Questão "o que é" e circularidade ser-saber

Mesquita

O problema central dos primeiros diálogos de Platão é a determinação do sentido da excelência (arete) ou de suas partes — na enumeração mais completa: a justiça (dikaiosyne, dikaiotis), a coragem (andreia), a temperança ou moderação (sophrosyne), a piedade (hosion, hosiotes) e a sabedoria (sophia, episteme, phronesis).

A expressão “determinação” tem sentido preciso: assinala o modo interrogativo pelo qual cada excelência é convocada através da pergunta “o que é?”, que busca incessantemente um enunciado capaz de dar conta do que cada uma delas é, terminando de modo igualmente regular numa suspensão aporética em que nenhuma resposta aparentemente se encontra.

Embora nenhum diálogo do período examine exaustivamente todas as aretai — só o Protágoras tematiza explicitamente o problema de sua unidade global —, o exame parece deliberadamente preterido em favor de uma investigação completa mas faseada de cada uma delas em si mesma.

A um segundo olhar, esse parcelamento é meramente ilusório — todos esses diálogos descobrem um vínculo unificador da própria excelência, que é simultaneamente o que faz de cada uma delas precisamente uma excelência: o saber.

Três noções fundamentais — excelência, “o que é” e saber — cruzam-se sucessivamente em três planos distintos, cada uma determinando o conjunto num plano particular e sendo determinada pelas outras em outro plano.

À exigência do “o que é” como ponto de partida necessário de toda investigação bem-sucedida — o ex arches sem o qual qualquer exame redunda em aporia, traço constante da totalidade dos diálogos do primeiro período e do pensamento platônico — junta-se frequentemente outra condição: a exigência de que quem busca participe já da natureza daquilo mesmo que busca.

A essas duas características da pesquisa socrática — a exigência do “o que é” e a participação antecipada no buscado — acrescenta-se uma terceira: a capacidade de explicitar discursivamente o que se sabe constitui ela mesma um acompanhante essencial do saber.

A investigação da arete estriba-se numa situação real e fáctica em três níveis: é feita dialogicamente entre homens comuns, no ambiente aberto da Cidade, discutindo opiniões correntes com a linguagem natural desses homens; o exame socrático ocupa-se do próprio interlocutor, de seu saber real ou aparente e das consequências disso em sua própria vida; e a própria excelência é de certa forma uma evidência real e fáctica.

A interrogação inaugural típica da pesquisa tem a forma: “é a justiça alguma coisa ou nada?” — pela qual Sócrates se dirige diretamente à experiência do interlocutor, circunscrevendo a imediata e irrecusável efetividade da justiça (ou de qualquer outra excelência) manifesta na ocorrência de pessoas, ações ou instituições justas.

O prolongamento do diálogo revela que a facticidade da excelência é paradoxal: porque, dando-se como fato, não parece fácil indicar instâncias perfeitas e acabadas de excelência; e mais paradoxal ainda porque não se disponibiliza sequer o enunciado que a própria questão “o que é” procura.

A excelência tem a característica particular de se instanciar empiricamente não em puros objetos de experiência, mas necessariamente em sujeitos de experiência — pelo que o campo de experiência possível da excelência coincide com o campo dos “experimentados”.

A grande revelação do diálogo socrático não é nenhum dos supostos implícitos na pesquisa, mas a descoberta sutilmente distinta de que a própria excelência é um saber — o que constitui ao mesmo tempo o permanente paradoxo e o permanente foco de aporia do diálogo, pois é justamente quando a excelência se mostra um saber que os interlocutores, que presumivelmente a sabiam na experiência, mostram que afinal não a sabem.

Destacam-se duas articulações diferentes entre o saber e a questão “o que é”: o saber está vinculado a essa questão porque busca o que é a excelência e descobre que ela consiste num saber; e todo o saber surge determinado por um horizonte de ser, em que o que se busca saber deve ser sempre já “sido”, de tal modo que a pergunta por “o que é” aponta o “é” que se é — configurando antecipadamente a centralidade futura do “conhecer-se a si mesmo”.

Os três planos da investigação reaparecem de modo novo — o saber procura o que é a excelência; o saber torna excelente; o saber é a excelência —, e em todos eles, numa explicitação e adensamento progressivos, encontra-se esta nota constante: saber a excelência é sê-la; saber é ser.