Hermetismo

VIDE: Festugière, André-Jean; Bonardel, François; Faivre, Antoine

VAN DEN KERCHOVE, Anna. La voie d’Hermès: pratiques rituelles et traités hermétiques. Leiden Boston: Brill, 2012.

Os tratados atribuídos a Hermes Trismegisto formam um corpus literário de grande extensão temporal, geográfica e temática, geralmente dividido entre obras técnicas e tratados filosóficos, sendo que essa distinção, embora útil heuristicamente, não implica fronteira impermeável entre os dois grupos.

O corpus hermético filosófico compreende dezoito tratados e numerosos fragmentos de extensão variada, cujo texto mais antigo conhecido no Ocidente medieval é o Asclepius, transmitido entre as obras de Apuleio.

O Corpus Hermeticum foi redescoberto no Renascimento em três etapas: em 1460, o monge Leonardo da Pistoia trouxe da Macedônia um manuscrito grego com os quatorze primeiros tratados e o entregou a Cosme de Médicis, que encarregou Marsilio Ficino de traduzi-lo, com primeira edição em 1471; em 1507, Ludovico Lazzarelli publicou a tradução do CH XVI; e em 1554, Adrien Turnèbe editou dezessete tratados gregos com três fragmentos de Estobeu.

Novos textos herméticos só foram descobertos em meados do século XX, com destaque para 1945 e a descoberta perto de Nag Hammadi, no Alto Egito, de treze códices coptas datados de meados do século IV.

O conjunto hermético se completa com descobertas das décadas seguintes: em 1956, H.H. Manandyan publicou as Definições de Hermes Trismegisto a Asclépio em armênio; em 1991, J.-P. Mahé e J. Paramelle editaram novos fragmentos herméticos do manuscrito de Oxford Clarkianus 11 do século XIII; e em 1995, R. Jasnow e K.-Th. Zauzich relacionaram textos demóticos aos tratados herméticos.

Os tratados herméticos filosóficos, anônimos e sem referências precisas à época de redação, são geralmente situados pelos estudiosos entre o fim do século I e o fim do século III d.C., com algumas precisões possíveis para determinados textos.

Apesar da diversidade de pontos de vista decorrente de dois séculos de redação, três características comuns conferem coerência ao conjunto dos tratados herméticos filosóficos como pertencentes a uma mesma tradição — a via salvífica de Hermes — constituída, entretanto, de várias ramificações doutrinárias.

Desde sua redescoberta em meados do século XV, os tratados herméticos exerceram considerável atração sobre os eruditos, que viam em Hermes Trismegisto uma fonte mais antiga que Moisés e anterior ao pensamento de Platão, até que Isaac Casaubon afirmou que esses escritos não eram mais antigos que Platão e Aristóteles e datariam da era cristã.

O renovado interesse acadêmico pelos tratados herméticos no século XIX levou à incorporação desses textos à história comparada das religiões e ao surgimento de um debate sobre seu ambiente cultural original e suas influências.

Paralelamente, pesquisadores exploraram as relações dos tratados herméticos com o mundo bíblico, com destaque para C.H. Dodd, que relacionou CH I ao judaísmo e, com CH XIII, ao Evangelho de João, mantendo prudência quanto à influência direta de um texto sobre o outro — prudência que seria posteriormente esquecida por alguns.

A.-J. Festugière inaugurou nova etapa com inúmeros estudos herméticos e, a partir de 1938, em colaboração com A.D. Nock, editou e traduziu os textos herméticos — o Corpus Hermeticum, os fragmentos de Estobeu, o Asclepius e testemunhos antigos — completando esse trabalho com a obra monumental La Révélation d'Hermès Trismégiste, cujo contexto grego extenso por vezes ofuscava a análise dos próprios textos herméticos.

A identificação de três textos herméticos nos códices coptas orientou a pesquisa em nova direção, marcada pela obra de J.-P. Mahé, Hermès en Haute Égypte, que edita, traduz e comenta os três tratados coptas e as Definições armênias, enfatizando os vínculos com o Egito sem desconhecer influências helenísticas — falando em “remodelagem helenística” para NH VI, 8.

A ênfase no fundo egípcio caracteriza um amplo corrente que inclui P. Derchain e outros estudiosos que confrontam dados egípcios e gregos: S. Delcomminette analisa a distorção de ideias filosóficas; G. Fowden postula uma influência egípcia combinada a influências gregas e helenísticas, dando ênfase ao meio social, espiritual e geográfico dos textos; B.P. Copenhaver também se interessa pelo ambiente desses escritos.

Uma segunda abordagem prolonga os trabalhos de C.H. Dodd e H. Windisch pelo lado do judaísmo e do cristianismo, com estudos que buscam identificar autores judeus ou influências cristãs nos tratados herméticos.

O estudo dos vínculos com as correntes gnósticas, já esboçado antes da Segunda Guerra Mundial, intensificou-se com as descobertas de Nag Hammadi em torno de duas tendências: a classificação dos textos segundo seu caráter gnóstico e o estudo dos pontos de comparação entre textos gnósticos e herméticos.

A essas grandes abordagens somam-se estudos temáticos e filológicos, bem como numerosas traduções.