Destino da Alma

HLADKÝ, Vojtěch. The philosophy of Gemistos Plethon: Platonism in late Byzantium, between Hellenism and orthodoxy. Farnham: Ashgate, 2014.

As orações fúnebres à Despoina Cleope Malatesta e à Imperatriz Helena Dragaš, compostas em 1433 e 1450, constituem exemplos notavelmente inusitados das capacidades retóricas de Gemistos: após a recapitulação obrigatória da ascendência das homenageadas — inserida, como era seu costume, em um contexto mitológico e histórico mais amplo — e o elogio de suas virtudes, Gemistos surpreende seus ouvintes ou leitores com uma série de argumentos puramente racionais em defesa da imortalidade da alma, sem recorrer aos tradicionais motivos cristãos.

No Sobre Cleope, Gemistos recorda que a Despoina era oriunda da Itália — ocupada na Antiguidade pelos romanos, que conquistaram quase todo o mundo habitado —, elogia sua beleza e suas virtudes (prudência, temperança, clemência, honestidade, piedade, amor ao marido e nobreza) e registra sua conversão à Ortodoxia, identificando-se ele mesmo, ao menos formalmente, com ela.

Para mitigar o luto pela morte da Despoina, Gemistos desenvolve um argumento sobre a imortalidade da alma humana: se não houvesse nada imortal no ser humano, o desespero causado pela morte seria incurável, mas há em nós uma parte mortal e outra imortal — sendo esta última a parte principal, o que verdadeiramente somos —, e a parte mortal é como uma túnica ajustada à parte imortal.

Gemistos fundamenta a realidade da vida após a morte em dois argumentos convergentes: a antiquidade e universalidade da crença na imortalidade da alma, e a analogia entre o modo como todos os povos veneram o divino e o modo como veneram os mortos — tratando ambos como existentes e continuando em sua existência, e não como inexistentes.

Gemistos reforça seu argumento com uma reflexão sobre o suicídio: nada deseja sua própria destruição, e os animais irracionais não se matam deliberadamente; a alma suicida ou considera que não lhe é mais proveitoso permanecer no corpo, ou está ao menos convencida de que o suicídio não lhe causará dano algum — e assim apenas se vai, deixando o corpo.

Na Oração Fúnebre a Helena, composta vinte anos depois, Gemistos retoma seu procedimento habitual de demonstrar a continuidade entre a Antiguidade e seu próprio tempo, descrevendo Helena como “trácia” — nome de uma tribo antiga que os bizantinos aplicavam aos povos eslavos dos Bálcãs, sendo Helena uma sérvia — e ressaltando a antiguidade e a importância histórica dos trácios.

No argumento sobre a imortalidade da alma desenvolvido no Sobre Helena, Gemistos sustenta que a morte deve ser entendida não como destruição total, mas como partida da “parte melhor e principal de nós (to ameinon te kai kyrioteron hemon)” para o lugar que lhe é próprio, e que a opinião contrária torna moralmente piores os que a adotam — pois se tornam medrosos diante da morte.

O argumento sobre o suicídio é retomado na Oração a Helena de modo análogo ao da oração anterior, mas com acréscimo explicativo: se os seres humanos fossem compostos de uma única essência mortal, não poderiam se matar, dado o princípio de que tudo tende a preservar sua própria existência — e quando alguém se suicida, “não é a parte mortal que mata a mortal, mas a imortal que mata a mortal”: “In Hel. 278.4—279.2.”

Assim como na oração anterior, Gemistos encerra o argumento afirmando que as nações mais antigas e veneráveis do mundo creram na imortalidade da alma humana, e que a morte é apenas a partida da parte principal de nós para o lugar que lhe é próprio — onde os bons serão recompensados e os maus punidos pelo mais justo Deus, “o juiz cujas intenções não podem ser alteradas”.