Circularidade ser-saber e antecipação da noção de "ideia"

Mesquita

A circularidade do ser e do saber é atestada por todos os diálogos elênticos e constitui, para cada um deles, o motivo mais fundo — podendo todos ser vistos não só como um caso dessa circularidade, mas, em sua articulação global, como um conjunto de contributos diversos e complementares para seu esclarecimento.

No Protágoras, a noção de saber alcança importância decisiva, integrando-se em três tematizações distintas: o saber como uma das partes da excelência e como sua parte mais eminente (329d-333c); o saber como todas as excelências, enquanto vínculo de unidade que as fundamenta a todas (349a-357e); e o saber como cada uma das excelências, enquanto o que imediatamente se diferencia e se dá como o ser próprio de cada parte — concepção que emerge apenas no fim do diálogo e estabelece seu horizonte conclusivo (360ce).

A coragem é o saber do que há a temer e do que não há a temer — a capacidade de distinguir o que numa situação se perfila como mal e o que se perfila como bem (cf. Protágoras 357b); mas bem e mal são aqui experimentados do ponto de vista do temor e do não-temor, de modo que o próprio saber geral em que consistia a coragem se objetiva em torno de uma experiência particular, que é a coragem mesma.

Essa falta surge colmatada in concreto no Laques, pela tipificação da coragem que os generais Laques e Nícias realizam — em particular em duas passagens.

Distinguem-se assim dois tipos diferentes de saber: um que Laques revela como corajoso e que permite a Sócrates designá-lo como sábio; outro que Laques não revela, porque, sendo muito embora corajoso, é incapaz de dizer o que é a coragem.

Encontra-se assim uma nova versão, já dinâmica e completa, da circularidade: a coragem é um saber e esse saber é já a coragem; o saber é a coragem, mas esse ser a coragem só se consuma no interior de um saber (= ser) total.

Com o Cármides e, de modo mais ínvio mas finalmente mais definitivo, com o Êutidemo, dá-se um novo passo: a própria noção de “saber do saber” apresenta-se como a própria determinação da excelência.

A coragem socrática não é o mero saber do que há a temer e do que há a ousar, mas o saber desse saber como tal — um puro saber de saber e do que esse saber é; e, assim, a excelência socrática não é nenhum saber específico, mas tão só um puro saber do saber: seja a episteme epistemes do Cármides, seja o saber do bem interpretado pelo Êutidemo e depois pela República como um simples saber de si.

Cabe ao Mênon, diálogo tardio em que o problema da excelência em geral convoca pela primeira vez a anamnesis como motivo central, circunscrever e resolver em termos técnicos a questão que a generalidade dos diálogos socráticos mantém em estado de tensão aporética — reconhecendo, pela primeira vez, dois conceitos que permitem diferenciar os dois tipos de saber encontrados nos outros diálogos: o saber “experimentado” ou imediatamente vivido na ação, e o “saber de si” descoberto aporética mas muito claramente no Cármides e no Êutidemo.

A opinião verdadeira é um mero dom divino, incapaz de dar conta de si mesmo (cf. 99bd, 99e-100a), e nela existe uma carência interna que a impede de garantir, por natureza, sua própria verdade — nunca ultrapassando seu caráter meramente dóxico.

A constante aporia dos diálogos elênticos radica na circularidade de uma excelência que é em si mesma saber e que como tal se dá na ação, mas que nunca ascende a saber de si.

Essa “coisa verdadeira entre sombras” constitui a própria realização de uma realidade que nunca está inteiramente dada e onde se consuma a pura identidade do ser e do saber — a pura circularidade de um “ser-se” cuja completude só se concretiza sabendo-se.