BP
Ao apresentar sua própria tradução do Tratado 30, em 1925, Émile Bréhier advertiu assim seu leitor: «Temos neste tratado a obra mais característica e talvez a mais completa, do ponto de vista da forma e do pensamento, de todas as obras de Plotino» (Enéadas III, p. 149). O julgamento entusiástico de É. Bréhier resultou de uma impressão de leitura que todos os leitores de um tratado experimentam, que se distingue, de fato, por sua economia argumentativa e sua clareza, mas também e sobretudo pelo caráter sintético e acadêmico de seu conteúdo. Ao redigir este texto, Plotino manifestamente quis apresentar nele, resumindo-as e ordenando-as entre si, as principais teses de uma doutrina bem estabelecida. O conteúdo já redigido dos vinte e nove primeiros tratados editados por Porfírio deu origem a precisões, análises ou esclarecimentos nos quais Plotino parece basear-se para propor o que se pode ousar designar como uma introdução à sua própria filosofia. Não que Plotino resuma ali todo o seu ensinamento, mas porque ele relembra aqui quais são as principais realidades, explicando com muita simplicidade a maneira como elas se geram umas às outras e ainda a maneira como se constituem e se formam umas em relação às outras.
O tratado 30 considera o conjunto das realidades existentes sob o aspecto da contemplação (theōría), que é sua atividade comum, mas que é também seu fim, o objetivo que todas perseguem. Plotino demonstra isso por meio de exemplos e passo a passo, partindo das formas de existência mais rudimentares, os minerais e os vegetais, e depois elevando-se em direção ao que não contempla, mas que é o objeto último de toda contemplação e a fonte de todas as coisas: o próprio Um. A tese que orienta essa ascensão não poderia ser mais simples, pois afirma apenas o seguinte: toda existência, seja ela qual for, contempla aquilo de que provém e, ao exercer essa contemplação, aperfeiçoa-se a si mesma e, por sua vez, gera. Temos aqui uma espécie de mecanismo genético rudimentar que relaciona todas as realidades e que explica, à sua maneira, a continuidade, se não a coerência, do conjunto das realidades.
BCG57
Por sua originalidade e profundidade, o presente tratado é um dos favoritos dos estudiosos de Plotino. Já indicamos repetidamente que, originalmente, ele fazia parte de um grande escrito antignóstico do segundo período (Vida 5, 26-34), constituído por quatro tratados distribuídos arbitrariamente na edição de Porfírio: III 8, V 8, V 5 e II 9. O próprio Porfírio deixa transparecer a dificuldade de situar III 8 na Enéada III, supostamente de caráter cosmológico. Para compreender o caráter e a estrutura da tetralogia antignóstica, é preciso levar em conta que os leitores em que o autor pensava ao compô-la não eram tanto os próprios gnósticos, mas os membros de sua própria escola. Por isso, ela foi concebida como um antídoto: era preciso imunizá-los contra a tentadora «gnose» com uma «contragnose»; era preciso contrariar as fantásticas Revelações que os gnósticos esgrimiam com a «revelação» simples dos sublimes mistérios do platonismo. E, de fato, os três primeiros tratados da tetralogia apresentam o caráter de uma revelação gradual, seguindo o método ascendente adotado, em contextos semelhantes, pelo próprio Platão, na forma de um tríptico: 1) antes de tudo, a revelação da realidade como constituída por uma escala ascendente de graus de contemplação (tema de III 8, 1-8); 2) em seguida, a revelação do mundo inteligível como preliminar à grande revelação do Um-Bem a partir da unidualidade, unimultiplicidade e boniformidade da segunda Hipóstase (tema de III 8, 9-11) e a partir da Beleza do mundo inteligível (tema de V 8) e da Verdade da Inteligência (tema de V 5, 1-3); 3) finalmente, como culminação de todo o processo ascendente, a grandiosa revelação do primeiro Princípio, primeiro como Um e depois como Bem (tema de V 5, 4-13). Somente então, e após uma recapitulação, desta vez em ordem descendente (II 9, 1-3), Plotino se prepara para contestar seletivamente algumas das teses dos gnósticos, tal como indicamos na introdução a II 9.
APE
Este tratado (n.º 30 na ordem cronológica) é, na verdade, a primeira parte de uma grande obra de Plotino, que inclui também os n.ºs 31-33 (V8, V5 e 119), cujas quatro seções Porfírio separou arbitrariamente e colocou em três Enéadas diferentes, de acordo com seus próprios princípios de organização, excessivamente rígidos e sistemáticos. A doutrina da contemplação que nele está contida é o cerne da filosofia de Plotino. Ele apresenta a contemplação como a fonte e o objetivo de toda ação e produção em todos os níveis: para ele, toda a vida é essencialmente contemplação. E, ao mostrar isso, ele conduz nossas mentes desde o nível mais baixo da vida contemplativa, o da Natureza, a última fase da Alma que é o princípio imanente do crescimento, passando pela Alma para participar da contemplação do Intelecto do Um ou do Bem, que ele demonstra estar além dela como fonte de contemplação e vida. Nas duas partes seguintes em que Porfírio dividiu a obra (V8 e V5), ele desenvolve seu pensamento primeiro sobre a beleza e, em seguida, sobre a verdade do Intelecto, e novamente conduz nossas mentes de volta a partir dela para o Bem. Nos três primeiros capítulos de 119, ele resume seu pensamento sobre o Um, o Intelecto e a Alma; em seguida, acrescenta um apêndice polêmico, dirigido contra os membros gnósticos de seu círculo, que ocupa o restante do tratado.
LPE
Este tratado faz parte de uma obra mais extensa [“a Grossschrift”] (que inclui os capítulos 5.8, 5.5 e 2.9), que Porfírio dividiu em sua edição. Trata-se de sua discussão mais ambiciosa sobre o papel vital da contemplação e de todas as suas diferentes formas e intensidades em todos os níveis da realidade. Embora seu foco principal seja a estrutura da própria realidade, a atividade da contemplação humana individual surge com frequência ao longo do texto.