MONTET, Danielle. Les traits de l’être. Essai sur l’ontologie platonicienne. Grenoble: Jérôme Millon, 1990
Dupla Figura de Platão na Tradição Filosófica: Nomoteta e Dialético
Assimilação tradicional de Platão à figura do nomoteta (legislador) na leitura e no uso de sua obra.
Visão de Platão como institutor de palavras e legislador de termos cuja evidência marcou a história da filosofia.
Questionamento: a filosofia poderia escrever-se fora dos termos platônicos, quer os retomando, quer os criticando?
Exemplos da fortuna nomotética: ousia perturbando distinção essência/existência; eidos assombrando a eidética; idea legitimando todos os idealismos.
Ocultação, pela familiaridade dos termos, da segunda figura em ação no Crátilo: a do dialético, sem a qual a produção do nomoteta perde significado.
Herança da tradição: recepção do léxico e das ferramentas, mas esquecimento ou secundarização da figura do dialético.
Lição do Crátilo: Primazia do Dialético sobre o Nomoteta
Reconhecimento do dialético como praticante da ciência mais alta e pedra angular do edifício do platonismo.
Advertência do Crátilo: apenas quem sabe usar a palavra-ferramenta na arte da dialética pode dar conta da própria palavra e arrancá-la da erosão do uso.
Caráter indissociável do texto platônico: tecido segundo nomotetia e dialética, não sobrevivendo incólume a leituras que as disjunto.
Necessidade de um retorno a montante (mais que uma segunda navegação), evitando mitos arqueológicos (como a Atlântida) e a familiaridade cegante do continente platônico.
A dialética como marcha (poreia) e como demarche, sinal distintivo do homem livre.
Objetivo da leitura: recuperar a estranheza e experimentar a singularidade conceitual do texto platônico.
O Núcleo Duro e o Problema da Sinonímia: Ousia, Eidos, Idea
Identificação da trilogia ousia, eidos, idea como núcleo duro do pensamento platônico.
Concordância generalizada das traduções canônicas e interpretações mais refinadas em tratá-los como sinônimos intercambiáveis, legado do nomoteta.
Exemplo da convergência entre a lógica das traduções da Collection des Universités de France (C.U.F.) e a interpretação de Heidegger, que afirma serem eidos e idea a mesma coisa, os nomes platônicos do ser.
Consequência: legado de uma interpretação eidética e idealista da essência.
Questionamento radical da pressuposta sinonímia, vista como interpretação/tradução de autoridade inquestionada e considerável peso.
Crítica à Interpretação Paradigmática e Mimética
Crítica à locução ideia de… (ex: ideia do belo) como produto de segunda mão da glosa platônica, induzindo uma interpretação paradigmática.
Exemplo do Hipias Maior: a pergunta o que é o belo? não tem como resposta a ideia do belo, mas um eidos, uma ideia.
Deslize linguístico que arrasta o pensamento platônico para a banalidade dos platonismos.
Distinção necessária do belo como eidos das determinações empíricas, sem reduzi-lo a modelo ou arquétipo.
Leitmotiv das traduções e interpretações: estrutura mimética onde a essência (ousia) como modelo (eidos/idea) é copiada deficientemente pelo sensível.
Consolidação da cisão modelo/cópia, ser/aparência, essência/devir, programando figuras do pensamento em lógica impiedosa.
A Fortuna do Conceito de Mimese e sua Apropriação pela Dialética
Espetacular operação da mimese: assinar suas dívidas com o grafismo da dialética.
Redução do combate entre filosofia e sofística à justa interminável entre o legítimo pretendente (modelo, ícone) e o usurpador (cópia, ídolo).
A discriminação modelo/cópia como possível paradigma da operação da diaíresis (distinção exemplar).
A nomotetia comparada a uma gigantesca fábrica de instrumentos discriminatórios (naveta, crivo, rede).
Tarefa primeira do nome, segundo o Crátilo: distinguir a essência, separando modelo de cópia, ser de aparência.
