Sêneca (séc I)
María Zambrano. El pensamiento vivo de Seneca (1944)
Figuras universais e figuras locais
Nem todas as figuras históricas possuem o mesmo raio de ação, pois algumas são figuras categóricas da vida de um país ou povo, só podendo renascer e adquirir nova vida dentro da esfera de suas problemáticas específicas.
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Os deuses lares, nascidos da substância das ideias de um povo, são um tesouro privado que um estrangeiro mal pode notar.
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Existem outras figuras, como a de Sêneca, com características tais que dizem respeito a todo homem.
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Sêneca nasceu na silenciosa Córdoba, na província romana da Espanha, e deixou a cidade para nunca mais voltar.
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Apesar disso, ele está entre os poucos filhos da Espanha que lhe restituíram, indelevelmente gravada, a vida que dela receberam.
Universalidade e experiência histórica
Tornar-se uma figura da História universal, fora do país e da terra de origem, só acontece àqueles que encarnaram uma das maneiras mais fundamentais de ser homem.
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O homem é uma criatura que admite, e até exige, versões diferentes de si mesmo.
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Cada uma dessas versões já realizadas é precisamente uma experiência histórica, uma figura transcendente: uma maneira de aceitar a vida e a morte.
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Existem versões do homem mais afortunadas que outras, por terem sido levadas a cabo com determinação implacável por quem as realizou.
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São caminhos percorridos com coragem até o fim, possibilidades aproveitadas, verdades consumidas até se tornarem transparentes.
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Deve-se dupla gratidão a quem viveu assim: por ter aceitado o difícil compito de viver para todos uma possibilidade humana, e por tê-la vivido com virtude intacta e integridade sem mancha.
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Essas são as figuras mais claras, mais nítidas e, portanto, também as mais duradouras e mais aptas a obter repetidas ressurreições.
Clareza e mistério na figura de Sêneca
Sêneca levou ao extremo seus limites, sua figura tem a corporeidade de uma estátua e seu pensamento as feições precisas de um estilo, mas sua imagem nos chega como algo familiar e ao mesmo tempo misterioso.
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A imagem de Sêneca não nos chega de distâncias sobre-humanas; sentimo-lo acima de nós, mas ainda assim próximo, familiar.
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Os maiores mistérios costumam residir no que nos é mais familiar e próximo.
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Sêneca é uma figura que deve ser decifrada: é clara, perfeitamente completa e realizada, mas tem mistério por causa de sua sedução.
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Coisas excessivamente claras geralmente não nos seduzem tanto; tende-se a ver mistério onde há magia, mesmo que essa magia provenha da clareza em pessoa.
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O pensamento de Sêneca é extremamente claro e não precisa ser desvelado, ao contrário do que acontece geralmente com os estoicos.
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Seu mistério e sua sedução nascem do fato de que ele nos propõe algo do qual gostaríamos de nos libertar, uma solução para nossa vida que gostaríamos de evitar.
Filosofia antiga como medicina amarga
Todos os filósofos da Antiguidade anterior ao cristianismo são portadores de uma medicina amarga, oferecendo uma cicuta que eles próprios beberam até o fim com coragem.
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A filosofia antiga, e ainda mais a estoica, é uma medicina amarga feita de vigília e abstinência, um despertar para uma verdade que exige toda a coragem.
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Sêneca pertence a essa linhagem de antigos filósofos destinados a trazer o amargo despertar da razão, que nos sacode dos delírios e devaneios para fazer “voltar à razão”.
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Se Sêneca é acolhido, é porque tem algo de diferente dos outros: vê-se e sente-se nele algo de benevolente e tranquilizador.
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Não se vê nele uma razão pura, mas uma razão adoçada; ele não é um filósofo completo, é um pensador não sistemático, não excessivamente lógico.
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O pensamento que dele provém não obriga a nada e possui algo de musical; são acordos que tranquilizam, adormecem, serenam.
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Vê-se nele um médico, e mais que um médico, um curador da filosofia que, sem se ater demasiadamente a um sistema, traz o remédio com outra espécie de rigor e outra espécie de consolação.
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É um remédio menos rigoroso que, mais que curar, quer aliviar; mais que despertar, quer consolar.