TRATADO 03 (III,1) – SOBRE O DESTINO

Enéada III,1

Brisson & Pradeau

BP

Capítulo 1: Todas as coisas têm ou não têm uma causa?

1-6. Ou todas as coisas têm uma causa, ou não têm.

6-13. Entre as coisas eternas, as primeiras não têm causa.

13-24. As coisas em devir têm todas uma causa.

16-24. Portanto, deve-se rejeitar uma explicação baseada nos átomos ou em uma tendência impulsiva da alma.

É necessário distinguir entre causas próximas e causas remotas.

24-36. As causas próximas.

Capítulo 2: As causas remotas, exame e refutação das diferentes opiniões.

1-9. As causas remotas.

As cinco opiniões relativas às causas remotas:

10-15. Para os epicuristas, as causas são os átomos.

15-17. Para os “fisiologistas”, os elementos.

17-25. Para alguns, o destino.

26-30. Para os astrólogos, o movimento dos astros.

30-36. Para os estoicos, a cadeia de causas.

Capítulos 3 a 7: Refutação dessas cinco opiniões.

Cap. 3, 1-8. As opiniões segundo as quais as causas remotas são corporais.

Cap. 3, 9-29. A opinião dos epicuristas.

Cap. 3, 29-34. A opinião dos “fisiologistas”.

Cap. 4, 1-9. As opiniões segundo as quais as causas remotas são incorpóreas: a existência do destino.

Cap. 4, 9-28. O determinismo absoluto anula tanto o destino quanto nossa autonomia.

Cap. 5 e 6. A opinião dos astrólogos também anula nossa autonomia.

Cap. 7. A opinião estoica sobre a cadeia de causas também anula nossa autonomia e multiplica os intermediários.

Capítulos 8 a 10: A compreensão plotiniana do destino.

Cap. 8, 1-8. A alma, tanto a do universo quanto a do indivíduo, é a causa remota.

Cap. 8, 8-20. Separada do corpo, a alma é livre; num corpo, ela não tem mais liberdade total, mas sua liberdade varia de acordo com sua bondade.

Cap. 9. Sob o domínio do exterior, a alma não age voluntariamente; mas se ela se rege pela razão pura, ela age voluntariamente.

Cap. 10. Conclusão: Existem dois tipos de causas, a alma e as causas externas.

Bouillet

Ennéades

(I-II) As essências primeiras não têm causa, pois sempre existem. As essências que dependem das essências primeiras também derivam delas a sua existência. Quanto às coisas que vêm a ser, todas têm uma causa. Apenas os filósofos explicam sua origem de diversas maneiras. Uns atribuem tudo aos átomos ou aos elementos, outros ao Destino, que definem de diferentes formas, outros ainda aos astros.

(III) A doutrina dos átomos não consegue explicar os fatos que ocorrem no mundo, pois pressupõe que tudo acontece por acaso. A doutrina dos elementos suscita as mesmas objeções.

(IV) Não se pode admitir (como Heráclito) que uma única causa, chamada Destino, atue sozinha no universo: pois tal sistema destruiria a cadeia de efeitos e causas, já que, a partir daí, existiria apenas um único ser, que atuaria em todos os outros seres.

(V-VI) Também não convém atribuir tudo o que acontece à ação dos astros, como fazem os astrólogos. Sem dúvida os astros exercem uma influência física sobre nosso corpo, mas nada podem fazer sobre nossa alma. Além disso, devemos aos nossos pais muitas de nossas qualidades físicas. Os astros não são, portanto, os autores dos acontecimentos; são apenas seus sinais, em virtude das leis da analogia.

(VII) A doutrina (estoica) de que todas as coisas derivam umas das outras por uma cadeia fatal destrói a liberdade humana, pois, nesse caso, todas as nossas determinações são impulsos que recebemos do Destino.

(VIII-X) Para preservar a liberdade do homem sem destruir a cadeia e a ordem dos fatos no universo, é preciso admitir dois tipos de causas: em primeiro lugar, a alma humana; em segundo lugar, as causas secundárias que dependem da Alma universal. Quando a alma humana se determina a um ato pela influência que as coisas externas exercem sobre ela, ela não é livre. Seus atos só são verdadeiramente independentes quando ela obedece à razão pura e impassível, quando não é desviada pela ignorância nem dominada pela paixão.

Igal

BCG57

I. INTRODUÇÃO (capítulos 1-2)

1. Hipóteses possíveis sobre a causalidade ou não causalidade das coisas, tanto daquelas que “se tornam” quanto daquelas que “são” (1, 1-8).

2. Hipótese verdadeira. Das coisas eternas, uma é incausada e as outras são causadas. Das coisas que se tornam, todas são causadas. Os atos variáveis da alma humana requerem, como motivo, o objeto da vontade ou do apetite (1, 8-24).

