Distinção Ontológica Fundamental

Mesquita

A distinção entre “ser belo” e “ser o belo”, estabelecida no Hípias Maior, corresponde a uma distinção ontológica fundamental entre “as coisas que são” e “o que cada coisa é”.

Essa distinção não apenas aponta “o que é” em sua diferença em relação ao que “vai sendo”, mas está ela mesma na base da própria questão “o que é”.

A propósito da dupla percepção do “grande” e do “pequeno”, Sócrates enuncia na República o momento em que a questão “o que é” surge pela primeira vez.

Entre os dois trechos da República opera-se uma sutil mudança de registro: no primeiro, é a própria sensação que é contraditória; no segundo, é aquilo mesmo que é visto que contém a contradição.

O perguntar por “o que é” descobre sua pertinência a partir da evidência, revelada pela sensação, de que nenhuma das coisas é puramente o que é.

A distinção entre os dois tipos de ser funda dois tipos de olhar, dois tipos de alma e dois tipos de homem.

O que há de fundamental nesse passo é que a questão “o que é” se coloca a partir da própria indigência ontológica que “as coisas que são” manifestam.

A pergunta “o que é?” radica na convicção fundada de que o que quer que seja que é e não é não pode simplesmente ser, a menos que aquilo de que participa seja mais originariamente o aspecto ou a perspectiva de que simultaneamente toma parte.