Cadeia Hermética

VAN DEN KERCHOVE, Anna. La voie d’Hermès: pratiques rituelles et traités hermétiques. Leiden Boston: Brill, 2012.

III. A CADEIA HERMÉTICA

A cadeia hermética é o local onde o ensino é transmitido e onde suas propriedades principais são preservadas, com cada mestre, à imitação de Hermes e do narrador, devendo se beneficiar das tradições oral e escrita e da formação autodidata.

1. A implantação da cadeia hermética

Para que a cadeia de transmissão perpetue o ensino sem rupturas e que a ordem de Poimandres (ser um guia para os dignos) seja respeitada, a escolha dos discípulos deve ser regulamentada com base em critérios como filiação, aptidão e vontade divina.

b. A sucessão mítica dos mestres

As informações disponíveis permitem reconstituir parcialmente a cadeia de transmissão, com variantes que representam diferentes ramos e que incluem figuras cujos nomes divinos, de origem egípcia, conferem um caráter sagrado à tradição e servem de modelo para a cadeia histórica.

2. As relações entre o mestre e seus discípulos

As relações entre o mestre hermético e seus discípulos são modeladas nas existentes entre Hermes e seus discípulos, adaptando-se à realidade de uma instrução que se prolonga no tempo e onde o caráter individual e privado do ensino é enfatizado, apesar da possível presença de ouvintes.

b. Mestre e discípulo, pai e filho

As designações de “pai” (πατήρ) e “filho” (τέκνον) na literatura hermética, embora possam refletir um topos de parentesco espiritual, também indicam, no caso de TáT, uma relação de parentesco biológico com Hermes, o que o distingue dos demais discípulos.

d. A aliança entre mestre e discípulo

Assim como entre Poimandres e o narrador, a relação entre mestre e discípulo hermética é fundada em uma aliança, onde o discípulo recorda uma promessa do mestre e o agradece ao final da formação, refletindo a realidade social da época com seus direitos e deveres recíprocos entre pai e filho.

e. Amon, o rei anônimo e o profeta

As relações na cadeia hermética podem variar, como exemplificado pelo papel de TáT em CH XVII, onde ele atua menos como um mestre e mais como um “profeta” ou “servo do deus” que instrui um rei anônimo sobre seus deveres religiosos.