Sobre o inefável

PPAR

Essa sensação de “avançar no vazio” é sentida pelo pensamento humano assim que ele abandona o plano do discurso, que é o das ideias distintas. O mais elevado dos nossos pensamentos é ao mesmo tempo distinto e indistinto; para Damáscio, é o pensamento do todo absoluto, que compreende tudo e não exclui nada. Não é o todo pensado em sua relação com as partes, seja ele proveniente das partes, anterior às partes ou imanente a cada parte. A díade do todo e das partes está sempre em segundo plano e é uma mediação. A língua grega não conhece a ambiguidade que ocorre em francês quando se fala do todo ou da totalidade. A noção derivada e relativa do todo é expressa em grego por um neutro singular: to holon. E a do todo absoluto por um neutro plural: ta panta. Mas dizer em francês “os todos” ou “todas as coisas” querendo se aproximar o mais possível de ta panta é se afastar dela, pois é entender a multidão ilimitada de coisas distintas, não sua integralidade. A noção do todo absoluto também não é a de sistema, não é a coordenação de todas as coisas, sua sintaxe, pois nela ainda se pensa a distinção das partes. É ainda menos o universo sensível: to pan. O neutro plural é anterior ao neutro singular. A ideia pura do todo que expressa ta panta significa a realidade mais universal e envolvente. O um também está incluído nela, seja ele algo do todo, por exemplo, o ápice de tudo, ou seja ele o próprio todo. O todo compreende o ser e o não ser, o que está além da essência e o que está abaixo dela. Ele inclui a matéria. O todo está com seus limites, inferior e superior. E a totalidade é ela própria um limite; não é infinita, envolve o infinito. É a mais alta das determinações, mas continua a ser uma determinação.

É preciso conceber em toda a sua rigidez esta posição inicial do todo absoluto para compreender a primeira de todas as aporias: aquela que diz respeito à própria noção de princípio.

O um e o todo, o princípio e a causa, são para nós noções distintas, como as palavras que usamos para designá-las. Parece que podemos defini-las sem correr o risco de confundi-las. E não sentimos qualquer constrangimento em falar do princípio de tudo. Pensamos o princípio como distinto do todo e anterior a ele. Parece-nos que essa primazia implica transcendência e que a dignidade do princípio exige que ele seja separado de tudo.

Mas o todo continua sendo tudo se estiver depois do princípio e fora dele? E o princípio ainda é princípio se não tem relação com aquilo de que é princípio? Queríamos pensar distintamente o todo e seu princípio e eis que temos um todo que não é mais absolutamente tudo e um princípio que não é mais princípio. O que está livre de qualquer relação, o que não se coordena com o todo, como poderia ser princípio de tudo? Assim como a causa está relacionada com seu efeito, assim como o primeiro é primeiro em relação ao segundo, todo princípio é princípio de… Uma coisa que não fosse princípio de nada não mereceria mais ser chamada de princípio. O raciocínio tem a mesma simplicidade que o do Banquete. Mas dizer que todo amor é amor de… só pode desconcertar por um momento aquele que fazia do amor um absoluto. Logo ele verá que a essência do amor está na própria relação. Não poderia ser o mesmo com a noção de princípio. O pensamento exige o caráter absoluto do princípio e é dilacerado por exigências contraditórias. Assim, ele passa a pensar ora em sua transcendência, ora em sua relação com o todo, sem conseguir pensar nele ao mesmo tempo como absoluto e como relativo.

Dizer que a perfeição é ser autossuficiente era um axioma para o pensamento grego. O mais perfeito é aquele que não tem nenhuma necessidade, que é autarkestaton. Mas é natural admitir que uma coisa depende daquela que a precede imediatamente. A dependência que Damáscio considera é inversa, é a do superior em relação ao inferior.

Parece então que nada mais é sem necessidade. A necessidade que coordena as partes do todo faz com que todas as coisas, mesmo as primeiras, sejam relativas às que as seguem. O mais perfeito deveria estar sozinho. E o primeiro não está sozinho. A transcendência absoluta exigiria uma solidão infinita. Para encontrá-la, é preciso ousar avançar para fora do todo, ousar pensar o que não é nem algo, nem o todo em si, o que não é “nada”.

Mas a linguagem aqui se volta contra nós. Como falar assim sem se contradizer? Como pretender pensar além de tudo o que, de uma forma ou de outra, pode ser pensado? No entanto, nossa alma pressente (manteuetai) que, fora dos limites do todo que é finito, existe esse abismo onde ela se perde e do qual não pode fazer nada sem se contradizer imediatamente. Aquele, ou melhor, aquilo (ekeino), é pouco dizer que é indizível. O um também é indizível. O pensamento faz aqui mais do que sair dos limites do discurso. Ele ousa sair do todo e, lançado para fora de si mesmo e de tudo, é o exterior absoluto que ele enfrenta. O que ele fará senão girar sobre si mesmo e, se tentar se expressar, girar no círculo da contradição? Ele experimenta a reversão absoluta do pensamento e da linguagem. E, para escapar da vertigem, assim que vislumbra esse abismo, ele volta atrás. Ele sabe que o nada não pode ser pensado. Ele também sabe que precisa necessariamente admiti-lo. Há muito mais aqui do que o reconhecimento de nossa impotência. O fracasso não nos esclarece apenas sobre nós mesmos. Se não há conhecimento, há uma exigência. O primeiro gesto do pensamento é colocar o todo. Mas, assim que o coloca, ele vê que a negação de tudo é a própria condição da afirmação do todo. É a mais original de todas as condições. É o primeiro fundamento (he prote hypothesis).

A quem não vê que é necessário admitir, no horizonte do todo, essa origem pura, responderemos que “essa exigência é, de todas, a mais necessária, pois, a partir dela, como de um santuário, todas as coisas procedem, do indizível e de um modo indizível”. Mas não encontramos aqui a contradição inicial da qual não podemos sair? Esse absoluto, tornamo-lo um princípio se é dele que todas as coisas nasceram. E, dessa origem, elas conservam a marca. A menor das realidades é, ela também, em algum grau indizível. Em cada uma, há algo de absoluto. E, em primeiro lugar, em nós mesmos. “Poderíamos pressenti-lo se não houvesse em nós nenhum traço dele, se nada nos empurrasse em direção a ele?” De onde viria “a consciência indizível (não sei como me expressar) dessa verdade sublime”? O princípio indizível de tudo não é apenas nada, é o nada (to ouden). Em que difere de “aquilo que não é absolutamente, sob nenhum aspecto”? Basta dizer que o primeiro é entendido “no sentido da perfeição” e o segundo no sentido da imperfeição? É a nossa alma que sabe em que diferem o “melhor” e o “pior”. É para ela que existem dois nãos. Ela pode se unificar ou se dispersar, se tensionar ou se relaxar. O além do um e o além da matéria designam dois limites do movimento da alma. É entre eles que se situam o conhecimento e o discurso. Existem dois nãos, assim como existem dois silêncios: aquele de onde nasce a palavra e aquele em que ela morre quando não há mais nada a dizer.

Se o convite para “permanecer em repouso, no santuário indizível da alma” parece mais místico do que metafísico, não há teologia aqui. E o princípio indizível não é Deus. A questão do absoluto não é a das relações entre Deus e o mundo. Esse jogo apertado de pura metafísica se desenrola, nas primeiras páginas do Tratado dos Princípios Primeiros, no plano das ideias puras, entre o todo, o algo e o nada.