Faculdades Essência da Alma

Ennéades (tr. Bouillet)

Das faculdades que constituem a essência da alma.

V. Plotino retira da alma pura as faculdades irracionais, a Sensibilidade, a Imaginação, a Memória, o Raciocínio. A Razão pura é a única faculdade que atribui à essência pura da alma e que considera como conforme à ideia desta essência. — Democritos, o platonista, reúne na essência da alma todas estas espécies de faculdades. — Platão divide as faculdades em faculdades que não dependem senão de si mesmas e faculdades que pertencem ao animal, e define cada espécie por aquela das duas vidas [racional ou animal] à qual se reporta.

[FACULDADES NATURAIS: Potência nutritiva, Potência generativa.] Plotino e Porfírio pensam que as faculdades próprias a cada parte do universo [isto é, a cada ente considerado como animal] são produzidas pela Alma universal, e que [à morte dos animais] as faculdades produzidas de qualquer maneira que seja pela Alma universal se esvanecem e cessam de existir, como a vida de um vegetal engendrado por uma razão seminal finda quando a razão seminal se retira dele para reentrar em si mesma [remontando à Alma que a produziu]. Mas poder-se-ia admitir com razão, ao que parece, que estas faculdades existem sempre no universo e não perecem.

VI. [FACULDADES IRRACIONAIS: Apetite, Sensibilidade, Opinião, Imaginação, Memória.] Além destas faculdades [o Apetite e a Sensibilidade] que são inteiramente comuns à alma e ao corpo [porque, supondo o exercício dos órgãos, se ligam ao corpo que lhes serve de matéria], há outras faculdades que dependem da alma [porque não supõem o exercício dos órgãos], mas que não constituem todavia a sua essência [porque se exercem sobre os dados da Sensibilidade]: tal é [com a Opinião e a Imaginação] a Memória, que é a conservação das imagens.

VII. [FACULDADES RACIONAIS E INTELECTUAIS: Vontade, Razão discursiva, Inteligência]. Quanto à Inteligência e às faculdades mais eminentes da alma, os Estoicos dizem que a Razão não é inata, que não existe em nós a priori, mas que é produzida em nós a posteriori, por volta da idade de quatorze anos, pelas sensações e pelas representações sensíveis das quais é o resultado. — Os Pitagóricos e os Platonistas dizem, ao contrário, que a Razão está presente mesmo nos recém-nascidos, mas que é obscurecida pelas sensações dos objetos exteriores e que dormita em vez de exercer a sua função própria.

Para a Inteligência, muitos Peripatéticos dela distinguem duas espécies: a Inteligência que provém da semente (ho ek tou spermatos nous) e a Inteligência que provém da natureza (ho apó tes physeos nous): afirmam que uma se desenvolve imediatamente desde o nascimento, mas que a outra, a Inteligência separável e vinda de fora (ho khoristós kai thyrathen kaloumenos), não se junta à precedente senão muito tarde, quando a Inteligência em potência está completamente desenvolvida, porque é somente então que ela pode participar do pensamento em ato. — Muitos Platonistas mesmos pensam que a Inteligência entra no corpo com a alma, que a alma e a sua inteligência não constituem duas essências diferentes.

Das Operações da alma.

VIII. Quem não sabe que Aristóteles afirma simultaneamente que a alma é imóvel e que é a causa dos movimentos? Se o que é imóvel é igualmente inativo, a alma será inativa como é imóvel e [sem agir ela mesma] será a causa dos atos como é a causa dos movimentos. Se, como alguns afirmam, o ato é o fim, a ligação, a união e a causa estável dos movimentos; se, ademais, como avança Aristóteles, a entelékheia imóvel da alma contém o ato em si mesma, será o ato mais perfeito que produzirá as diversas operações próprias ao animal.

Segundo Platão, ao contrário, a produção das operações próprias ao animal está longe de ser inerente à essência e à vida da alma. É evidente, sem dúvida, que a alma faz parte do composto; mas como há no animal mudança, divisão, extensão em relação ao corpo, intervalo em relação ao tempo e ao lugar, coisas todas que são estranhas à vida incorpórea em si, é claro também que, segundo Platão, nenhum dos movimentos do composto é próprio à alma mesma. De modo que, conforme este filósofo, há em nós duas vidas, uma separada do corpo, outra comum ao corpo e à alma, do mesmo modo há funções (energemata) que pertencem à alma, e outras que pertencem ao composto. Entre estas últimas, umas têm a sua origem na alma, outras nascem das afecções do corpo, outras provêm simultaneamente da alma e do corpo, mas todas têm a alma por causa comum. Do mesmo modo que a marcha de um navio depende simultaneamente do vento e do piloto e que, se o movimento não pode ter lugar sem o concurso de diversas outras coisas, o piloto e o vento contêm todavia em si a causa principal; do mesmo modo, a alma serve-se ela mesma de todo o corpo e dele governa todas as ações, dirigindo-o como um carro ou um instrumento; mas, ao mesmo tempo, tem em si mesma movimentos que lhe são próprios e que, não dependendo do animal, realizam a vida que lhe é essencial, tais como o entusiasmo, o pensamento puro e, em geral, todos os atos pelos quais nos unimos aos deuses.

É o que não concedem os filósofos que fazem da alma um corpo, como os Estoicos e uma multidão de outros; nem aqueles que a concebem misturada com a geração [com o corpo], como a maior parte dos Físicos; nem aqueles que supõem que ela é um produto do corpo, que consiste em uma espécie de harmonia.