Mesquita
A ideia é “o que cada coisa é” — sua mais expressa e constante definição no período dos diálogos doutrinais, chegando a constituir uma espécie de outro nome da ideia.
No Fédon, encontra-se a formulação mais paradigmática dessa identificação, na discussão inicial entre Sócrates e Símias sobre a imortalidade da alma.
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Sócrates pergunta a Símias se o próprio justo, o belo e o bem são algo, e se alguma vez foram vistos com os olhos — ao que Símias responde negativamente.
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Sócrates afirma falar “acerca da essência de todas as coisas, que é o que cada uma precisamente é.”
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A assimilação da ideia ao que cada coisa é, por mediação da essência, não surge isolada no
Fédon — ocorre em muitas outras ocasiões nos diálogos.
A passagem da República apresenta a identificação por um triplo modo, cada um conduzindo a consequências que envolvem a totalidade do ensinamento das ideias.
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Há uma ideia para cada tipo de multiplicidade, o que radica a ideia numa relação vinculativa com os entes múltiplos de que é ideia.
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A ideia é de cada coisa — o genitivo tem sentido possessivo: cada multiplicidade possui, e dir-se-ia mesmo é, uma ideia; cada multiplicidade é unidade segundo a ideia única.
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A explicitação final: a ideia é “o 'que é' de cada coisa”, ou seja, o seu ser.
A noção fundamental que atravessa e atribui sentido a todos esses aspectos é que ideia e coisa são duas perspectivas, dois atenderes, duas posições do mesmo.
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Uma posição “põe” o mesmo como múltiplo — e a isso se chama simplesmente a coisa.
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A outra posição “põe” o mesmo como uno — e a isso se chama ideia.
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Ser belo e ser o belo são dois aspectos do mesmo — o belo tomado em si mesmo como ser das coisas belas, e as próprias coisas belas no seu incompleto e adveniente ser belo.
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O “mesmo” de que ideia e coisa são posições é a própria ideia, pois ela é a coisa tomada puramente em si mesma — o ser que propriamente é.
A segunda passagem da República esclarece o estatuto ontológico do particular perante a ideia, mostrando que a relação entre ambos é estritamente uma relação de ser ou de modos de ser.
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O particular é algo semelhante ao que é e que, no entanto, não o é — é, precisamente por isso, algo que “não é plenamente.”
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A ideia é o que o particular é e é, portanto, aquilo que verdadeiramente é; o particular não é aquilo que verdadeiramente é, mas apenas um simulacro e, por isso, não é plenamente.
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O que o particular não é é justamente o que ele próprio é, ou seja, o seu ser — e é sob essa perspectiva que ganha inteiro significado a negação “não é plenamente”: ele nunca é “perfeitamente o que é.”
O sentido da metáfora do ser-imagem do particular é também estritamente ontológico — a “cama particular” é imagem da “verdadeira cama” porque nunca chega a ser o que é.
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Tal como uma sombra, um reflexo, uma cópia ou um retrato nunca chegam a ser o que refletem, copiam ou retratam.
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A marca originária da carência ontológica do particular é sempre, para
Platão, a dupla participação no ser e no não-ser.
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O particular nunca é plenamente significa: o particular nunca é o que é, senão que sempre é e não é aquilo que é.
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É necessário que o ser deficitário do particular seja justificado pelo que é plenamente o que ele só é de modo deficitário — e isso é o que verdadeiramente é, enquanto o particular é apenas sua imagem imperfeita.
Da determinação da ideia como “o que cada coisa é” resultam duas consequências fundamentais que conduzem às demais determinações da ideia.
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A diferença entre ideia e particulares consiste numa dupla modalização do mesmo.
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Esse “mesmo” que se modaliza duplamente é a própria ideia, enquanto ela é absolutamente o que a coisa é apenas relativamente.
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Dessas duas consequências decorrem diretamente as outras determinações fundamentais a investigar: a ideia como “o que propriamente é” e a ideia como “o que absolutamente é.”