Contexto do século VI a.C., dominado por problema filosófico e religioso do Um e do Múltiplo, com indagações sobre relação entre indivíduo e divindade e sobre realização da unidade potencial implícita em ambos, sendo que durante orgia dionisíacos efetuava-se certa união entre divino e humano, porém temporária e obtida através de aviltamento da consciência.
Resposta órfica à lição báquica, aceitando premissa de participação do homem no divino, mas extraindo conclusão lógica da imortalidade e divindade da alma, substituindo, assim, orgia por katharsis, técnica de purificação de caráter apolíneo.
Figura de Orfeu como citaredo transformado em símbolo e patrono de movimento religioso ao mesmo tempo iniciático e popular, conhecido como orfismo, caracterizado primariamente pela importância concedida a textos escritos, aos chamados livros.
Referências platônicas a quantidade de livros atribuídos a Orfeu e Museu, tratando de purificações e vida após a morte, e a hexâmetros de natureza teogônica.
Menções por Eurípides às escrituras órficas e conhecimento por
Aristóteles de teorias da alma contidas nos pretensos versos órficos.
Existência de um mercado para tais textos, disponíveis junto a livreiros.
Variedade considerável de indivíduos e grupos que se reclamavam órficos, evidenciando natureza heterogênea do movimento.
Autores de teogonias, ascetas e visionários.
Orpheotelestaí, ou iniciadores órficos, mencionados por Teofrasto.
Taumaturgos vulgares, purificadores e adivinhos, criticados por
Platão.
Reconhecimento de que fenômeno de pseudomorfoses e iniciações pueris é comum na história das religiões, em movimentos ascético-gnósticos, com paralelos em outras culturas.
Conclusão de que proliferação de imitadores não invalida realidade das ideias e rituais órficos centrais, sendo antes prova do prestígio e da eficácia percebida nas gnoses e técnicas soteriológicas associadas ao nome de Orfeu.
Concepção órfica da imortalidade e da condição humana, revelada através de alusões platônicas.
Alma punida por crime primordial, encerrada no corpo (soma) como em túmulo (sêma).
Existência encarnada equiparada a uma morte, sendo a morte o começo da verdadeira vida.
Crença em julgamento da alma e em transmigração (metempsicose) até libertação final.
Empédocles como seguidor da vida órfica, descrevendo alma como prisioneira e exilada, revestida de estranha túnica da carne, com vegetalismo justificado pela metempsicose.
Prática do vegetarianismo como recusa simbólica e religiosa profunda.
Abstinência de sacrifícios cruentos do culto oficial, significando separação da cidade e renúncia ao mundo.
Rejeição total do sistema religioso grego fundado no primeiro sacrifício de Prometeu, visto como origem da ruptura com época paradisíaca de comunhão com os deuses.
Vegetarianismo como gesto de expiação da falta ancestral e expressão de esperança de recuperar beatitude primitiva.
Conteúdo da chamada vida órfica, que combinava purificação, ascetismo e regras específicas, mas onde salvação era obtida principalmente através de iniciação baseada em revelações de ordem cósmica e teosófica.
Linhas gerais da doutrina órfica, reconstituídas a partir de testemunhos antigos, distinguindo-se uma teogonia/cosmogonia e uma antropologia singular.
Teogonia das Rapsódias: Tempo (Khrónos) produz ovo primordial no Aithêr, do qual emerge Eros/Phánês, princípio da geração; Zeus engole Phánês e toda criação, produzindo um novo mundo, num esforço de fazer do deus cosmocrata o criador e refletindo especulação filosófica sobre produção do múltiplo a partir da unidade.
Outras tradições teogônicas com princípios como Nyx, Oceano ou o Um.
Revelações do Papiro de Derveni, apresentando teogonia centrada em Zeus como começo, meio e fim, com Oceano e outras divindades como hipóstases suas, e proclamando unidade do lógos do mundo e do lógos de Zeus, ilustrando tendência monista.
Mito antropogônico órfico da origem do homem a partir das cinzas dos Titãs, claramente atestado em autores tardios, mas com alusões possíveis em fontes mais antigas.
Participação dual da natureza humana: elemento titânico e elemento divino (das cinzas que continham corpo de Dioniso criança).
Processo soteriológico através de purificações, ritos iniciáticos e busca da vida órfica para eliminar elemento titânico e tornar-se bákkhos, assumindo condição divina e dionisíaca.
Originalidade e implicações da concepção órfica do homem.
Paradoxo de concepção sombria e trágica que contém elemento de esperança ausente nas visões de mundo mesopotâmica e homérica.
Capacidade humana de libertar-se do elemento demoníaco da existência profana.
Presença de um dualismo espírito-corpo próximo ao platônico.
Conjunto de mitos, crenças e práticas que asseguram separação do órfico dos seus semelhantes e, em última instância, separação da alma do Cosmo, antecipando sistemas gnósticos e ecoando soteriologias indianas.