Sonho cratílico da tradição platônica, solidário de análise curta da mimese e concepção de discriminação cega à dialética.
Ruptura do Sonho Cratílico pela Homonímia e a Primazia do Uso
Ruptura pela homonímia fundamental na raiz de toda nomeação (exemplo do lit na República X).
Impossibilidade do nome, usado para designar o eidos, o objeto e a representação pictural, de simplesmente discriminar a essência.
Caráter comum e desprovido de pertinência intrínseca do nome quando considerado isoladamente.
A nomotetia/ortonomia/ortologia como ciência ilusória quando pretende bastar-se a si mesma.
Solo natal da filosofia não pode ser a terra cratílica: usar o nome não torna ninguém dialético.
Somente o dialético sabe usar verdadeiramente o nome; a dialética se desdobra como saber desse uso.
Impossibilidade de retificar o nome no tear do nomoteta; só o uso o afina, o torna adequado, precisa seu fim.
Fetichismo do nome versus pensamento que se realiza em usá-lo corretamente, conferindo-lhe poder de significação.
Uso Regulado e Sentidos Originários da Trilogia
Conclusão: eidos, idea e ousia não são intercambiáveis, mas obedecem a um uso regulado que constitui a tonalidade específica do pensamento platônico.
Análise do termo ousia:
Sentido originário: bem ao sol, riqueza, propriedade, fazenda, lar.
Uso na linguagem comum (exemplo em Isócrates) e no próprio Platão (República).
Elaboração teórica do conceito a partir dessa experiência grega da morada e da propriedade, que retroage sobre o sentido inicial.
Análise do termo eidos:
Sentido originário: aspecto, aparência, modo como algo se mostra na dimensão da visibilidade.
Preservação no texto platônico (exemplo no Banquete, discurso de Alcibíades).
Testemunho de uma experiência da visibilidade pensada como interpelação, revelação do ser no golpe da visibilidade, mesmo noética.
Análise do termo idea:
Proximidade com eidos, significado de aspecto, forma sensível e manifesta antes de ser ideal.
Oxímoro: termos tributários do visível aplicados ao invisível (exceto a Beleza).
Invisibilidade do eidos e da idea como ruína da tentação cratílica.
Exigência de pensar uma articulação originária entre visibilidade e invisibilidade, presença e ausência.
O Caráter Instável e a Exigência Dialética
A ousia não como morada tranquila do pensamento, mas como campo de batalha da origem (Sofista), terra estrangeira e sempre já subtraída.
Impossibilidade de um nomoteta para arraisonar as palavras-mestras do platonismo.
Legitimação somente pelo dialético, que sabe usá-las e dar razão delas.
Prática incessante de Platão: reabrir o debate, colocar em jogo os conceitos, afiá-los no fio do diálogo.
Os conceitos nunca simplesmente adquiridos; adquirem sentido apenas no que permitem tramar, tecer, entrelaçar na operação do lógos.
Descoberta, na prova da dialética, da dimensão mítica da obra e da ilusão radical de uma poíesis linguística.
Questões para uma Leitura Dialética e Polifônica
Perguntas que inquietam a familiaridade do solo platônico: como usar eidos, idea, ousia? De que uso são índice? Como usar seu afastamento, como jogar com eles?
Saber servir-se das palavras como ouvir suas diferenças, interrogar seus afastamentos, além da indiferenciação significante onde a dóxa se alimenta.
A dialética começa por um adestramento do ouvido, uma justiça da palavra (como cantar justo).
Necessidade de examinar a complementaridade nomoteta/dialético através de um retorno à trilogia, considerando sua inegável parentela e suas diferenças necessárias.
Analogia com a análise da Fedro: iniciação, mantica, poética e erótica se assemelham no delírio sem se confundir.
Proposta: uma escuta polifônica de ousia, eidos e idea para arrancar o pensamento platônico do refrão massivo entoado pelo platonismo.