3. Causas próximas e causas remotas. Nas coisas que se tornam, as causas próximas são óbvias: a decisão, a arte, o acaso e a natureza. Mas o filósofo deve remontar às causas remotas (1, 24-2, 9).

4. Teorias sobre as causas remotas. Alguns recorrem aos átomos ou aos elementos; outros, a uma Alma única e onipresente, identificada com a fatalidade; outros, aos astros, e outros, à concatenação causal. Outros, por outro lado, postulam vários princípios (2, 9-40).

II. REFUTAÇÃO DAS DIVERSAS FORMAS DE DETERMINISMO (cap. 3-7).

1. Atomistas e Empédocles (cap. 3):

a) Os átomos, mesmo supondo que existam, não explicariam nem a ordem cósmica, nem a fatalidade, nem a adivinhação, nem os movimentos anímicos, nem os gêneros de vida (3, 1-29).

b) Os mesmos argumentos e outros semelhantes valem contra os elementos de Empédocles (3, 29-34).

2. Estoicismo de Zenão. Trata-se de um monismo radical que, por isso mesmo, além de ser incompatível com a concatenação causal que introduz, anula o homem como indivíduo (cap. 4).

3. A astrologia. Ao atribuir aos astros uma causalidade onipotente, ela anula o homem, confunde presságios com influências, ignora a existência de outros fatores causais e mancha a santidade dos astros divinos (cap. 5-6).

4. O estoicismo de Crisipo. Pretende conciliar a concatenação causal com o livre arbítrio, mas em vão: as causas antecedentes serão determinantes das representações, e estas, das tendências; o homem ficará reduzido ao nível dos seres irracionais e até mesmo ao dos inanimados (cap. 7).

III. POSIÇÃO DE PLOTINO (caps. 8-10).

1. É necessária uma causa adicional: a alma, não apenas a do cosmos, mas também a alma individual (8, 1-8).

2. Dois estados da alma: quando está fora do corpo, é totalmente livre; quando está no corpo, é menos livre, e a alma inferior menos do que a superior (8, 9-20).

3. Dois tipos de atos da alma: os não voluntários, quando a alma age compelida por circunstâncias externas; os voluntários e livres, quando age por si mesma e tomando a razão como guia (cap. 9).

4. Em conclusão, há dois tipos de causas: a alma e o destino, este concebido como causa externa; e dois tipos de homens: os virtuosos, que realizam ações nobres e livres, e os demais, que, ocasionalmente, também podem realizar ações nobres, desde que não sejam impedidos (cap. 10).

Armstrong

APE

Enunciado formal do problema a ser discutido: o da causalidade. Todas as coisas têm uma causa, exceto os princípios primeiros. A explicação peripatética das causas imediatas dos eventos é aceita como verdadeira dentro de seus limites (cap. 1). Mas é preguiçoso e superficial não buscar causas superiores e mais remotas, e os filósofos, de fato, assim o fizeram. As principais explicações não platônicas; todas as coisas, inclusive o pensamento e a ação humanos, são causadas por (a) átomos (os epicuristas) ou (b) a alma do mundo (estoicos ou platônicos estoicizantes; ver nota ao cap. 4) ou © as estrelas (astrólogos) ou (d) a cadeia universal de causalidade (estoicos) (cap. 2). Refutação destas na mesma ordem: (a) cap. 3, (δ) cap. 4, © caps. 5-6, (d) cap. 7. Breve exposição da verdadeira doutrina platônica; alma universal e almas individuais; liberdade de ação racional e virtuosa (caps. 8-10).

Lloyd

LPE

§1. Todas as coisas têm uma causa, exceto a primeira.

§2. Os epicuristas postulam causas corporais, os estóicos um único princípio (o destino), outros os corpos celestes (uma espécie de destino).

§3. Rejeição da teoria epicurista, especialmente como explicação dos processos cognitivos e comportamentais.

§4. Rejeição da teoria estoica da alma do cosmos, que leva à negação de que somos responsáveis por nossas próprias ações.

§5. Rejeição da visão dos astrólogos, que também negam a responsabilidade humana.

§6. Os corpos celestes exercem alguma influência causal na manutenção da ordem cósmica geral, mas não são responsáveis por traços e características individuais.

§7. Rejeição da teoria estoica de um único princípio causal que interpenetra o universo.

§8. A alma, na doutrina platônica, está no controle na proporção de sua perfeição, mas sob restrição quando cede ao externo.

§9. A alma age voluntariamente apenas quando age de acordo com a razão.

§10. As coisas são causadas pela alma e pelos fatores externos (destino). A alma é passiva quando cede aos fatores externos, ativa quando usa a razão.