Aproveitando a presente circunstância, valerá a pena deixar também desde já explicitados alguns critérios de tradução relativos a um outro tema central nas páginas seguintes, qual é a noção de saber.
Assim, usaremos a expressão saber, em sentido genérico, para designar as seguintes famílias vocabulares: a) σοφία e seus derivados; b) o verbo ειδεναι e seus derivados; c) γνώσις, γιγνῶσκειν, etc; d) έπίστήμη, επίστασθαι, etc. Por vezes, agruparemos também nesta classe a família μα’θημα, μάθησις, μανθάνειν, etc, bem como a acepção geral de τέχνη.
Em sentido estrito, no entanto, reservaremos a expressão saber para os grupos a) e b), vertendo os restantes, salvo exceções devidamente assinaladas, do seguinte modo: γνώσις e γιγνῶσκειν por conhecimento ou conhecer; έπιστημη por ciência, ou também por conhecimento, quando se tratar da distinção técnica entre έπιστημη e δόξα; μάθημα e termos aparentados por estudo ou aprendizagem; τέχνη por arte.
Por seu lado, verteremos por pensar ou pensamento, salvo excepções assinaladas, as seguintes famílias: φρονησις, φρόνημα, φρονέΐν; νόησις, νόημα, νοέίν; διάνοια, διανοεΓσθαι.
Λογισμός e λογίζεσθαι, na acepção geral, serão vertidos por reflexão e reflectir.
Um conceito não lexicalmente aparentado com estes, mas culturalmente aproximado pelo pensamento grego e filosoficamente vinculado por Platão, é o conceito de ἀρετή. O estabelecimento de uma tradução consensual deste termo é quase tão difícil como a relativa a εἶδος. Todavia, a inadequação da tradução por «virtude», que provém de uma etimologia latina distinta e tem óbvias conotações estranhas à cultura grega e ao próprio uso filosófico e platônico do conceito, quer no seu valor etimológico estrito, quer na sua posterior conotação cristã, leva-nos a optar pela versão generalizada «excelência», já vulgarizada em português, que, embora longe de satisfazer completamente, oferece a vantagem de respeitar a ligação etimológica provável de ἀρετή com ἀρείον e ἄριστον, respectivamente comparativo e superlativo de ἀγαθόν M.