II, 7 SOBRE A MISTURA TOTAL

Tratado 37

Brisson & Pradeau

BP

  • São os estoicos que desenvolveram a teoria da mistura total: dois ou mais corpos podem, conservando sua natureza própria, se unir de modo que um corpo se estenda à totalidade de outro sem que haja acréscimo, como uma gota de vinho que se estende a toda uma medida de água ou o incenso que perfuma o ar de um cômodo inteiro.
    • A mistura total serve de base à filosofia corporalista dos estoicos, que estimam que as qualidades, a matéria, a alma e deus são corpos, explicando como as qualidades existem na matéria, como uma alma se estende a todo um corpo e como deus se difunde no universo.
  • Plotino refutou a doutrina da mistura total desde o tratado 2 (IV, 7), 82, ao atacar a doutrina estoica segundo a qual a alma é um corpo: mostrando que os corpos não podem se misturar totalmente uns aos outros como faz a alma com o corpo, Plotino pretende provar que a alma não pode ser um corpo.
    • Plotino alega contra a mistura total que a interpenetração completa de dois corpos implicaria a igualdade de massas entre o corpo maior e o menor, o que é absurdo; e que a mistura total supõe que os corpos são divisíveis ao infinito não apenas em potência, mas também em ato, o que é impossível.
  • No tratado 37, Plotino opõe à doutrina da mistura total três objeções de origem peripatética: se dois corpos se penetram totalmente, se dividirão completamente e perecerão; um acréscimo ocorre em vários casos de mistura; e como um corpo pequeno pode se estender à totalidade de um corpo maior?
    • Os peripatéticos preferem admitir que apenas as qualidades se misturam e que as matérias dos corpos que se unem se justapõem umas às outras.
    • Plotino indica que essas objeções foram efetivamente dirigidas aos estoicos e figuram na lista de críticas enumeradas por Alexandre de Afrodísias contra a mistura total, conforme Sobre a mistura 119, 32-220, 11 e 220, 13-16.
  • A doutrina plotiniana da mistura se distingue tanto da dos estoicos quanto da dos peripatéticos: existem casos de mistura total, como quando a água atravessa um fio de lã ou impregna uma folha de papiro; mas tal mistura não ocorre nem tão frequentemente quanto pretendem os estoicos, nem do modo que acreditam, pois a matéria e as qualidades não são corpos.
    • Quando as matérias dos corpos se misturam, não precisam nem se dividir nem se justapor, pois a matéria é por definição incorpórea; são em definitivo certas qualidades que, uma vez unidas a uma matéria e a um corpo, recusam se misturar a certas outras qualidades, como a “densidade”, que impede um corpo de se misturar a outro que também possua essa qualidade.
  • O tratado se encerra com uma definição da corporeidade, questão que adquire todo o seu sentido no contexto estoico, em que matéria, alma, deus e qualidades são ditos corpos.
    • Plotino já havia abordado o assunto no tratado 12 (II, 4), 12: a matéria, desprovida de toda qualidade própria, não pode ser um corpo, pois não possui em si mesma grandeza, cor, medida, peso nem nada que pertença à qualidade.
    • A corporeidade é portanto uma forma ou uma “razão” que vem na matéria, uma determinação formal que se acrescenta à matéria para produzir um corpo; quando produz as coisas sensíveis, a alma envia na matéria “razões”, ou seja, princípios racionais que contêm as características formais da coisa produzida, incluindo a corporeidade, de modo que a matéria, unida a essa razão, produz o que se chama de corpo.

