VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979
III. O selo platônico da Weltseele de 1798
Em que sentido a Weltseele é uma obra marcada pelo selo platônico? Foi possível perceber isso à medida que o desenvolvimento avançava, mas é necessário esclarecer novamente em que sentido. Schelling segue Platão, na forma da exposição, na medida em que recorre de bom grado a procedimentos míticos, embora menos desenvolvidos do que os do Timeu. Ele cita Virgílio a respeito do éter, para mostrar que os antigos situavam os deuses nas alturas da atmosfera. O fogo é “aquilo que não se apagou na Terra desde Prometeu”. Essa leve semelhança externa esconde, na verdade, uma profunda analogia: o desejo comum de apresentar os resultados científicos da época de uma forma agradável. Tanto em Platão quanto em Schelling, esse projeto é apenas parcialmente realizado, pois a leitura das obras continua sendo bastante árdua. Mas o projeto filosófico é o mesmo: reunir, na unidade de um tratado filosófico, regido por um princípio orientador fortemente afirmado, a multiplicidade das pesquisas científicas mais recentes; mostrar a unidade oculta da ciência e da tradição filosófica. Esse belo projeto é apresentado com a mesma prudência: Platão apresentava seu relato da criação do mundo como uma “história verossímil”, pois “se, nessas matérias, nos é oferecida uma história verossímil, não convém ir além. » (29 D) Em Schelling, a alma do mundo também não é um dogma, mas a exigência de unidade que, com verossimilhança, supõe-se estar inscrita no espírito do homem. Essa exigência de unidade é, em si mesma, eminentemente platônica, pois, por meio da diversidade das organizações, a forma individual e orgânica persiste na transformação de todas as figuras materiais como uma unidade puramente espiritual da qual dependem, justamente, todas as realidades orgânicas. A autonomia da vida, que Schelling descobre com admiração, é para ele uma potência individual de autoformação, assim como é para Platão a noção mística do “aquilo que se move a si mesmo”. A alma do mundo é, para ambos, o princípio da vida, que destrói a barreira intransponível entre o orgânico e o mecânico. Schelling aprofunda a noção de movimento autônomo no desenvolvimento autônomo. Essa ampliação da noção de vida traduz, tanto em Schelling quanto em Platão, o desejo de compreender o vínculo entre o mundo físico e o mundo intelectual. Todo organismo participa do mundo intelectual, e a introdução às Ideen declara que “em todo organismo vive um espírito”. Uma nota da primeira edição (suprimida nas seguintes) expressa admiravelmente esse propósito: “… o fundamento reside nas profundezas do espírito humano; por isso, todo infinito — já que uma infinidade absoluta nunca pode ser real em nós e fora de nós — deve necessariamente ser construído como uma infinidade empírica, uma infinidade no tempo.” É certo que a noção de infinito utilizada por Schelling é muito antiplatônica, mas o tempo é, de fato, a imagem em movimento da eternidade que Platão estudava e que Goethe reencontrava em seu diário. O privilégio concedido ao organismo é análogo ao dos astros em Platão. O prefácio da primeira edição da Weltseele nos explica: “Assim, toda sucessão de causas e efeitos não é excluída pelo conceito de organismo; esse conceito designa apenas uma sucessão que, confinada a certos limites, retorna a si mesma em seu curso.” O organismo é causa e efeito de si mesmo e traduz um movimento circular da cadeia de causas e efeitos, como o movimento dos astros segundo Platão.
Assim, apesar de uma concepção renovada da matéria e da imanência, apesar de influências teosóficas e filosóficas divergentes — sobre as quais não voltaremos a tratar —, Schelling mostra-se fortemente imbuído do pensamento platônico em sua primeira versão da Weltseele, em 1798. (88)