorialista no Freeman’s Journal.
Aprendizado de irlandês; envolvimento em política nacionalista.
Casa dos MacKenna como centro de reunião intelectual em Dublin (sábados à noite), com figuras como A. E. (George Russell), Thomas Bodkin, James Stephens, entre outros.
Descrição vívida de E. R. Dodds sobre MacKenna: homem magro, olhos melancólicos, andar gracioso, tocando concertina em transe.
Desafios da Tradução: Dificuldade do Texto e Estado Precário das Edições
Descoberta gradual da extrema dificuldade da sintaxe e vocabulário de Plotino.
Reconhecimento do estado precário do texto grego disponível (edições de Volkmann, 1883, e Creuzer, 1835), inadequadas frente às edições críticas posteriores (Henry-Schwyzer, Armstrong).
Ausência de tradução interpretativa digna; necessidade de uma tradução que fosse obra de arte própria, desembaraçando as nuances da linguagem condensada de Plotino em inglês nobre.
Ignorância inicial de MacKenna sobre a magnitude do obstáculo.
Intervenção Decisiva de Sir Ernest Debenham e Aceitação do Subsídio
Janeiro de 1912: carta de Ernest Debenham, industrial rico com interesses filosóficos, perguntando sobre tradução completa.
Oferta de subsídio para dar a MacKenna lazer para completar o trabalho.
Recusa inicial de MacKenna (altivez e possível receio de se comprometer com tarefa temida).
Estratagema de Debenham: pagamento adiantado do editor Philip Lee Warner, que MacKenna aceita.
Só em 1917, com publicação do primeiro volume, MacKenna descobre que era Debenham quem pagava.
Luta contra Doença, Conflitos Políticos e Avanço da Tradução
1913: problemas de saúde (mastoidite, neurastenia, depressão), possivelmente psicossomáticos devido à pressão do projeto.
Mudança para Londres para tratamento; depois Hove, Hampstead e retorno a Dublin (1915).
Recusa de trabalhar para Freeman’s Journal devido a seu apoio à Primeira Guerra.
Simpatias pela Insurreição da Páscoa de 1916; tentativa frustrada de juntar-se aos rebeldes.
Publicação do primeiro volume em 1917 (incluindo Vida de Plotino e Primeira Enéada).
Formato luxuoso, não popular como desejado; recepção respeitosa mas vendas baixas.
Desapontamento e atitude defensiva de MacKenna (carta a Amy Drucker, autoproclamando-se único tradutor digno).
Princípios Tradutórios de MacKenna: Clareza e Cadência
Carta a Debenham (c. janeiro de 1916) expondo objetivos: clareza perfeita e cadência expressiva.
Cadência como auxiliar à clareza e satisfação em si mesma.
Analogia pessoal: Gosto de seixos nos meus riachos e pequenas curvas nas minhas estradas…
Exemplo prático: comparação entre trecho de MacKenna e versão de A. H. Armstrong (Enéada I.6, 8). Versão de MacKenna mais artística e rítmica; versão de Armstrong mais literal.
Crise Pós-1917, Morte da Esposa e Persistência Graças a Debenham
1917: recorrência de sintomas nervosos; doença grave e prolongada da esposa Marie (falecida em julho de 1923).
Intervenção de Debenham: adiantamento de £250 por volume, aliviando dificuldades financeiras e mantendo MacKenna no projeto.
Sentimento de dívida e contrato como obrigação.
Anos de grande sofrimento pessoal e político (Guerra de Independência Irlandesa).
Tradução avança aos trancos.
Desespero e Tentativa de Desistência; Recuperação e Mudança para a Inglaterra
Após morte de Marie (1923), profunda depressão e visão do projeto como erro.
Carta a Dodds: …um impostor na erudição… peguei, honestamente, o que estava além de minhas forças…
Fevereiro de 1924: proposta de usar herança de uma tia para contratar um erudito (ex.: Dodds) para terminar a obra; desejo de retirar-se para Connemara.
Debenham recusa, chama MacKenna à Inglaterra, providencia férias de quatro meses em Dorset.
Período de recuperação e paz relativa.
Mudança definitiva da Irlanda (1924): razões pessoais, desilusão com o Estado Livre Irlandês e rompimento público com a Igreja Católica.
Tornou-se cristão platonista não denominacional.
Críticas a Plotino e Últimos Anos de Trabalho
Reconhecimento de limitações na visão de mundo neoplatônica: falta de preocupação social.
Observação humorística a Osborne Bergin: Plotino constrói um palácio de fadas para a alma, mas falta o W.C..
Recomeço do trabalho no outono de 1924, com subsídio de Debenham.
Mudanças de residência: arredores de Bournemouth, cottage Vinecot em Wallis Down (1926), Ringwood (dois quartos, capela de ferro como estúdio), Harrow (Eldene, 1929).
Ambientes sempre repletos de livros, estátuas de Buda e instrumentos musicais (guitarra, concertina).
Interesse pelo unitarismo, mas desencanto posterior.
Círculo de amigos e visitantes em cada local.
Conclusão da Tradução com Ajuda Externa e Últimos Anos
Volume final (Enéada VI) particularmente difícil.
1928: apelo desesperado a Dodds por ajuda.
Dodds apresenta B. S. Page, que traduz Enéada VI.1–3 (crítica às Categorias de Aristóteles).
Maio de 1930: envio das últimas provas à gráfica; conclusão da obra.
Sensação de alívio, mas também de que décadas de polimento seriam necessárias.
Quatro anos finais de calma e pobreza em Reskadinnick, Cornualha.
Dedicação a hobbies: música, língua irlandesa (tentativas fracassadas de tradução de Sófocles, Epiteto, Horácio para o irlandês).
Operação custosa e inútil em 1933; nova operação em hospital londrino no início de 1934.
Morte em 8 de março de 1934, aos 62 anos, sem medo da morte, mas sem vontade de viver.
Avaliação Final: Preço e Legado da Obra
MacKenna considerou que traduzir Plotino valia uma vida.
Questão sobre se valeu o preço em sofrimento e sacrifício de outros potenciais.
Julgamento de E. R. Dodds: é um nobre monumento à coragem de um irlandês, à generosidade de um inglês e ao idealismo de ambos, e uma das muito poucas grandes traduções de nosso tempo.
[PLOTINUS. The Enneads. Tradução: Stephen Mackenna. London: Penguin, 2005.]