Igal

BCG57

É sabido que os estoicos distinguiam três tipos de composição dos corpos: 1) a «justaposição» (paráthesis), em que os componentes se encostam ou se entrelaçam, mas não se penetram totalmente; 2) a «interpenetração total» (di’hólon krâsis), em que até mesmo as partículas infinitesimais dos componentes se permeiam totalmente até o infinito, mas sem que os componentes se destruam nem percam suas próprias qualidades; 3) a «co-fusão» (sýnchysis), na qual os componentes perdem suas próprias qualidades para dar origem a um composto com qualidades distintas das de seus componentes[1]. Os peripatéticos, por sua vez, rejeitavam categoricamente a compenetração no sentido estoico. Segundo eles, quando há compenetração, são as qualidades e somente as qualidades que se compenetram, enquanto as matérias e as massas se justapõem, mas não se compenetram[2]. Neste breve tratado do segundo período (Vida 5, 41), Plotino aborda esse problema e, após ponderar os prós e os contras de ambas as formas de compenetração, a estoica e a peripatética, adota uma posição intermediária que pode ser resumida nas três teses a seguir: 1) não é certo que todos os casos de compenetração aduzidos pelos estoicos o sejam realmente[3]; 2) mas há alguns casos evidentes de compenetração no sentido estoico, por exemplo, o caso da lã ou do papiro encharcados; 3) nesses casos, no entanto, a explicação deve basear-se nas duas suposições a seguir: em primeiro lugar, a matéria não é corpo, como pensavam os estoicos, mas incorpórea, tão incorpórea quanto as qualidades, e a própria corporeidade é uma forma; não se segue, portanto, que dois corpos se cortem, por mais que se compenetrem; em segundo lugar, a incorporeidade da matéria é apenas o pré-requisito indispensável da compenetrabilidade; o fator determinante para que a compenetração se verifique em alguns casos e não se verifique em outros são as qualidades, mas não enquanto qualidades, e sim enquanto tais qualidades.

Armstrong

APE

Este pequeno tratado (n.º 37 na ordem cronológica de Porfírio) é dedicado à discussão da curiosa doutrina estoica segundo a qual duas substâncias materiais, quando misturadas, podem interpenetrar-se totalmente uma na outra. Essa doutrina suscitou bastante oposição, especialmente por parte dos peripatéticos, e Plotino inicia sua discussão expondo as objeções peripatéticas a ela. Aqui, ele segue de perto a exposição apresentada por Alexandre de Afrodísias em seu De Mixtione e Quaestiones et Solutiones II. 12 (ed. Bruns, p. 57). Ele parece frequentemente ter constatado que a leitura crítica do grande expositor e comentarista aristotélico estimulava seu próprio pensamento. Em seguida, ele apresenta a resposta estoica aos argumentos peripatéticos e, finalmente, no cap. 2, suas próprias reflexões sobre a questão, que o levam a uma crítica à visão peripatética de que é a impenetrabilidade da matéria que impede a interpenetração total dos corpos. Dando continuidade a uma breve admissão de Alexandre (cf. a excelente introdução de Brehier a este tratado), ele mostra que a impenetrabilidade de um corpo deve-se às suas qualidades, e não a qualquer propriedade inerente da matéria.

O cap. 3 é um apêndice ou nota de rodapé sobre a “corporeidade”, que Plotino defende, contra Alexandre de Afrodísias, não ser apenas uma definição geral abstrata, mas o princípio formativo que torna os corpos corpóreos — uma boa ilustração da diferença entre a maneira platônica e a aristotélica de pensar sobre os universais.

Lloyd

LPE

Os estóicos defenderam a visão bastante contraintuitiva de que dois corpos poderiam se fundir completamente um com o outro, ou seja, interpenetrar-se de tal forma que ambos acabassem ocupando o mesmo espaço contínuo (ver SVF 2.463–481). Essa visão foi objeto de uma longa crítica por parte do peripatético Alexandre, sobretudo em seu tratado Sobre a Mistura, mas também em outros lugares (especialmente Perguntas e Respostas 2.12 e Mantissa 139.29–141.28), que defendia a impossibilidade dessa interpenetração da matéria. Sabemos, pela obra Vida de Plotino (§14), de Porfírio, que Plotino leu Alexandre, e podemos supor que a própria discussão de Plotino aqui tenha sido influenciada por Sobre a Mistura. Plotino começa colocando as visões estoica e peripatética em oposição uma à outra (§1) antes de passar a desenvolver suas próprias visões (§§2–3).