O consenso geral sobre a interpretação de Ralph Cudworth dos antigos é que ele se esforçou muito para forçar toda a filosofia antiga a se encaixar no molde do platonismo cristão, e usou seu platonismo como árbitro de vários tipos de filosofias ateístas e materialistas. Menos conhecidas são as ferramentas exegéticas que ele usou para alcançar esse resultado. Sugerimos que Cudworth não apenas seguiu os comentadores neoplatônicos em sua opinião sobre as doutrinas filosóficas antigas, mas também adotou suas ferramentas hermenêuticas.
Já no século XVIII, Johann Lorenz von Mosheim, tradutor latino de Cudworth, reclamava de algumas imprecisões interpretativas do autor inglês em relação aos textos antigos. No entanto, isso era muito óbvio e até normal se considerarmos o objetivo exegético ou skopos de Cudworth. Isso se explica pelo fato de Cudworth ter adotado e concordado plenamente com os princípios ou ferramentas hermenêuticas características dos comentadores neoplatônicos. Em relação à tonalidade particular de suas interpretações, ele manteve, como seus predecessores, a harmonia total entre Platão e Aristóteles, entendida como a identificação de suas filosofias. Quanto às ferramentas reais que empregou, Cudworth usa a sedimentação histórica de materiais doutrinários, o entrelaçamento e a interligação de fontes e citações e, finalmente, a marchetaria de unidades textuais habilmente unidas e adaptadas às necessidades da argumentação geral (Hoffmann 2000, 356–57).
(HEDLEY, Douglas; LEECH, David. Revisioning Cambridge platonism: sources and legacy. Cham: Springer, 2019)