Afrodite é dupla, conforme a tradição platônica (
Banquete, 180d-e):
Afrodite Uraniana: a mais antiga, filha de Urano (sem mãe), “celeste”.
Afrodite Pandêmica: mais jovem, filha de Zeus e Dione, “popular” ou “terrena”, patrona dos casamentos.
Plotino retoma textualmente esta classificação, especificando para a Uraniana: não tem mãe, está acima dos casamentos (pois não há casamentos no céu/Urano) e vem de Kronos (o Espírito, filho de Urano).
A distinção é central: há dois amores, correspondentes às duas Afrodites.
Em Pausânias (no Banquete), a dualidade serve para evacuar o que não é digno de louvor (o amor pandêmico), isolando o amor uraniano como objeto de elogio.
A pergunta enigmática de Pausânias — “como para a deusa negar essa dualidade?” — sugere que, por mais que se desenvolva a distinção, o duplo permanece e se impõe.
A dualidade de Afrodite quebra qualquer veleidade de inscrever o amor exclusivamente na esfera divina ou na do uso. Ela constitui o ser mesmo da terceira via (a via intermediária, do daimôn?).
Plotino, porém, desliza: aborda a dualidade, mas não a coloca como fundamental (como a questão de Pausânias sugere), mas como hierárquica. A Uraniana prevalece sobre a Pandêmica.
A origem define a pureza: maior pureza em vir de um só (Uraniana, sem mãe) do que de dois (Pandemica, de Zeus e Dione). A Uraniana está associada à castração primordial de Urano (como nota Lacan), sendo alheia à “duplicidade dos sexos”.
Plotino, significativamente, não utiliza o termo 'pandêmico' e não aborda seu significado. O salto é feito da Uraniana diretamente para o ser daimôn, omitindo ou subsumindo a esfera pandêmica.