Doutrinas não-escritas

Mesquita

A primeira menção explícita às doutrinas não escritas de Platão vem de Aristóteles na Física, no contexto da discussão sobre o “lugar”, onde o Estagirita distingue o que Platão diz no Timeu do que consta “nas chamadas doutrinas não escritas”.

Aristóxeno de Tarento, discípulo direto de Aristóteles, registrou nos Elementa Harmonica um relato atribuído ao próprio Aristóteles sobre a má recepção de uma lição de Platão acerca do bem — a famosa conferência peri tagathou —, em que o público esperava ouvir sobre bens comuns como saúde e riqueza e se viu diante de matemática, geometria e astronomia.

Toda a tradição peripatética e neoplatônica foi acumulando referências às doutrinas não escritas, tornando a questão uma vexata quaestio da erudição platônica que o século XIX retomou e que se impôs no início do século XX como encruzilhada central da interpretação de Platão.

Três pontos podem ser extraídos dessa revisão preliminar: a origem textual das doutrinas não escritas está em Aristóteles, sem confirmação expressa no corpus platônico; sua importância como tal é em grande parte construção da tradição posterior; e essa mesma tradição constitui o único testemunho explícito sobre sua natureza e conteúdo.

Segundo os testemunhos aristotélicos disseminados ao longo de sua obra, o ensino platônico consistiria em três vetores ausentes dos diálogos: a vinculação da teoria das ideias ao Uno e à Díade Indefinida (o Grande e o Pequeno) como princípios formal e material; o reconhecimento de três tipos de números — sensíveis, ideais e intermediários matemáticos (ta mathematika); e a identificação das ideias com números.

A dissertação de L. Robin, La théorie platonicienne des Idées et des Nombres d'après Aristote (1908), deu o grande impulso moderno a esse projeto reconstrutivo, propondo-se a usar exclusivamente os depoimentos aristotélicos sem cotejá-los com os diálogos.

Distinguem-se atualmente três tendências nítidas diante da questão das doutrinas não escritas, a primeira das quais, cujo núcleo está na obra de Cherniss — Aristotle's Criticism of Plato and the Academy e The Riddle of the Early Academy —, assume postura totalmente negativa.

Nos antípodas dessa posição estão os comentadores de Tübingen, H. J. Krämer e K. Gaiser, para quem a verdadeira filosofia platônica é a descrita por Aristóteles, constituindo a vertente esotérica de um ensinamento desenvolvido “ao lado” do magistério exotérico dos diálogos — caracterizados pelo próprio Platão como mero “jogo” (paidia).

Uma terceira tendência, intermediária e mais difusa, aceita o testemunho aristotélico como rigoroso para o último período do pensamento platônico, posterior à redação das Leis, ou o reinterpreta como repositório em linguagem aristotélica da filosofia dos últimos diálogos.

Diante dessas três linhas, justifica-se examinar as garantias que a própria obra platônica oferece de acesso genuíno ao pensamento de Platão, e os dados que ela fornece para avaliar qualquer projeto de reconstrução externo aos diálogos.

As críticas platônicas à escrita articulam-se em três eixos principais: a palavra escrita é “muda” por ser incapaz de se sustentar num jogo contínuo de perguntas e respostas que mobilize memória, alteridade e interioridade (Fedro 274b ss.; cf. Protágoras 328e, 347b-348b; Leis XII, 968ce); o projeto de saber exige diálogo, convívio com a “coisa mesma” e congenialidade com o objeto, além de esforço estritamente individual (Carta VII 344b, 341c, 343e-344a, 340d; Leis e Fedro, loc. cit.); e “as coisas sérias” (Carta VII 344c) são absolutamente resistentes à exposição escrita.

Não se pode excluir a priori a possibilidade de um ensino oral platônico — pelo contrário, à luz das críticas à escrita e da vida acadêmica de Platão, tal ensino seria necessariamente o mais importante, especialmente em articulação com os diálogos escritos.

O problema de fundo que afeta qualquer tentativa de reconstrução do pensamento platônico a partir das agraphà dogmata é estritamente análogo àquele que essa tentativa levanta contra os diálogos: as reconstruções não se baseiam em testemunhos orais, mas em testemunhos escritos e, ao contrário dos diálogos, em testemunhos de segunda mão.

O que caracteriza o modelo alternativo proposto nas críticas platônicas à escrita não é a oralidade em si, mas o que ela pressupõe — diálogo, convívio com a “coisa mesma”, congenialidade com o objeto e exercício individual e comunitário de funções intelectuais e de vida —, dimensões que pertencem ao domínio do fazer e não do dizer.

Qualquer tentativa de retomar por escrito o conteúdo do ensino oral platônico — seja nos diálogos de primeira mão, seja nas doutrinas não escritas de segunda mão — está condenada ao fracasso, pois nenhum dos requisitos que configuram o modo de transmissão desse ensino pode ser recuperado por escrito.

As doutrinas não escritas não o são por incapacidade ou deliberação de Platão, mas porque, em sua essência, não são “escrevíveis” — e, portanto, se não podem ser encontradas na escrita platônica, tampouco podem ser encontradas em qualquer outro escrito.

Mesmo de um ponto de vista doxográfico, as críticas platônicas à escrita — sobretudo na versão da Carta VII — comprometem a fiabilidade dos testemunhos da tradição, pois vinculam a inadequação da escrita a uma deficiência mais radical da linguagem e de todos os modos de conhecimento, atingindo não apenas a palavra escrita mas também a palavra oral.

As condições do ensino oral platônico convergem todas para a designação do diálogo como modo filosófico e pedagógico por excelência — e é precisamente o caráter “dogmático” do ensino exposto na tradição que denuncia sua origem não platônica e sua inadequação como relato do pensamento de Platão.

Longe de estar perdido pela impossibilidade de acesso às doutrinas não escritas, o ensinamento platônico pode ser recuperado pelo próprio reconhecimento da centralidade filosófica do diálogo — pois a escrita, em Platão, nunca é propriamente negada, mas desvalorizada diante de um modo mais direto de comunicação, e essa desvalorização comporta a aclaração do estatuto que lhe cabe.

Os diálogos escritos podem ser tomados em seu conjunto como “pequena indicação” que, tal como o próprio diálogo, “não fala nem esconde, mas assinala” (Heráclito, fr. 93) — e isso justifica tomá-los como único testemunho decisivo do ensinamento platônico.

A oposição decisiva em Platão não é entre dizer escrito e dizer oral, mas entre dizer e fazer — e daí o valor dos diálogos como “pequena indicação”: pequena não porque é tudo o que pode ser dito por escrito, mas porque é tudo o que pode ser dito tout court.