Plano do Manual

Ilsetraut Hadot. Apprendre à philosopher dans l’Antiquité.

O Manual de Epicteto possui uma estrutura articulada que se anuncia desde as primeiras linhas do primeiro capítulo, organizadas em torno da distinção fundamental entre o que depende de nós e o que não depende de nós.

O plano do Manual não é puramente linear, mas obedece a uma composição bidimensional na qual vários temas se entrelaçam como fios de uma tapeçaria.

O princípio diretor da alma — o que os estoicos designavam como a parte superior que raciocina — é simultaneamente um princípio de percepção crítica e um princípio de movimento.

Epicteto modifica a doutrina estoica anterior ao separar o desejo do impulso, transformando-o em uma atividade distinta que se refere ao domínio da passividade e das emoções, enquanto o impulso pertence ao domínio da ação.

A origem da teoria das três atividades da alma em Epicteto é difícil de precisar, embora a tripartição platônica da alma possa ter exercido influência, ainda que de maneira profundamente transformada.

Às três atividades da alma correspondem os três domínios de exercício ou disciplina do filósofo, que Epicteto chama de topoi.

Os três domínios de exercício correspondem respectivamente a uma física vivida, a uma ética vivida e a uma dialética vivida, distinção que Cícero formulou com clareza.

A disciplina do desejo implica uma atitude em relação ao mundo e à Razão que o governa, constituindo assim uma física vivida.

O plano do Manual articula quatro temas fundamentais que se entrelaçam ao longo de toda a obra.

Os capítulos 1 e 2 sublinham a importância da distinção entre o que depende de nós e o que não depende de nós; os capítulos 3 a 6 referem-se explicitamente à disciplina do juízo.

Os capítulos 7 a 11 correspondem à disciplina do desejo, definindo a atitude a ter diante dos objetos de apego e dos eventos penosos; os capítulos 12 e 13 intercalam conselhos aos aprendizes de filósofo.

Os capítulos 14 a 21 retomam a disciplina do desejo, e os capítulos 22 a 25 apresentam uma segunda série de conselhos aos progressantes, seguidos de uma terceira e última ocorrência da disciplina do desejo nos capítulos 26 a 28.

Os capítulos 30 a 45 correspondem à disciplina das tendências à ação, organizados em torno dos deveres — para com os deuses, para consigo mesmo — e da importância do discurso interior que preside à ação.

Os capítulos finais (46 a 53) retomam pela última vez os conselhos aos progressantes, relacionando-os à prática da filosofia em geral.

M. Pohlenz tinha razão, em princípio, ao reconhecer na estrutura do Manual as três disciplinas do juízo, do desejo e da ação, mas o plano geral é muito mais complexo, comportando múltiplos entrelaçamentos entre o tema das disciplinas e o tema dos conselhos aos progressantes.